Design
Design e transformação

Design e transformação

Conhecer o trabalho da jornalista Adélia Borges, no começo da minha carreira também como jornalista, nos anos 2000, foi uma espécie de alumiação. O caderno Fim de Semana, publicado às sextas-feiras na Gazeta Mercantil/SP, reunia tudo o que um leitor ávido por informação cultural desejava. Adélia se destacava no time. Escrevendo sobre design e assinando a coluna Contemporânea, seu olhar sofisticado e ao mesmo tempo capaz de enxergar a importância de ser claro e acessível garantia não apenas textos corretos, bem apurados e bem escritos, mas reflexões que, pelo menos para mim, “martelavam” durante a semana. Adélia, falando de design, falava da vida, do lugar em que a gente vive, de alegrias compartilhadas, de afeto.

Não demorou muito para que eu – como acontece para muitos jovens profissionais – elegesse Adélia o meu ídolo no jornalismo. Graças às facilidades proporcionadas pelo e-mail, escrevi a ela e obtive um retorno gentil e atencioso que, pouco tempo depois, resultou em alguns encontros em São Paulo e em Maceió e transformou-se numa amizade. Adélia é uma pessoa querida e continua, agora mais do que nunca, a ser uma das profissionais que mais admiro.

Ler seu mais novo livro, Design + Artesanato: o caminho brasileiro (editora Terceiro Nome, 240 pags., R$ 80) é estar muito próximo dos princípios que norteiam o trabalho da autora que é uma das maiores especialista em design no mundo.  O livro radiografa a revitalização do artesanato brasileiro de forma extremamente cuidadosa e muito, muito bem ilustrada, o que é essencial numa obra sobre o tema.

A aproximação entre design e artesanato, ideia central do livro, vem sendo debatida pela autora há muito tempo. Há opositores, claro. O que se sabe, na prática, é que não se pode falar em artesanato como negócio sem que se fale em qualidade de produção, em acabamento. E isso é importante porque artesanato é, também, um negócio.

Há muito o que ver em Design + Artesanato, mas destaco, sobretudo, a preocupação em propor caminhos, em defender o uso de materiais locais e em refletir sobre a identidade. Neste caso, cito um trecho em que a autora mostra, na prática, como isso ocorre: “A flora e a fauna do hemisfério norte, com seus ursos-polares, cisnes, montanhas nevadas e buquês de edelvais, compuseram um imaginário que se disseminou nos bordados e nas pinturas de superfícies de objetos artesanais país afora, numa notável dissociação entre o cotidiano do artesão e seu trabalho”. Lembro, nos tempos da coluna Contemporânea, quando Adélia ilustrou essa questão com o caso do artesanato em pedra sabão de Ouro Preto, em Minas Gerais, formado por pirâmides e Buda. Era preciso enxergar o absurdo de viver em meio às incríveis esculturas a céu aberto do mestre Aleijadinho – com volutas lindas – e trazer como tema elementos tão distantes e tão estranhos àquele espaço. E é aí que o “casamento” entre artesanato e design pode ser muito feliz.

De Alagoas, cabe registrar a presença do artesanato da Ilha do Ferro, através da cooperativa Art-Ilha, do bordado boa noite, em fotos inspiradas do fotógrafo alagoano Celso Brandão, que também viajou com Adélia para Esperança, na Paraíba, em busca das artesãs de bonecas de pano.

É bem fácil entender porque Adélia é tão especial. Seu nome é garantia de qualidade, sobretudo por expressar o desejo de contribuir para a mudança. O design é uma ferramenta de transformação. Alguém duvida?

 

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