Design
O valor do design popular

O valor do design popular

Quem nunca arrancou uma folha do caderno escolar, enrolou a mesma até formar um funil e, na falta de um copo tradicional, utilizou a “invenção” para beber água? Esse é apenas um exemplo, entre tantos outros, de um fenômeno que surge informalmente, na ausência do conhecimento erudito, para driblar a carência de artefatos: o design popular. O tema está na edição de nº 14 da revista Graciliano, que chega às bancas na próxima semana com reportagens sobre design alagoano e identidade cultural.

Um pneu preso ao galho de uma árvore por meio de duas cordas é uma ótima solução para distrair a criançada na falta de um parquinho. E o famoso prego que segura a alça na sola do chinelo prolonga a vida útil do objeto que, muitas vezes, é único no armário de seu dono. Esses artefatos são criados como soluções práticas e imediatas para facilitar a vida daqueles que os consomem ou para substituir produtos industrializados que não condizem com o poder aquisitivo de determinadas pessoas. Um bom exemplo é o maceioense Caubi Ferreira Santos, 55, que teve uma ideia simples e extremamente proveitosa para a viabilização da venda de acarajés e bebidas na orla da Ponta Verde.

Invenção do comerciante Caubi Ferreira, que criou a tábua com elásticos a partir da necessidade de fixar as comandas para que elas não fossem levadas pelo vento (fotos: Elayne Pontual)

Quando a Prefeitura de Maceió determinou, em agosto de 2009, que os prestadores de serviços não poderiam mais comercializar nenhum tipo de bebida em recipiente de vidro, Caubi percebeu que, desta forma, perderia o controle do que estava sendo consumido: “Então eu e meu filho decidimos, com a orientação de alguns clientes, trabalhar com comandas”, diz. No entanto, com o carrinho de acarajé estabelecido na praia, sentiu-se a necessidade de fixar as comandas para que elas não fossem levadas pelo vento. “Pedimos ao marceneiro para confeccionar alguns pedaços de tábuas e nelas prendemos os papéis com o auxílio de dois elásticos. Foi uma ótima solução”, conta Caubi.

Além da tábua com elásticos, o próprio carrinho onde o acarajé é preparado, transportado e comercializado também é um bom exemplo de design popular. Estruturados em metal e suspensos por rodinhas, eles possuem apoio para as mãos e pequenas portas de vidro, o que confere comodidade ao comerciante e higiene ao produto transportado. O carrinho de acarajé é uma particularidade alagoana e, em diversos bairros da capital, é possível ver o objeto de trabalho circulando e comercializando o quitute.

Uma particularidade alagoana, o carrinho de acarajé também está dentro do que pode ser considerado design popular

De acordo com a designer Vânia Amorim, o design popular nasce para solucionar um problema cotidiano, individual ou coletivo.  “É possível que o objeto se torne notório na comunidade e, ao encontrar um público consumidor, transforme-se num meio de sobrevivência”, explica.

Apesar de solucionar os problemas de uns, o design popular pode também se tornar um problema para outros, alerta a designer Vânia Amorim: “Os artefatos produzidos sem conhecimento técnico nem tecnológico podem causar algum problema, sim. Por exemplo, um brinquedo de madeira mal lixado ou um brinquedo com peças pequenas comercializado sem as recomendações sobre a inadequação para crianças de até três anos de idade”.

Da necessidade à arte

O objeto considerado design popular pode ser criado por um cidadão que exerça qualquer outro ofício e consiga, ao mesmo tempo, solucionar problemas usando a criatividade ou pode ser confeccionado, também, por um artista. Segundo a designer Vânia Amorim, é possível, e até comum, encontrar arte dentro do universo do design popular, a exemplo do mobiliário de Fernando Rodrigues (falecido em 2009), da Ilha do Ferro, no Sertão de Alagoas.

Filho de um artesão de tamancos, Fernando Rodrigues dos Santos adotou o ofício do pai e foi mais além. Nativo da comunidade Ilha do Ferro, localizada a 18 km do município de Pão de Açúcar, Seu Fernando, como era mais conhecido, conseguia enxergar nas pedras, raízes, galhos e troncos, formas jamais vistas ou imaginadas por outras pessoas. Ao encontrar pedaços de madeira na beira do rio ou na caatinga, ele os transformava em cadeiras ou banquinhos extremamente atraentes e inventivos. “Fernando era um misto de design e artista. Ao mesmo tempo em que sua obra serve como objeto de uso, ela tem muita força estética”, diz Maria Amélia Vieira, artista visual que comanda, junto ao seu marido, Dalton Costa, também artista, a galeria Karandash, localizada no bairro do Farol e que abriga várias obras de Seu Fernando.

Banco criado por Seu Fernando, da Ilha do Ferro

Seu Fernando nunca estudou cor, linha ou textura. Não chegou nem a aprender o alfabeto, mas é considerado por muitos um grande designer da arte popular. Suas obras foram destaques em projetos de designers como Arthur Casas e passaram pelas mãos da diretora do Museu da Casa Brasileira de São Paulo, Adélia Borges, além de viajarem pelo mundo sob a curadoria de arquitetos como José Alberto Nemer e Janete Costa. Então, o que o diferencia de um artista erudito, de um designer graduado, ou até mesmo de uma pessoa inventiva que produz artefatos por necessidade? A resposta é que ele é um misto de todos esses elementos.

Para Maria Amélia, Seu Fernando é um artista por criar peças únicas com efeito estético de alto impacto, e é um designer por trabalhar muito em objetos utilitários como cadeiras, cofres e canecas. “Se o artista popular precisava de um banquinho para sentar, ele fazia um banquinho para sentar. Se os filhos precisavam de um brinquedo e ele não tinha dinheiro para comprá-lo, então ele ia lá e fazia o brinquedo para o menino brincar – brinquedos estes que são, muitas vezes, grandes esculturas”.

 

 

Compartilhe

Posts Relacionados

Responder

Seu e-mail não vai ser publicado. Required fields are marked *