Teatro
Caio Fernando no teatro

Caio Fernando no teatro

Uma anedota que circula pela internet conta que um rapaz lia algum livro de Caio Fernando Abreu quando uma mulher se aproximou. Pediu que ele lesse uma das frases que estava no livro. O rapaz disparou uma descrição de uma relação homoafetiva, mas a moça não acreditava ser o mesmo Caio que, para ela, era o autor de frases bonitas no Facebook.

Talvez a história nem seja verdadeira, mas bem que poderia. A popularidade de alguns autores na era das redes sociais – entre eles Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector– tem distorcido, em parte, a compreensão (e a própria autenticidade) de sua obra.

Mesmo antes de Caio fazer sucesso no Facebook, a companhia de teatro Luna Lunera montou um espetáculo baseado no conto Aqueles Dois. ” A peça estreou em 2007 e, nessa época, o Facebook não era popular. Havia o Orkut, e no Orkut o Caio ainda não tinha entrado”, conta Odilon Esteves, um dos atores e codiretores da peça que chega a Maceió para três apresentações no teatro Marista: duas no sábado (18h30 e 21h) e uma no domingo (20h).

Os atores Odilon Esteves, Marcelo Souza e Silva, Cláudio Dias e Guilherme Théo em cena da peça Aqueles dois, considerada pela Folha de S. Paulo como melhor espetáculo de 2008

O espetáculo Aqueles Dois conta a história de Raul e Saul, trabalhadores que são vítimas de preconceito por possuírem, segundo os olhares de seus colegas, uma relação homoafetiva.

A companhia Luna Lunera foi fundada em 2001, em Belo Horizonte, e já montou cinco espetáculos.Em 2008, Aqueles Dois foi considerado o melhor espetáculo de teatro segundo o guia do jornal Folha de S. Paulo, além de serem indicados ao Prêmio Shell nas categorias Melhor Direção, Melhor Cenário e Melhor Iluminação, tendo recebido o prêmio por este último.

Confira a entrevista concedida por um dos atores e criadores da peça, Odilon Esteves, à Graciliano online.

GRACILIANO – Hoje, o Caio Fernando Abreu alcançou certa fama entre alguns jovens nas redes sociais. Essas frases, no entanto, além de distorcerem a obra, contribuem para dificultar sua compreensão. Como essas pessoas reagem à peça?

ODILON ESTEVES – A peça estreou em 2007. Esse boom do Caio na internet se deu em 2009 e 2010. Mas o curioso é que quando viajamos pelo interior do Brasil, no primeiro semestre de 2010, o Facebook ainda não era tão popular no interior. Havia o Orkut, e no Orkut o Caio ainda não era tão citado. Recentemente, um jornalista  até brincou, no texto que escreveu, que os jovens deviam estar indo ao teatro ver Aqueles Dois com seus tablets nas mãos. (risos) Era uma brincadeira, claro. Acho que o público, independente da idade, tem reagido de forma muito generosa à peça. O texto do Caio toca em questões universais: a solidão, a aridez que muitas vezes encontramos no ambiente de trabalho (e isso vale para, praticamente, todas as profissões), a perda, a possibilidade do encontro, a amizade, o preconceito (seja qual for). Então acho que, no teatro, o público acaba esquecendo a internet e mergulhando mais fundo.

O crítico do jornal O Globo afirmou que o espetáculo consegue as armadilhas fáceis de se adaptar a um conto tão conhecido como esse. Como de seu esse processo?

Ele mesmo aponta duas das tais armadilhas nas quais poderia-se cair: a reverência ao texto e a rasa encenação de uma história gay. O processo começou muito despretenciosamente. Estávamos fazemos uma estudo  interno, em que dois membros do grupo, eu e o Cláudio Dias, nos oferecemos pra conduzir duas oficinas: eu, de Ações Vocais (que é um recorte do método da Ações Físicas do teatrólogo russo Constantin Stanislavski). E o Cláudio conduziu uma oficina de Contato Improvisação [técnica corporal criada pelo norte-americano Steve Paxton na década de 1970]. Não que fôssemos experts naqueles temas. Mas eram temas novos para o grupo, e não tínhamos, na época, condições financeiras pra convidar um professor externo pra nos orientar. Sentimos necessidade de procurar um texto para que a oficina de Ação Vocal não ficasse tão aleatória. Começamos por Otelo, de Shakespeare. Mas depois do ensaio, sentados numa pizzaria, decidimos escolher alguma coisa mais próxima da gente, afinal não era pra virar peça, então que fosse um autor desses que a gente lê quando quer ler simplesmente. Esses livros que a gente trata como se fosse um encontro com um bom amigo. Aí o Cláudio sugeriu que lêssemos Caio Fernando Abreu. Lemos vários contos, mas quando chegou Aqueles Dois, o conto foi apaixonando todo mundo. Tanto que decidimos experimentar um exercício de montar um espetáculo. Mas quem iria dirigir? Não  tínhamos dinheiro pra convidar um diretor externo. Saímos de férias com a missão de cada ator desenvolver um projeto de direção. Éramos quatro atores. Cada um dirigiria os demais por uma semana e, ao final de quatro semanas, elegeríamos o melhor projeto. Mas o que aconteceu foi que os quatro projetos eram completamente diferentes um do outro, mas todos igualmente interessantes. E um começou a influenciar o outro, a se complementar, e por fim, não elegemos um diretor. Seguimos dirigindo juntos. Um dos atores decidiu não atuar,  ficar só no núcleo de direção e dramaturgia,  e convidamos um outro ator, o quinto elemento, para completar o quarteto que se vê em cena.

