Artes Cênicas
Peró de Andrade e seu picadeiro solidário

Peró de Andrade e seu picadeiro solidário

“Eu sou conhecida como Peró de Andrade, mas meu nome é Peronilda Batista de Andrade e tenho 59 anos”, é assim, com simplicidade e muita simpatia, que  a idealizadora do projeto social “Sua Majestade, o Circo” se apresenta à repórter da Graciliano.

Peró cursou Teatro na Universidade Federal de Alagoas, mas sua relação com o circo só foi se intensificar quando conheceu Marcos Frota (ator global que interpretou o personagem Tonho da Lua na novela Mulheres de Areia, exibida pela TV Globo em 1993 e dirigida por Wolf Maya). Na época, a alagoana tinha por volta de 35 anos e foi convidada a fazer parte da produção de um espetáculo organizado por Marcos, que iniciava o Grande Circo Popular do Brasil (Marcos Frota Circo Show).

Peró só deveria ficar na produção por 15 dias, mas acabou trabalhando para Marcos por 15 anos, viajando, desta forma, por todo o Brasil. “Faço parte da primeira equipe. Cheguei lá na lona nova”, lembra. Ela fazia de tudo: “Eu era multiuso, tanto que, hoje, são quatro pessoas para fazer o que eu fazia”. Proativa, além da produção de cenário e figurino, Peró dirigia o espetáculo e qualquer coisa que lhe pedissem.

Peró de Andrade, idealizadora do projeto social “Sua Majestade, o Circo”

Foi no Maranhão, numa cidade chamada Imperatriz, que a alagoana recebeu um telefonema que mudaria sua vida. Do outro lado da linha alguém anunciava: o famoso e aclamado Cirque du Soleil estava vindo para o Brasil trazendo um programa chamado Jeunesse Du Monde, ou, traduzido para o português, Jovens do Mundo. “Foi a primeira vez que eu ouvi falar em circo social”, admite.

Nacional 

Hoje, no Brasil, o projeto social do Cirque du Soleil chama-se Rede circo do mundo. São 22 instituições em todo o País. Ele está presente também na Argentina, no Chile, na África e em outras regiões do planeta. Especialmente no Brasil, existe uma rede que, recentemente, fez 16 anos.

Como a companhia é de nacionalidade canadense, exige-se que os integrantes de sua equipe falem francês ou inglês. Não se sabe como, mas, na época, descobriam que Peró sempre foi curiosa pela língua e que, depois de alguns estudos autodidatas, tinha certo domínio do vocabulário francês. Por isso, ela estava na lista dos “convidados”.

O circo estava convocando voluntários para participarem do projeto, e como a alagoana precisava de dinheiro para seu sustento, teve que recorrer à uma ajuda amiga: “Eu falei com o Marcos e ele disse: ‘Pode ir, está liberada!’”, conta, revelando que o ator havia dado carta branca para que ela fosse e voltasse quando bem entendesse.

Depois de sua experiência com circo social, Peró decidiu trazer o projeto “Jovens do Mundo” para Maceió, instituindo a ONG “Sua Majestade, o Circo”

O projeto do Cirque du Soleil fixou-se no Recife e foi para lá que levaram Peró. “Nós trabalhávamos com uma média de 30 jovens, lá no Sítio da Trindade [Zona Norte da capital pernambucana]”. Peró passou dois meses em Recife e logo teve que retornar para o circo de Marcos, que precisava de seus serviços.

No vai e vem entre o projeto do Soleil e o Grande Circo, ela decidiu trazer o Jovens do Mundo para Maceió, sua cidade natal, tendo o apoio de Marcos. “Comecei no Jacintinho e tínhamos parceria com a prefeitura. Quando havíamos limpado tudo, houve mudança de secretário e fomos praticamente despejados”, lamenta. Por esses e outros motivos, a ONG teve que se mudar para a Vila Emater II, favela do antigo “lixão” onde, desde 2000, vem desenvolvendo trabalhos de arte-educação, possibilitado a construção da cidadania e resgatado a cultura circense no Estado.

Social 

“O circo social, em si, trabalha com crianças de baixa renda”, explica Peró, que faz questão de lembrar: “Não quer dizer que através do projeto social você vá formar alguém em circo, mas, por ele ter caráter lúdico, pode ser educativo”.  De acordo com a fundadora, a ONG Sua Majestade, o Circo, não trabalha apenas com arte circense, mas com teatro, dança, música e canto, além de realizar diversas atividades educativas, como o Picadeiro da Leitura e o Picadeiro da Matemática.

No ano passado, a ONG recebeu o prêmio BNB Cultural, através do projeto Espaço híbrido itinerante das tradições populares. E, a partir de então, teve contribuição da Algás e da Secretaria de Estado da Cultura (Secult) para que pudessem circular por dez cidades de Alagoas. “Hoje já temos uma lona de circo com capacidade para 700 pessoas”, orgulha-se.

Hoje o projeto já tem uma lona de circo com capacidade para 700 pessoas

“Eu comecei com circo profissional, mas depois da primeira experiência acabei me apaixonando pelo circo social”, declara. Para ela, sua principal gratificação é poder ver pessoas como Alan da Silva, um antigo aluno, hoje presidente da Sua Majestade, o Circo. “É muito bom poder ver meus alunos trabalhando em empresas e serem elogiados por seu comportamento, pelo diferencial que cada um possui como pessoa humana”, emociona-se, esclarecendo que nunca se sentiu obrigada a formar artistas – por se tratar de uma escolha individual -, mas que sempre se sentiu responsabilizada pela formação das crianças enquanto cidadãs.

Educativo 

Alan da Silva, 30 anos, ficou encantado quando viu, pela primeira vez, uma perna-de-pau. “Os meus amigos começaram a usá-las e como tinha apenas um par para as aulas – que, por azar, não era meu número -, eu fui o último a poder andar nelas”.

O garoto esperou dia após dia a chegada de um novo par de pernas-de-pau que coubessem em seus pés. Eis que eles chegaram e foi aí que o atual presidente da ONG pôde apresentar seu primeiro espetáculo, chamado O molequinho que caiu do céu. “Era um conto de natal e minha mãe foi assistir. Meu personagem era o galo da fazenda abandonada”, lembra, emocionado.

A ONG não trabalha apenas com arte circense, mas com teatro, dança, música e canto, além de realizar diversas atividades educativas

Hoje ele percebe que nem tudo é brincadeira e que, para manter um projeto social como o Sua Majestade, o Circo, é preciso ter muita garra e responsabilidade: “A cada dia, reconheço a luta que Peró travou para conquistar o respeito que o projeto tem hoje”, diz Alan, que, lá atrás, tinha sede de conhecimento e agora está à frente de decisões importantes para a melhoria da ONG. “Fico grato pelo mérito e feliz em poder estar, de certa forma, crescendo junto a ele”.

 

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Para quem tiver curiosidade de conhecer de perto as ações desenvolvidas pela ONG Sua Majestade, o Circo ou que queira colaborar com o projeto, entrar em contato com Marco Antonio pelos telefones: (82) 9901-0330 / 8856-3126 ou através do e-mail: marcoantoniodecampos@hotmail.com

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