Entrevista, Literatura
Arquiteto das palavras

Arquiteto das palavras

Num papel amarelado, marcado pelas nódoas do tempo, estão escritos, à mão, versos que datam de 40 anos atrás e que deram forma ao livro mais conhecido do alagoano Luiz Gonzaga Leão, Casa Somente Canto, Casa Somente Palavra. A tinta azul dá corpo às palavras, onde umas parecem agradar ao poeta e outras são rejeitadas por ele – estas ganham riscos e borrões. Tomado pelo tema e pela saudade, o artista menciona elementos que habitualmente compõem um lar, como o teto e o chão ou o pão e o prato.

Terceiro livro do poeta, publicado em 1995

Aos 82 anos, Gonzaga Leão, que nasceu a cerca de 70 km da capital alagoana, em União dos Palmares, ainda guarda rascunhos de alguns poemas escritos por ele, como Do AmorGalo de Briga e Que Amada é Essa? (confira a reprodução dos originais na seção Documenta da edição nº 12 da revista Graciliano). Assim como o suporte que os abrigam, os versos parecem resistir ao tempo. Misturado a eles, um romance inominado escapa de um destino trágico: o lixo. Entretanto, algumas composições estão adormecidas na “gaveta” e serão presenteadas com um futuro bem mais próspero: recuperadas, farão parte da composição do novo livro do poeta, Tijolo sobre Tijolo, Palavra sobre Palavra, que já está pronto, faltando apenas pequenos ajustes.

Seu último livro de poesias, publicado em 2005 e que traz lembranças da prisão de seu irmão na ditadura militar

A primeira obra publicada por Gonzaga Leão foi A Rosa Acontecida, lançada quando o autor tinha 26 anos. A segunda, Mar de Encanto, de 1957, recebeu da Academia Alagoana de Letras, no ano seguinte à sua publicação, o prêmio Othon Lynch Bezerra de Melo, como melhor livro de poesia. Logo após, em 1995, Casa Somente Canto, Casa Somente Palavra, foi publicado pela editora Escrituras, com uma distribuição de mil exemplares. O último, publicado em 2005, foi Preparação da Manhã, um livro sofrido, de acordo com o autor, pois traz experiências vividas por ele em 1964, quando teve seu irmão preso pela ditadura militar. No bate-papo que você confere a seguir, Gonzaga Leão fala sobre essa época, suas primeiras influências, a relação com poetas como Jorge Cooper e muito mais.

GRACILIANO ON LINE – Como você define sua relação com a poesia? 

GONZAGA LEÃO –Minha relação com a poesia é das mais fraternas, uma amizade que começou na infância, na leitura dos primeiros versos. E tem sido até hoje uma companheira das mais agradáveis, de alegre camaradagem, de feliz convivência.

Por intermédio do também poeta alagoano Jorge Cooper, você entrou no universo da poesia moderna. Conte como foi esse processo.

Havia uma turma que fazia a página literária dominical do Jornal de Alagoas: Cooper, Carlos Moliterno, Wanderley de Gusmão, Augusto Guerra e por aí vai. A minha poesia era toda uma influência dos poetas românticos, parnasianos, da poesia condoreira de Castro Alves. Esse universo que me atraía pelo ritmo e musicalidade dos seus versos. Eu fazia, então, poesia nos moldes tradicionais e a minha sensibilidade ainda não aceitava a poesia moldada fora desses preceitos. Mas eu conhecia Jorge Cooper. E ele me dizia: “Poeta, leia os modernos, leia Drummond, Jorge de Lima”. Disfarçadamente, eu ia aceitando seu conselho. E um dia redigi um poema que me pareceu moderno e levei para Cooper, dizendo tratar-se de um poeta alemão. Ele leu o poema. Olhou para mim. Sorriu e disse: o poema não me agrada. Acho que seu defeito é a tradução. Depois disso, aos poucos, fui descobrindo nos poetas modernos, que até então ignorava, a beleza de uma poesia nova, de uma linguagem diferente.

Por que você considera, como disse em entrevista, o livro Casa Somente Canto como sendo o momento mais feliz da sua profissão literária?

O que disse sobre meu livro, Casa somente Canto, foi tocado pela saudade de um longo e feliz relacionamento. O relacionamento com a poesia, onde eu construo versos, cuido das metáforas e faço tudo sempre com muito carinho.

Qual a importância do sentimento de nostalgia para sua poesia? A saudade é personagem fundamental para um poeta? 

Toda poesia circunstancial nem sempre é de boa qualidade. Acho que somente quando a realidade se torna lembrança e se faz saudade é que a possibilidade do poema acontece.

Seu universo lúdico, hoje, se constitui apenas de elementos da infância, ou os tempos atuais também te inspiram? 

Não estamos mais na época dos inocentes sonhos. Vivemos uma realidade dura, quase desesperadora. A violência toma conta do mundo e a impunidade está aí, de braços abertos para acolher todas as espécies de crime. Resta-nos, então, vasculhar na memória do nosso coração tudo aquilo que ele guardou de bom.

O mar é recorrente em sua poesia. Por que a paixão por ele?

Porque além de ser fascinado pelo mar, faço como o poeta repentista: gloso o tema. O que sempre e inesperadamente me ocorre.

Você diz que a poesia sem metáfora não é poesia. Fale mais sobre isso.

Digo isso, mas de modo estritamente pessoal. Longe de mim pretender estabelecer regras. É que é esse meu modo de fazer poesia. Parto quase sempre de uma metáfora. Não da metáfora simplesmente comparativa ou alegórica, mas daquela que vai ser a própria expressão do poema. E se conseguir ir mais longe, aí é a bem-aventurança de atingir o não senso.

Por que você nunca publicou nada em prosa? Um romance está ou já esteve em seus planos? 

Produzi alguns contos, bem poucos, publicados em revistas ou jornais, e um pequeno romance que, de tão ruim, está esquecido no fundo de alguma gaveta, escapando assim, de ser impiedosamente jogado no lixo.

O livro Preparação da Manhã traz poemas que refletem experiências vividas por você na época da ditadura. Descreva seus sentimentos ao ler seus próprios versos, principalmente aqueles que remontam a esse período tão difícil.

É claro que ao ler esses  poemas me vem as dolorosas lembranças da prisão do meu irmão Wellington e de muitos amigos que sofreram a tortura psicológica dos boatos de transferência da cadeia local para um navio, com destino de Fernando de Noronha ou Ilha Grande, ou outro qualquer inferno dessa natureza. Como aconteceu na ditadura de Vargas, com Graciliano Ramos, que, mais tarde, nos daria seu magnífico livro Memórias do Cárcere. Isso nos apavorava. E daí, nos momentos de reflexão, nasceram alguns poemas. Outros vieram depois, já na fase de redemocratização do País.

Como caminha sua produção atual?

Pouco tenho produzido. Em compensação, no trabalho de organização do meu novo livro Tijolo Sobre Tijolo, Palavra Sobre Palavra,tenho recuperado poemas que estavam completamente esquecidos.

A obra Artesanias da Palavra foi uma parceria entre você e os também poetas Arriete Vilela, José Geraldo Marques, Otávio Cabral e Sidney Wanderley. Como foi a experiência?

Sobre Artesanias da Palavra, só posso me envaidecer da excelente e agradável companhia.

Escrever em versos é difícil?

Se ninguém já disse isto, vou dizer: se não for fácil, será inteiramente impossível.


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