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Explorando o valor de uma ideia

Explorando o valor de uma ideia

Atualmente, um modelo econômico diferente de tudo o que já tinha sido visto ganha espaço no mercado e impulsiona o surgimento de novas áreas de trabalho. A economia criativa é uma forte tendência no mundo dos negócios, aumentando os lucros e ofertas de emprego nas empresas que aproveitam a principal característica deste novo modelo, vender boas ideias.

Neste sábado (10/11), Maceió sediará o Dia da Economia Criativa – DEC 2012 – um evento que pretende debater esse novo pensamento econômico e incentivar a divulgação de trabalhos criativos no estado. Idealizado pelos designers gráficos alagoanos David Pacheco, 25, e Rafaela Calheiros, 23, o DEC será o primeiro evento que trata da economia criativa em Alagoas e reunirá nomes importantes do segmento no Brasil, como Tânia Savaget, uma das responsáveis pela concepção criativa da marca dos Jogos Olímpicos Rio 2016, e Luis Otávio, editor do blog CrowdfundingBR e fundador do projeto Catarse. A revista cultural Graciliano será tema de uma das palestras do evento.

Em 2009, quando ainda era estudante universitário, David Pacheco fundou, ao lado do também designer Herbert Loureiro, o Estúdio Alba, que lhe garantiu um lugar de destaque no mercado alagoano com projetos inovadores de identidade visual. Há dois anos residindo em São Paulo, David concluiu a pós-graduação em Design Estratégico na Gestão do Negócio, na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), procurou novas experiências profissionais como na área de branding para a Unimed e realizou trabalhos para grandes empresas  como Bradesco, Coca-Cola e Nívea.

Em entrevista à GRACILIANO ONLINE, David Pacheco relata o cenário da economia criativa no Brasil e os novos rumos da atividade em Alagoas, além de adiantar como será o evento que acontece no sábado (10/11).

GRACILIANO – No Canadá e em outros países desenvolvidos a economia criativa já supera o faturamento de um dos mais importantes setores da economia tradicional, a agricultura. É possível enxergar o mesmo caminho de sucesso no Brasil?

DAVID PACHECO – Atualmente, a publicidade é a maior área da economia criativa do Brasil, movimentando em 2011 aproximadamente 39 bilhões de reais. Ainda não supera o valor arrecadado pela agricultura, que movimenta 211 bilhões de reais por ano, mas se apresenta como um ramo forte da economia no País. Essas são apenas algumas das variáveis, porém nesses próximos anos, eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas irão aumentar significativamente os números no mercado criativo. Para explorar essas oportunidades, os profissionais têm que se preparar, apresentar maturidade e, logo após, planejar a continuidade do crescimento da economia criativa no País.

A economia criativa apresenta uma grande abrangência de áreas, como o design, artesanato, audiovisual e conteúdo digital. Quais outras áreas podem se beneficiar com o desenvolvimento deste novo modelo econômico?

Foram os ingleses quem promoveram um plano de desenvolvimento estratégico para a economia criativa definido-a através de 13 setores: Propaganda, Arquitetura, Artes e Antiguidades, Artesanato, Design, Moda, Cinema/Vídeo, Música, Artes Cênicas, Editoração, Softwares de lazer, Rádio e TV. Na prática, o termo envolve qualquer atividade explorada pela imaginação do indivíduo que origine renda.

Quais são os maiores desafios para os profissionais que desejam ingressar no mercado criativo?

Entendo que o mercado criativo é como qualquer outro. Neste momento vejo o maior desafio na educação, uma vez que grande parte das instituições exploram muito a criatividade e esquecem de trabalhar o lado mercadológico. Para solucionar essa questão, as pessoas devem se arriscar bastante, na base da tentativa e erro. Existem livros, informações que são fundamentais, mas sem a prática o trabalho na economia criativa não funciona. Se, por um lado, no mercado muitos profissionais “criativos” realizam projetos maravilhosos e não têm o devido retorno financeiro, por outro lado muitos “gestores” ganham dinheiro com os trabalhos maravilhosos dos criativos. O maior desafio para o profissional é equilibrar o ladro criativo com o mercadológico.

Uma das críticas dirigidas à economia criativa é a dificuldade em se aplicar técnicas tradicionais de métricas para o retorno financeiro. Na economia criativa, o que pode ser avaliado como retorno para uma marca ou empresa?

Na visão popular, a criatividade muitas vezes é vista ainda com um olhar apenas estético e essa é uma das maiores dificuldades de profissionais que estão ingressando na área. Já há algum tempo existem algumas metodologias para mensurar os projetos na economia criativa, como por exemplo, a Interbrand, que tem 22 anos de experiência em verificar os valores das marcas. Hoje, a necessidade de todo profissional é de uma ferramenta de mensuração acessível. Na minha área, o design gráfico, já existem algumas ferramentas úteis para mensurar o valor do produto, entre elas recomendo a todos conhecerem o Design Atlas.  De maneira semelhante a outros mercados, o crescimento das vendas ou o aumento do valor do produto/serviço oferecido são avaliados como retorno para uma empresa, mesmo que a longo prazo. Para citar exemplos, a empresa norte-americana Apple e a brasileira Havaianas investem em design e isso reflete diretamente no valor do produto.

