Cinema
Profissão cineasta

Profissão cineasta

A vida de cineasta não é fácil. É preciso correr atrás de tudo: financiamento, atores, locações, elementos para as cenas. Teoricamente, haveria um cargo para cada função citada. Mas no mundo dos baixos orçamentos, diretor é roteirista, produtor e até, em casos extremos, doa a própria casa para o bom andamento da história.

Parece desmotivador? Não é o que pensa o jovem cineasta alagoano Rafhael Barbosa. Com apenas dois curtas no currículo– Km 58, o mais recente, venceu em três categorias na 2º Mostra Sururu de Cinema Alagoano, no ano passado – Rafhael aponta como a mais promissora revelação do cinema alagoano.

Seu filme, Km 58, um curta sem falas que trata da homofobia, foi amado e odiado. E segue para seu quarto festival de cinema. No mais importante deles, o Cine PE, a obra alagoana dividiu a opinião de críticos e do público.

Polêmicas à parte, Rafhael partiu para uma nova empreitada. Sua mais recente ficção, um dos selecionados pelo edital de incentivo à produção audiovisual da Secult, trata das artimanhas e entraves da memória. E foi a partir do Mal de Alzheimer que ele, junto a mais 17 pessoas, realizou as filmagens do curta-metragem O que Lembro, Tenho.

Anita Neves (a esq.) contracena com a atriz Ivana Iza (fotos: Vanessa Mota)

As pequisas para a elaboração do filme começaram meses atrás, e ele, aos poucos, deparava-se com os problemas e as soluções de se fazer cinema. O primeiro empecilho foi encontrar uma casa com características iguais ou ( já fazendo alguns concessões óbvias para o andamento do projeto) parecidas com a do roteiro. O segundo era uma atriz. Ele não conhecia nem vislumbrava quem interpretaria o personagem central da trama, uma idosa.

Coincidentemente, os dois entraves foram resolvidos no mesmo dia, na mesma cidade, pela mesma mulher: Anita Neves. Como toda boa história cinematográfica, o desfecho só se deu depois de um clímax típico dos dramalhões mexicanos. Eles encontraram a casa que serviria de locação em Boca da Mata, numa fazenda próxima à cidade. “A igreja, o rio, a casa, tudo a gente encontrou em Boca da Mata, o que, para a logística do filme, ajuda bastante”, conta Rafhael.

A atriz, que havia sido escalada para o papel principal foi contactada por telefone e desistiu do projeto duas horas antes do primeiro ensaio. “Foi aí que nós ligamos para a Anita, que até então só estava nos doando a casa, e perguntei se ela queria atuar. Ela respondeu: ‘Vou e serei uma atriz linda'”.

Dia chuvoso nos bastidores da gravação em Boca da Mata

Para surpresa geral, foi exatamente o que aconteceu.”Quase nada dos diálogos que estavam no roteiro ela falou. Ela improvisou muito e ficou muito melhor do que o que eu tinha escrito”, conta Rafhael.

Aos 74 anos, Anita Neves dividiu a cena com a experiente atriz Ivana Iza, que interpreta sua filha. Além deles, o próprio neto de Anita faz uma ponta no filme. Igor Araújo e Nilton Resende compõem o elenco profissional da história.

Se é possível aprender com os erros cometidos, Rafhael é uma prova de que essa crença é verdadeira. Deixou de lado as críticas negativas feitas para Km 58 e concentrou-se naquilo que, segundo ele, não deu muito certo.”Esse é um trabalho que, tecnicamente, está primoroso. Ficou muito superior ao Km 58. Esse filme tem um amadurecimento gigante”, constatou.

O momento no qual vive o cinema alagoano é singular: são vários filmes sendo feitos ao mesmo tempo, envolvendo profissionais daqui e de outros estados. O próprio Rafhael se mostra esperançoso com seu filme: “Tecnicamente a gente chegou a um nível, que eu não esperava que iria acontecer, de qualquer bom filme nacional”, diz. E completa: “Eu vi o que os outros diretores alagoanos estão produzindo. Isso mostra que nós temos know how para fazer cinema de qualidade. Não temos mais nenhuma desculpa”, completa.

Cena do curta de ficção “O que Lembro,Tenho”, de Rafhael Barbosa

 

O filme será finalizado em agosto. O lançamento deve acontecer em setembro, numa programação a ser divulgada posteriormente pela Secult, responsável pelo edital de incentivo à produção audiovisual.

 

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