Artes Cênicas, Entrevista
Lael na contramão

Lael na contramão

Apaixonado por informação cultural, o estudante de jornalismo Francisco Ribeiro, 21, vive de olho no que se produz nas áreas de música, audiovisual, literatura, cultura popular e artes visuais em Alagoas. Em colaboração para o blog Graciliano, Chico entrevistou o dramaturgo, ator, encenador e artista plástico alagoano, Lael Correa. No bate-papo que você confere a seguir, Lael fala sobre seus trabalhos, a paixão pelo movimento cultural de Alagoas e o espetáculo Rock-me.

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Não foi à toa que Lael Correa escolheu o Teatro Deodoro, um dos espaços culturais mais importantes e antigos de Alagoas, como o local onde concederia essa entrevista. Foi ali, que assistiu, aos 13 anos de idade, à peça Esperando Godot, com direção do paulista Antunes Filho. O que viu da plateia foi decisivo para que Lael se apaixonasse pelos palcos. Naquele dia, nasceu uma identificação imediata pelo teatro, que resultou numa relação que já dura quase quatro décadas.

Ao completar 16 anos, Lael mudou-se para o Rio de Janeiro. Lá, se profissionalizou em diversas áreas vinculadas às artes, como, por exemplo, em direção teatral, com Aderbal Freire Filho. A bagagem cultural adquirida durante esse período influenciaria profundamente sua visão como artista de teatro. Aos 26, viajou para a Suíça, onde estudou Arte Contemporânea.

“Durante esse período, dediquei-me a conhecer, ver e estudar arte. Depois de dois anos vivendo na Europa, retornei direto para Maceió”, diz Lael, com sua voz grave e firme, recordando a ideia de seguir a carreira de radialista, que, felizmente, foi abandonado. Sobre as boas oportunidades que sempre surgiram em sua vida, ele faz questão de ressaltar que, embora tenha sido um privilégio, tudo lhe custou disciplina, suor e dedicação. “Nada caiu do céu. Contudo, tais experiências me proporcionaram ver um mundo de uma forma mais ampla, com mais informação, referência e reflexão”.

Nos anos 1990, período no qual o Teatro Deodoro e dos teatros Bolso Lima Filho e de Arena foram fechados para uma reforma que levaria mais de uma década para ser concluída, Lael – agora, um dos mais importantes nomes da dramaturgia no estado – continuou produzindo incansavelmente:, fundou o grupo Infinito Enquanto Truque (IET) e criou o Espaço Teatral Camaleão.

Artista inquieto e questionador, ele é considerado por muitos como controverso e polêmico. Mas, esclarece: “há certo provincianismo na discussão sobre o fazer artístico em Alagoas e quando alguém tem alguma posição um pouco mais questionadora acaba parecendo uma posição ‘polemizadora’ e não é”. No entanto, entre tantas expressões, talvez a que calhe melhor para defini-lo seja “pessoa do teatro”.

Lael Correa: aptidão natural para as artes é descoberta cedo

Polivalente – dramaturgo, ator, encenador e artista plástico –, ele vive unicamente do seu trabalho como artista. Aos 48 anos de idade, Lael leva aos palcos do teatro do Espaço Cultural Linda Mascarenhas, até 28 de julho, o espetáculo Rock-me. A peça faz alusão direta a Hoje é dia de Rock, escrita pelo dramaturgo mineiro José Vicente de Paula (1945-2007), considerado um fenômeno de público raro na história do teatro brasileiro.

O texto apresenta um retrato interessante do conflito entre a tradição e a modernidade, o ficar e o partir, tudo isso tendo como plano de fundo um repertório musical que vai de Janes Joplin a Jimi Hendrix. A peça narra o cotidiano de uma família sertaneja que, de 1958-70, é levada a testemunhar e assimilar as profundas transformações socioculturais que marcariam estas décadas. A  Graciliano On line entrevistou Lael Correa, que fala sobre seus trabalhos, a paixão pelo movimento cultural de Alagoas e o espetáculo Rock-me.

GRACILIANO – Aos 13 anos de idade, você já havia iniciado no teatro amador. Como surgiu a identificação tão precoce com essa manifestação artística? 

LAEL CORREA – Naturalmente. Eu acredito em aptidões naturais. Não gosto da palavra vocação, nem da palavra talento, mas gosto de aptidão natural. Desde criança, sempre tive interesse pelo desenho, pela leitura, especialmente, pela poesia. Apesar de que não havia ninguém na família que facilitasse essa inclinação para as artes, apenas minha mãe que sempre alimentou o hábito pela leitura.  Não há muito como forjar uma habilidade em certas áreas e, principalmente, nas artes, creio eu.

