Culinária
Da cor do fogo

Da cor do fogo

Com bermuda, camisa de mangas e bata branca. É assim que Adeilson Lima Brito, 42, vai trabalhar de segunda a sábado, no Centro de Maceió. Ele acorda logo cedo, às 5h, para lavar, extrair a pele do feijão-fradinho e triturá-lo – na falta, usa o feijão de corda.  Pai solteiro, Adeilson tem a ajuda dos dois filhos, que retiram as cascas dos camarões para depois cozinhá-los, além de cortarem os tomates verdes para o vinagrete. Entre 10h e 11h ele estaciona seu carrinho de acarajé próximo ao Edifício Breda, que fica na Rua Doutor Luiz Pontes Miranda, e só volta para casa às 19h, depois de um dia inteiro dedicado ao preparo e venda dos bolinhos dourados.

A cena se repete há décadas. Adeilson trabalha com a venda de acarajés desde criança: “É uma herança de terceira geração”, diz. Tudo começou com sua avó, Maria Josefa, que, em vida, assegurava ter sido braço direito de Dona Júlia, a primeira pessoa que vendeu acarajé na capital alagoana, segundo contava a avó de Adeilson. “Ela ensinou muita coisa da culinária baiana para a minha avó”, afirma, recordando o que lhe revelava a matriarca: “Dona Júlia andava de charrete, por ser muito gorda, e faleceu fazendo acarajé na Praça Sinimbu”.

Pai Célio fala sobre as diferenças entre o acarajé alagoano e o preparado na Bahia

A história e a rotina de Adeilson dizem muito sobre as particularidades do acarajé que é vendido em Alagoas. De acordo com Célio Rodrigues, babalorixá do barracão Casa de Iemanjá ou Núcleo de Cultura Afro-Brasileira Iyá Ogun-té, o acarajé alagoano é diferente pelo tamanho, sabor, recheio e pelo modo de comercializá-lo. O próprio Adeilson é uma peculiaridade: “Aqui a gente pode ver um grande número de homens vendendo o acarajé. Muito diferente da Bahia”, diz Pai Célio.  De acordo com ele, por se tratar de uma comida sagrada, a iguaria só devia ser preparada e servida pelas filhas de Iansã e Xangô. No entanto, devido à popularização do bolinho em todo o Brasil, hoje ele é servido por pessoas de outras religiões e até por homens, como Adeilson.

Através de uma lenda africana, o babalorixá explica o motivo pelo qual, na Bahia, a preferência é que mulheres vendam o bolinho de feijão. Segundo ele, o acarajé (na África “je” quer dizer “comer” e “àkàrà” significa “bola de fogo”) é um alimento sagrado oferecido a Iansã, divindade que controla ventos, tempestades, relâmpagos e o fogo. “A tradição de apenas mulheres venderem o acarajé pode ser explicada por Iansã ser um orixá feminino”, elucida. Outra explicação dada por ele seria as vestimentas usadas pelas baianas, onde suas longas saias brancas, brincos, pulseiras e colares de contas representam a luta e conquista das ex-escravas alforriadas, que não tinham como sobreviver e encontraram nos segredos da culinária afro o sustento da família: “Hoje já existe a Associação das Baianas de Acarajé e outras ações dessa natureza, como forma de valorização dessa tradição e a vestimenta faz parte de tudo isso”, diz.

ALAGOANAS DO ACARAJÉ

Ela não é baiana e se veste da forma mais simples possível: touca – por causa da higiene –, short, blusa e avental. Roseane França, 40, é casada, tem um filho e desde os dez anos trabalha com a venda de acarajés. Sua mãe, Arli França, que há 48 anos vem investindo no quitute após aprender a receita com uma baiana, comanda, em casa, o preparo da massa de feijão-fradinho, que é descascado, triturado e batido por seus filhos. Roseane chega com sua irmã à Praça Gogó da Ema, na orla da Ponta Verde, às 13h15, de segunda à sexta. Durante a manhã, quem cuida do estabelecimento é seu irmão, Jailson, e a esposa. “Aos sábados e domingos, todos trabalham, porque o movimento é maior”, diz.  Próximo ao antigo Alagoas Iate Clube, conhecido como Alagoinha, o carrinho da família França é bastante conhecido e faz parte do roteiro de fim de semana da cidade.

Apesar de não ter folga, Roseane adora o que faz e, vez ou outra, come um acarajé. A alagoana já visitou a Bahia e percebeu a diferença entre o quitute preparado por ela e aquele preparado pelas baianas: “Lá, elas usam mais ingredientes, como camarão defumado, o vatapá, o caruru e um monte de coisas. A massa também é maior”, lembra e, quando interrogada sobre a opinião dos turistas baianos que já experimentaram do seu acarajé, ela diz: “Muitos gostam, mas alguns reclamam porque sentem falta de uma ou outra coisa”. Adeilson, no Centro de Maceió, garante: “Aqui em Meceió, algumas pessoas tem nojo do vatapá e do caruru. Muitos dos meus fregueses dizem que não trocam o acarajé daqui pelo da Bahia”.

Roseane França já vendeu acarajé em tabuleiro, mas hoje comercializa o alimento em um carrinho, por conta da comodidade

Antigamente a família França vendia acarajé em um tabuleiro, como na Bahia, mas já há alguns anos, por conta da comodidade e da higiene, começaram a comercializar em um carrinho semelhante aqueles onde se vendem pipocas – estruturados em metal, são suspensos por rodinhas, possuem apoio para as mãos e pequenas portas de vidro. “Com o carrinho fica melhor para carregar as coisas”, diz Roseane. Segundo Pai Célio, essa é uma das particularidades do acarajé alagoano. Em diversos bairros da cidade, é possível ver o objeto de trabalho circulando e comercializando a iguaria. “O carrinho, por ser melhor para transportar, requer apenas uma pessoa, enquanto que o acarajé de tabuleiro precisa de mais pessoas”, afirma.

Místico e artesanal, o acarajé é oferecido a homens e divindades, independente da região. Mas além de satisfazer a vontade daqueles que adoram seu sabor, cor e temperatura, o bolinho de Iansã sustenta várias famílias brasileiras, como a de Roseane, que, contente, expressa sua gratidão: “O acarajé me criou”.

Para saber mais sobre culinária afro,  Quebra de Xangô e a cultura negra em Alagoas, leia a  revista Graciliano n. 13. Já nas bancas.

Consulte os pontos de venda da revista no link: http://www.imprensaoficial.al/blog/pontos-de-venda/

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