Artes Cênicas, Entrevista
De Sodoma ao teatro

De Sodoma ao teatro

Preso na Bastilha em 1785, o nobre francês Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade, levou apenas 37 dias para escrever um dos livros mais polêmicos da história da humanidade: Os 120 Dias de Sodoma. A obra retrata uma realidade que vem chocando gerações desde seu lançamento, ao revelar desejos perversos, ocultos, que são comumente rechaçados pela sociedade.

Mais de dois séculos após a publicação de Os 120 Dias de Sodoma, o público alagoano terá a oportunidade de testemunhar uma adaptação teatral do livro do romancista e dramaturgo Flávio Braga, Sade em Sodoma, que, sentindo-se provocado pela perversão sexual, pelo desamor e pela degeneração humana descritos por Sade, decidiu fazer uma releitura da obra do libertino. “Os personagens de Sade defendem a natureza do mal. Sem desculpas étnicas como os nazistas, sem a defesa de dogmas, como a Santa Inquisição, e sem a desculpa ideológica, como os genocidas da atualidade”, diz. 

Guta Stresser, a Bebel do seriado A Grande Família/TV Globo, interpreta Madame Duclos, dona de bordel (fotos: Desirée do Valle)

Com direção de Ivan Sugahara e interpretação dos atores Guta Stresser (a Bebel do seriado A Grande Família/TV Globo) e Tárik Puggina, a peça será apresentada hoje (26) e amanhã (27) no Teatro Sesi, Arapiraca. Em Maceió, as apresentações acontecem no Teatro Deodoro, nos dias 28 e 29.  Em entrevista à Graciliano, o diretor Ivan Sugahara revela alguns detalhes dos bastidores da produção. Confira

GRACILIANO – No site do espetáculo você relaciona a presença forte da obra de Sade em peças teatrais ao sentimento de medo que ela provoca. O que você pensa do sadismo no século 21?

IVAN – Penso que ele continua extremamente presente na sociedade contemporânea, para além da conotação sexual. Um dos pilares do capitalismo é a competição. O sistema foi estruturado de tal modo que o sucesso de uma pessoa implica necessariamente no triunfo dela sobre outros, os fracassados. E, não raro, esse triunfo vem acompanhado de uma satisfação sádica.

Você faz um paralelo entre Sodoma e o consumismo contemporâneo. Explique melhor essa comparação.

A voracidade humana pode ser perfeitamente compreendida como uma tentativa de preencher o vazio existencial. Seja por meio de compras, ou através do sexo. Mas, obviamente, isso é impossível, pois esse vazio é o motor da nossa existência. A dura tarefa humana é aprender a conviver com esse vazio e usá-lo como impulso para a vida, ao invés de procurar inutilmente preenchê-lo. E, talvez, o maior obstáculo para isso é que o sistema capitalista está permanente tentando nos convencer do contrário.

Você diz em entrevista que o texto da peça imprime selvageria, prazer sexual, crime, violência e escatologia através da comida. Como a plateia brasileira tem reagido a essa característica do espetáculo?

Na verdade, essa questão com a comida é uma escolha da nossa encenação, e não um caminho indicado pelo texto. Enquanto os atores falam sobre a compulsão sexual, suas ações estão ligadas ao ato de comer. Desta forma, trazemos à tona outro elemento, a comida, que também é frequentemente usada de forma compulsiva. De modo geral, acho que a plateia tem reagido bem a esse procedimento, compreendendo e achando graça dessa analogia.

Por que a escolha de apenas narrar as atrocidades, evitando mostrá-las de alguma forma? A decisão está relacionada à ética?

Não há relação com a ética. Achamos que seria mais interessante do que redundar, na cena, o que já está sendo dito.

Selvageria, prazer sexual e violência são retratados no espetáculo com humor e elegância

Qual é o maior desafio em trazer uma história, originalmente literária, para a linguagem teatral?Acredito que a diferença seja uma visão bem humorada do assunto, o que facilita a identificação do público, uma vez que se trata de um assunto tão complexo.

Justamente conseguir transformar literatura em teatro, que são manifestações artísticas absolutamente distintas. O desafio é conseguir oferecer ao espectador um espetáculo teatral de natureza literária, o que é radicalmente diferente de ver literatura em cena.

O que determinou a escolha de Guta Stresser e Tárik Puggina como intérpretes?

Trata-se de um projeto do Tárik. Quando ele me convidou para dirigir o espetáculo, ele já tinha escalado a Guta, o que eu achei ótimo. Sempre tive vontade de trabalhar com ela. Considero a Guta uma das melhores atrizes da sua geração.

Como surgiu a ideia de enviá-los para Londres para participarem de um workshop ministrado pelo diretor Gerald Thomas? Os atores colheram bons frutos?

Esta ideia também foi do Tárik e foi igualmente endossada por mim. Fui assistente do Gerald e aprendi muita coisa com ele. Os atores foram pra Londres antes do início dos ensaios, de modo que quando começamos a ensaiar eles já tinham feito uma imersão no universo da peça ministrada pelo Gerald, o que foi extremamente frutífero.

Que tipo de reflexão o espetáculo pretende trazer?

Que o público questione seus próprios impulsos sádicos e compulsivos. 

SERVIÇO

O quê: espetáculo teatral Sade em Sodoma

Quando/Onde: Teatro Sesi Arapiraca (Rua Engº Camilo Collier, 520, Primavera) 26 e 27 de janeiro, às 20h; Teatro Deodoro/Maceió (Pça. Deodoro, s/n, Centro) – 28 e 29 de janeiro, às 20h

Ingressos: R$ 10 (meia-entrada) e R$ 20 (inteira)

Pontos de venda: Foto Nacional (Rua Profº Domingos Correia, 177, Centro, Arapiraca) e loja Levi’s (Maceió/Shopping Maceió)

Mais informações: 3032.5210 e 9601.2828

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