Você se considera o mais controverso nome das artes cênicas em Alagoas? 

Não. Eu me vejo como um dos mais inquietos, mas, não o mais controverso. Jamais me contentei com a passividade que observo entre os meus companheiros de classe. As pessoas estão muito bem comportadas e conformadas com a ambiência cultural alagoana. Eu sou inquieto, por isso questiono. Logo, questionadora é a palavra correta, que não aceita esse status quo, esse modus vivendi em Alagoas.

Foram 10 anos longe da sua terra natal, vivendo num dos eixos culturais do país, o Rio de Janeiro. Durante esse período, você se profissionalizou em diversas áreas nas artes, como, por exemplo, em direção teatral, com Aderbal Freire Filho. A bagagem cultural adquirida durante esse período influenciou de que forma a sua visão como artista de teatro? 

A informação relevante adquirida em teatro é mínima, em Maceió. Ela se dá através de um professor de teatro chamado Florêncio Teixeira, que é de uma importância enorme na minha vida. Ele me conheceu aos 14 anos, quando eu estava no departamento de censura da Polícia Federal em Alagoas. Fui levar os textos que escrevia para passar pelos exames de censura. Era final dos anos 70. Aliás, no começo queria ser apenas dramaturgo e não diretor, nem ator.  Ele me trouxe para assistir a peça Esperando Godot, com direção de Antunes filhos, aqui, no Teatro Deodoro. Portanto, um começo extremamente raro para um artista local. Aí eu vou para o Rio de Janeiro e passo a ter contato com um teatro muito fértil, do início dos anos 80. Isso me marcou no sentido de valorizar o que é dito no palco. Preocupação que enxergo pouquíssimo nos artistas locais. O artista quando aprofunda o seu discurso torna-se muito poderoso, forte. Quando você banaliza essa arte, também, passa a banalizar o discurso. Perde sua força. E esse é o paradigma que observo em Maceió, onde encontramos uma arte fraca, frágil, insuficiente, inapta, inepta.

A gente está no Teatro Deodoro que, junto com os teatros de Arena e o de Bolso Lima Filho, foi fechado nos anos 1990.  Naquele período, você criou o Espaço Teatral Camaleão e o grupo teatral Infinito Enquanto Truque (IET). O que mais te marcou naquela década? 

Foi a possibilidade da experimentação de espaços alternativos. O IET se apresentou em circos, bares, museus, a exemplo do Museu da Imagem e do Som (MISA), que foi palco de três espetáculos do grupo. Entre eles, Cartas, a comédia do rádio, que contava a história do rádio alagoano nos anos 50. Em 2006, o grupo ficou em cartaz no Museu Théo Brandão com Ensaio Nº2. Nesse espetáculo a gente ‘nordestinizou’ a obra de Shakespeare e amalgamou as narrativas dele com as de Graciliano e Guimarães Rosa. O grupo ganhou essa facilidade de lidar com espaços alternativos.

Você disse, em determinado momento, que se apaixonou pelo movimento cultural no Estado. O que motivou essa paixão? 

Há 20 anos quando eu cheguei aqui, havia uma quantidade enorme de grupos atuando em pouquíssimos teatros existentes. Só tinha apenas três teatros e eles eram disputados pelos grupos que se formavam. Foi um momento muito rico para o teatro alagoano. A energia dos artistas permitia que, com pressões políticas, pudéssemos determinar quem seriam nossos gestores públicos de cultura. O povo era capaz disso naquele momento. E isso era apaixonante.

Em outra ocasião você também afirmou que já fazia um bom tempo que não comentava sobre as dificuldades em se produzir arte em Alagoas e que continuaria a não comentar. Por que adotou tal postura? 

Pela inutilidade do ato. Eu escrevi sempre para todos os jornais da cidade na tentativa de provocar o questionamento sobre a produção artística local, mas não vale à pena. Há uma dificuldade grande com a classe de artistas. Eles que são muito arredios a discursão, se abstém sempre. E isso está se acentuando atualmente. Então é inútil, e eu cansei de bater na mesma porta, que não abre nunca. As pessoas não querem discutir. Elas gostam desse culto ao individualismo, a esse eterno polimento do ego. Não se dão trabalho de enxergar o entorno.

Assim como Rock-me traz referências do musical Hoje é dia de Rock (1971), de José Vicente de Paula, a peça Uma Dose de Chuva (2011) continha, na íntegra, um texto curtíssimo de Tennessee Williams, assim como o espetáculo Ensaio nº 2 (2002), que se baseou nos textos de Jorge de Lima, Fernando Pessoa e William Shakespeare. Você sempre se deixou influenciar por grandes obras/autores para produzir seus espetáculos. Isso é uma opção ou não? 