Você foi um dos fundadores do Estúdio Alba, uma das experiências colaborativas de maior sucesso em Alagoas. Como esta experiência profissional influenciou a sua carreira?

O Alba é um projeto que me orgulho muito de ter encabeçado, ainda mais por não ter sido algo pensado ou planejado, apenas queríamos nos divertir com os trabalhos. Foi lá que eu nasci: as referências que buscamos, pessoas incríveis que convivemos e os erros que cometemos formaram não só o profissional, mas a pessoa que sou hoje. Se olharmos no fundo, até mesmo a imersão no tema do evento que estou organizando – o DEC –, vem da busca por conhecimento para tornar o estúdio cada vez mais rentável.

No dia 10 de novembro será realizado o DEC, o primeiro evento que visa debater a economia criativa em Alagoas. Como um dos organizadores, o que o profissional pode esperar do evento?

A ideia do DEC é mostrar um pouco mais as questões mercadológicas de que o próprio trabalho final dos profissionais. Vale lembrar que o evento se concretizou não só pela organização minha e de Rafaela Calheiros (Estúdio Reca), mas do apoio de todas as pessoas e amigos que acreditaram na ideia. O público alagoano já tem um potencial criativo em sua essência. Espero que o DEC seja uma oportunidade para trocarmos experiências e fomentarmos este mercado.

Dentre os palestrantes escolhidos para o evento, o DEC contará com a presença de Luis Otávio, um dos maiores nomes do Crowdfunding no Brasil. Você acredita que o apoio financeiro colaborativo mudou o cenário da Economia Criativa?

O mercado de crowdfunding ainda é recente no Brasil, anunciar que mudou o cenário é cedo, mas é uma grande promessa. Hoje, não só o movimento de crowdfunding, mas também outros projetos como Artemisia, FINEP, Anjos do Brasil e vários outros estão incentivando e possibilitando pessoas a darem vida a suas ideias. Acredito que a soma de todos estes projetos acontecendo simultaneamente é um grande avanço nacional.

Recentemente, você ganhou o prêmio Folha de S. Paulo Top of minds, dado a empresas com maior visibilidade no mercado brasileiro. Já em Alagoas, você trabalhava com empresas de pequeno e médio porte. Qual a diferença entre trabalhar com uma marca que todos conhecem e construir uma totalmente nova?

Ambos tem suas individualidades positivas e negativas. Na Unimed, trabalho fazendo a gestão estratégica da marca em todo o Brasil, então o dia-a-dia é muito mais intangível. Lidamos com os melhores fornecedores e os projetos são de grande porte, planejados a médio/longo prazo e para isso há um presidente que tem que aprovar, depois tem que passar por uma comissão institucional, então eleva a responsabilidade e aumenta a burocracia dos processos também, o que é normal em grandes empresas. Só o fato de haver um núcleo interno com foco em Branding, já demonstra um amadurecimento mercadológico da empresa. Construir uma marca para micro e pequenas empresas, normalmente dispõe de mais autonomia e ousadia para criar, um contato mais próximo com o cliente que facilita bastante o processo. Etapas como estratégia e pesquisa ainda não são tão valorizadas em projetos como este e se tem dificuldade em conciliar questões como tempo e orçamento. Durante muito tempo a publicidade desvalorizou o valor intelectual, sobrevivendo em cima da bonificação por volume, o que obriga os designers hoje a evangelizarem esse novo modelo de negócio, onde o valor está na concepção e não na produção. Quando tudo dá certo e o projeto é implementado no mercado, o resultado é muito satisfatório. A relação que tenho com os clientes até hoje é muito saudável. Adoro acompanhar o crescimento do negócio uma vez que participei da criação.

Em Alagoas, algumas faculdades tem como opção o curso de Design, mas muitos dos profissionais ainda são de outras áreas, como o Jornalismo e Arquitetura. Qual a melhor forma para o profissional se preparar?

Não acredito que exista uma fórmula para o melhor preparo profissional. No mercado, existem grandes profissionais que nem tem formação, enquanto outros têm formação e não conseguem ter tanta visibilidade.  É uma questão ímpar, mais pessoal do que profissional, algumas pessoas conseguem buscar informação e desenvolver o trabalho com maior autonomia independente do curso. Obviamente, a formação profissional reflete na essência e na atuação do indivíduo em seus trabalhos. Como por exemplo, um arquiteto trabalhando como designer traz em seu repertório um olhar diferenciado com aptidão para o desenho.

SERVIÇO

O QUÊ: Dia da Economia Criativa (DEC)
QUANDO: Sábado (10/11)
ONDE: Auditório da Casa da Indústria (Av. Fernandes Lima, 385, Farol, Maceió-AL)
MAIS INFORMAÇÕES: http://www.dec.art.br/2012/ 

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