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Grandes sertões

Grandes sertões

Viajar pelo sertão de Alagoas não é uma tarefa das mais agradáveis para quem está habituado à vida nos grandes centros urbanos. Cidades pequenas e sem estrutura, miserabilidade, temperatura causticante. Apesar disso, enganam-se aqueles que pensam no sertão apenas a partir das imagens dos filmes do cineasta Glauber Rocha ou como um celeiro de Fabianos, personagem do livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, cujo repertório vocabular confundia-se com onomatopeias bovinas.

Werner Bagetti estreou como cineasta em 2003 com o filme Imagem Peninsular de Lêdo Ivo (Foto: Larissa Lisboa)

O sertão mudou, mas as imagens ligadas à desigualdade social e econômica ainda permanecem, principalmente em Alagoas. É o caso, por exemplo, de São José da Tapera, cidade que, há cerca de dez anos, ocupava o último lugar no Brasil em desenvolvimento humano. Era o pior lugar para se viver entre os mais de 5 mil municípios do País. “Hoje a cidade mudou bastante. Por causa daquele resultado do IDH, ela tem recebido diversos investimentos públicos, ONGs etc. “Apesar das melhorias, eu queria mostrar que o povo ainda vive na miséria, por isso o filme mostra a imagem clichê do sertão”, revela o cineasta Werner Salles, diretor e roteirista do documentário Interiores ou 400 Anos de Solidão, que será lançado amanhã (22), às 21h30, no Cine Sesi.

Para encontrar os personagens do filme, o cineasta nascido em Brasília mas radicado há mais de duas décadas em Maceió, recorreu às páginas dos jornais. Foi assim com o Padre Cizo, um sacerdote instalado em Mata Grande e impossibilitado de exercer sua missão pela Igreja Católica, mas que arregimenta centenas de pessoas todos os domingos com suas “missas”, onde muitos juram que recebem a cura para seus males. Sua imagem é associada ao Padre Cícero, de quem é devoto fervoroso.

Padre Cizo, um dos personagens do filme, foi proibido de celebrar missas e agora arregimenta todos os domingos centenas de fiéis, que saem em procissão pelas ruas de Mata Grande com ele

“Li no jornal sobre um cara que estava construindo sua própria cova. Fomos atrás dele. Mas descobrimos que ele tinha morrido uma semana antes”, revela Werner. Os outros foram encontrados no meio do caminho, durante a produção do média-metragem (30 minutos).

Munido de curiosidade, Werner saiu em busca de um retrato das terras sertanejas. Com um grupo de colaboradores, viajou inúmeras vezes para o interior à procura de personagens e paisagens. Seu “desenho” do sertão emociona. Confira o quê o cineasta conta sobre os bastidores do filme no bate-papo a seguir.

GRACILIANO ON LINE – O que você quer mostrar sobre o sertão de Alagoas a partir de “Interiores ou 400 anos de solidão”?

WERNER SALLES – Eu queria viver uma experiência e queria que ela fosse registrada. Então, na verdade, o filme é um conjunto de experiências e encontros com pessoas reais e personagens que encontrei no caminho.

Depois de ter passado algum tempo dedicado à produção do documentário, o que você tem a dizer sobre as pessoas que vivem na região?

O sertão é muito rico e muito pobre ao mesmo tempo. Ele é muito rico porque carrega tradições milenares, culturas imemoriais. Isso é muito interessante. Então, o sertão é influenciado por muitas culturas milenares… judeus, portugueses, franceses, os mouros. Então, existe essa riqueza que é uma coisa inconsciente do sertão. O próprio padre Cizo é um exemplo do sebastianismo, da crença no messias. As rezas das pessoas são quase em dialetos. É rico nessa herança de tradições memoriais. E é muito pobre na questão social. A política ainda está muito presa a coronéis, ao assistencialismo, ou seja, você não vê nenhum desenvolvimento no sertão.

Sinhá Maria retrata bem o espírito do sertanejo. No filme, ela fala sobre a morte e sobre o Diabo

Por que você decidiu ser cineasta?

É meio pedante falar que eu sou cineasta. Eu sempre tive interesse na área do audiovisual e achei o caminho do documentário mais curto para chegar a ele porque você não precisa de grandes recursos. E também eu sempre me interessei por pesquisa. Então, eu uni as duas coisas.

O documentarista brasileiro João Moreira Salles já afirmou diversas vezes que as coisas lidas por ele foram mais importantes no momento de se fazer um filme do que os próprios filmes que ele assistiu. O que influencia você quando vai fazer um filme?

Certamente a literatura tem influência bem marcante. Talvez mais marcante do que os próprios filmes porque na literatura você tem essa capacidade de imaginar, de criar imagens. Na literatura você já trabalha com a produção de imagens. E claro que os filmes possuem grandes influências. Todo filme que você vê incorpora no seu repertório inconsciente. Tudo que se vê, as pessoas que você conhece…

E quais foram esses filmes?

A lista é gigantesca, mas teve alguns filmes marcantes. O último filme marcante que vi foi A Árvore da Vida, o documentário Santiago, do João Moreira Salles e os filmes do Glauber Rocha, como Terra em Transe e Deus e o Diabo na Terra do Sol, além de alguns filmes do Godard.

O documentário viaja até o árido sertão alagoano atrás de personagens para mostrar as reais condições de vida desse povo

Todos os documentários feitos por você foram financiados por editais públicos. Hoje é mais fácil produzir um filme?
Sim. A gente está vivendo uma época bastante produtiva para a produção independente. O próprio governo sinaliza, os próprios veículos de comunicação já dão uma maior abertura para a produção de conteúdo audiovisual independente e tem vários editais por aí.

Qual sua avaliação sobre as produções cinematográficas em Alagoas nos últimos anos?
Alagoas está começando a entrar nesse mercado audiovisual. Tem uns caras como o Raphael Barbosa (KM 58), o Pablo Casado e o Anderson Barbosa (Do Amor e Outros Crimes), Pedro da Rocha (Estrelas Radiosas e Sandoval Cajú – Além do Conversador) e Hermano Figueiredo (Mirante Mercado, Calabar, Um Vestido para Lia). O cinema alagoano vive seu melhor momento.

E não é só quantidade…
É qualidade também. O filme do Raphael acabou de ser indicado para o Cine PE.

No seu documentário (Imagem Peninsular de Lêdo Ivo, 2003) o poeta Lêdo Ivo afirmou que Maceió é a “Miami dos mendigos”. O que você acha disso?
Acho perfeita essa metáfora dele. Maceió é uma cidade de uma desigualdade total. Aqui existem os muito ricos e os muitos pobres. Quase não existe uma classe média. É uma cidade grande, bonita, cheio de gente com dinheiro. Mas que tem de fechar seu vidro para a miséria que está ao redor, cada vez mais próxima, cada vez mais perigosa.

Tem projetos para novos roteiros?
Estou tentando alguns editais para fazer minha primeira ficção. É um projeto sobre Alagoas em que o mistério faz parte. As pessoas que conhecem o roteiro me encorajam de desistir da ideia. Mas vou tocar até o fim mesmo que depois eu vá embora (risos).

SERVIÇO

O QUE: Interiores ou 400 anos de solidão

QUANDO: Quinta-feira (22/03), às 21h30

ONDE: Cine Sesi, Pajuçara (Rua Dr. Antônio Gouveia, 1.113, Pajuçara)

QUANTO: Entrada gratuita

MAIS INFORMAÇÕES: 3235-5191


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