E por que as coisas funcionaram assim?

Porque o espetáculo tinha que conter a voz dos cinco diretores, não por obrigação, mas porque se deu desse jeito. E a relação entre os personagens, Raul e Saul, era compreendida de formas variadas entre nós. Alguém achava que eles fossem gays, alguém tinha certeza de que eram hétero, outro achava que um era gay e o outro era hétero, e todos com mil razões, tiradas do próprio texto, e a gente viu que mesmo o Caio não fechava essa questão, porque certamente não era o que mais importava. Quanto a não reverenciar o texto, como o Jefferson diz, acredito que aconteceu porque não tratamos o Caio Fernando um estranho. Era como se fosse um amigo nosso. Mais uma voz. E um amigo que é amigo mesmo não gostaria de ficar sendo reverenciado. Certamente preferiria entrar na brincadeira com a gente. E depois da quinta semana de ensaio, abrimos pro público, que podia ver a gente improvisando, quando ainda o texto estava longe de existir por escrito, e ia opinando, reagindo, sugerindo, dialogando conosco.

O texto do Caio foi escrito na década de 80 e ainda assim continua atual ao tratar o preconceito contra a homossexualidade. O que mudou de lá pra cá?

Acho que muitos avanços. Pode-se falar do tema. Existe uma geração de adolescentes, sejam heterossexuais ou homossexuais, que desde cedo vem aprendendo noções de respeito e tolerância. Vem convivendo pacificamente com as diferenças, sejam de raça, de etnia, de gênero, de orientação sexual, de convicções políticas, de preferências esportivas, de orientação sexual, de credo… É claro que sempre existem os contramovimentos. Algumas coisas avançam, outras retrocedem. O curioso é que em 2007, logo depois da estreia, alguém nos perguntou porque montar um texto tão datado na década de 80, com questões tão superadas. E nós devolvemos a pergunta: quais são as questões superadas? A solidão? o ambiente de trabalho? A perda de entes queridos? O preconceito? Acho que na verdade a pessoa só se referia ao preconceito. No conto os dois são demitidos e hoje, teoricamente, a lei não permitiria que fossem demitidos pela suspeita, repito “suspeita”, deles terem uma relação homoafetiva. No entanto, de 2007 pra cá, o que vimos foi a eclosão do discurso do deputado Jair Bolsonaro, que causou tanto assombro e tantos adeptos; a ex-atriz Myriam Rios, discursando sobre o perigo de um babá lésbica cuidar de seus filhos; a ascensão do pastor Silas Malafaia etc.

Ainda ontem li um blog sobre repúblicas de estudantes em Ouro Preto/MG, em que um estudante denuncia que em moradias estudantis onde a maioria do moradores é homofóbica,  homossexuais costumam ser  expulsos, por puro preconceito, mas sob a alegação de outros motivos. A verdade é que a hipocrisia cresce de forma assombrosa. A lei faz com que mudem os argumentos para,  muitas vezes, justificar o mesmo desfecho.

O cenário, a música e o figurino fazem referência a diferentes épocas. A que se deve isso?

É uma pista pro espectador de que aquela história poderia ter se passado nos anos 60, 70, 80, 90, 2000, ou mesmo estar acontecendo agora. É uma multiplicidade do tempo. Mas isso é só uma das leituras. Pode ser que haja outras.

Como tem sido a repercussão não apenas da crítica, mas também do público?

Esse espetáculo tem atingido um público cada vez mais variado. Em Belo Horizonte e no Rio, cidades em que fizemos temporadas mais longas, há pessoas que nos dizem estar vendo pela terceira vez, pela quinta, pela oitava, e que voltou pra trazer um amigo ou os pais ou uma pessoa da família. Eu não me canso de fazer essa peça. Estamos quase completando 300 apresentações, em cinco anos de estrada. Mas para mim é como se fosse sempre o primeiro e único dia.

SERVIÇO

O QUÊ: espetáculo Aqueles dois
ONDE: Teatro Marista (Av. Dom Antônio Brandão, 564, Farol)
QUANDO: Sábado (03/11)  às 18h30 e 21h  e domingo (04/11) às 20h
VALOR: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
PONTO DE VENDA: Zoolo Hiper Center Farol (Av. Fernandes Lima, s/n, Farol)
INFORMAÇÕES: 8805-6641 e 9912-6291

 

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