Artes Visuais, Design
Na FFW Mag!, o caldeirão de Pernambuco e Jonathas de Andrade

Na FFW Mag!, o caldeirão de Pernambuco e Jonathas de Andrade

A exuberância da cultura pernambucana inspirou a nova edição (nº 29, R$ 22,90) da revista FFW Mag!, que acaba de chegar às bancas. Não é segredo para alagoanos a diversidade de influências absorvidas (e recriadas) pelos nossos vizinhos. Em Alagoas, há muitas semelhanças e, como afirmou o antropólogo Raul Lody em entrevista à Graciliano (set./out. 2011),  boa parte disso deve-se ao açúcar, elemento econômico e social que moldou a cultura dos dois estados.

Capa da edição 29 da revista FFW Mag!, que traz Pernambuco como tema

O que a publicação fez foi mostrar Pernambuco através de seus artistas, o que é sempre muito bom de ver. Na música, Zeca Gutierres traz Naná Vasconcelos, Selma do Coco, Mestre Galo Preto, DJ Dolores, Mombojó, Siba, Lula Queiroga e Fred Zero Quatro – cada um na sua e, ao mesmo tempo, uma ligação forte entre eles, que é justamente a mistura de ritmos, livre de preconceitos, de que é feita essa sonoridade pernambucana.

A arte simétrica, carregada de símbolos, do xilogravador pernambucano Gilvan Samico,  dono de uma obra surpreendente,  aparece de um jeito respeitoso (embora acompanhada de um texto curtíssimo), com reproduções perfeitas, que dão ao leitor a dimensão de suas criações, assim como no texto dedicado a J. Borges, cordelista e também xilogravador.

A obra do xilogravador pernambucano Gilvan Samico é um dos destaques da revista

Prova maior de que esta edição da revista surpreende está no perfil de Sílvio Meira, professor do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O cientista comanda o Porto Digital do Recife, sinônimo de inovação no Brasil. Não é pouco, mas quem é este homem que dorme e acorda pensando em soluções para a relação entre tecnologia da informação e comunicação? O texto responde.

Emocionou-me dois textos, em especial. O primeiro, assinado por Afonso Luz, descreve a trajetória da arte performática em Pernambuco, na obra de Paulo Bruscky, Lourival Cuquinha, Rodrigo Braga e Carlos Melo. Importante para apreciadores e estudiosos de arte contemporânea.

A obra de Rodrigo Braga, que usa a fotografia e a performance para refletir sobre a relação entre realidade e simulacro, é tratada na revista

O segundo trata de um alagoano radicado no Recife, mas hoje cidadão do mundo:  Jonathas de Andrade, sobre quem tive a alegria de produzir uma reportagem especial (publicada no caderno B da Gazeta, em setembro de 2010). Naquele ano, Jonathas participou da 29ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo e era o artista mais jovem da mostra, com 28 anos.

A FFW Mag! reproduz algumas das respostas (inusitadas!) produzidas pelos moradores do Recife ao longo questionário formulado pelo artista a partir de um livro de regras baseadas na moral e nos bons costumes vigentes nos anos 50/60. Entre elas, destaco a seguinte: “Que atitudes demonstram exibicionismo na rua?” Resposta: “fazer sexo publicamente; tirar a roupa; usar brilho de manhã; casaco de pele no Recife; carros importados; carregar livros que não são lidos”.

Recenseamento Moral da Cidade do Recife, do artista alagoano Jonathas de Andrade

A obra de Jonathas, que hoje é um dos principais destaques da arte contemporânea brasileira e vem despontado também fora do Brasil, constrói-se sobre a palavra. Por essa razão, é preciso ver/ler o artista sem pressa. E esse é, talvez, um dos maiores desafios propostos pela obra de Jonathas: experimentar um “sentir o tempo” do qual nos afastamos e que tem se mostrado, a cada dia, imprescindível.

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