É uma opção, porque mesmo tendo uma dramaturgia própria, às vezes, abro mão dela, pelo fascínio por obras da literatura universal. Eu acredito que autores como Guimarães Rosa, Fernando Pessoa ou José Vicente, são muito mais importantes do que eu e tem coisas mais pertinente para se dizer. Assim, quando eu deparo-me com esses textos, os privilegio. É o que aconteceu com José Vicente, com Hoje é dia de Rock, que fala sobre o rock e a transformação veloz do tempo, nas décadas de 50, 60 e 70. A peça é perfeita, pois a linguagem do Rock And Roll ainda é absolutamente jovem, moderna e contemporânea.

Cartaz de divulgação do espetáculo Rock-me: elementos do sertão nordestino e do Rock and Roll se misturam

Quanto tempo durou a montagem do espetáculo Rock-me? 

Para mim, Rock-me começou lá em 85, quando eu li o texto de José Vicente. Mas em termos práticos de produção, de mão na massa, levou um mês de elaboração de texto e três meses de ensaio.

Você também permanece dando continuidade a preferência pessoal pelo diálogo entre teatro e música. Gostaria que você comentasse, por favor, sobre essa opção. 

Apesar de não ter nenhuma aptidão natural para a música, sou absolutamente fascinado por ela. A música é importantíssima em toda minha historia. E sempre tento inserir nas minas peças uma trilha sonora, não importa qual. Acho que ela facilita a poética do teatro.

Declaração sua: “O teatro é diálogo. (…) É com as diferentes plateias, circunstâncias e reapresentações que o ator pode lapidar a sua arte, dividindo com o público uma criação que é viva, que se modifica e se enriquece permanentemente.” Qual tipo de diálogo você pretende criar em Rock-me? 

Há mudanças a cada espetáculo, pois o teatro é uma manifestação viva de arte e ela se modifica com o espaço de representação e de acordo com público. O público sugere coisas. Às vezes se entusiasma com uma cena que aprecia muito banal e noutras não tem a reação esperada em determinada cena. Então o espetáculo vai se modificando, é diferente de uma arte estanque como o cinema, onde não se pode mexer. No teatro é completamente diferente, é a partir da estreia que o espetáculo começa a existir, a viver e ele vai se modificando.  Portanto, esse diálogo está em constante transformação.

O texto apresenta um retrato interessante do conflito entre a tradição e a modernidade, o ficar e o partir, tudo isso tendo como plano de fundo o excelente repertório musical. Quais reflexões ou inquietações você deseja provocar no público? 

As reflexões e os questionamentos já nascem durante a construção do espetáculo, com os atores, realizando pesquisas e se enriquecendo com as informações que o Rock pode oferecer para a gente. E isso funciona também com a plateia. Eu acredito que só o fato do público está ouvindo num espetáculo as pérolas de ícones, a exemplo de James Joplin e Jimi Hendrix, já se enriquece culturalmente. O texto do José Vicente, também, propõe reflexões eternas sobre a verdade, a liberdade, a existência de Deus etc.

Cena do espetáculo Rock-me

Rock-me compõe uma trilogia formada por Phoeta-se e Te atrai-me. Fale um pouco sobre esses outros projetos. 

A ordem dos espetáculos ainda não está definida, pois depende de muitas coisas, como o resultado dessa primeira montagem, que ainda está na terceira semana. Rock-me fala sobre música. Phoeta-se abordará o universo poético de Allen Ginsberg e Jack Kerouac, e Te atrai-me, vai colocar o teatro discutindo a si próprio. Nesse último, vamos questionar que atividade artesanal é essa que, numa época tão tecnológica, ainda atrai muitos jovens. Isso é muito curioso. Uma atividade tão mal remunerada e cruel, pois o mercado é estreito. Mas, ainda atrai tanta gente jovem mesmo sendo uma arte antiga, milenar, e extremamente artesanal. Ela prescinde de toda tecnologia, basta um ator, um texto e um espectador para ter teatro.

SERVIÇO 

O QUÊ: Espetáculo teatral Rock-me, do Infinito Enquanto Truque (IET), direção de Lael Correa

ONDE: No teatro do Espaço Cultural Linda Mascarenhas (av. Fernandes Lima, Centro Educacional Antônio Gomes de Barros – Ceagb)

QUANDO: Até o dia 28 de julho, aos sábados, às 20h

INGRESSOS: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)

MAIS INFORMAÇÕES: (82) 8887-8795, (82) 8800-1087 e (82) 8826-6626

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