Cultura popular
A obra triunfal de Zé do Chalé

A obra triunfal de Zé do Chalé

Um homem esguio, de aparência robusta. Na face magra, se destacam as proeminentes maçãs do rosto. O lábio superior encontra-se encoberto pelo inferior e pela barba branca. E enquanto pronuncia as frases com muita tranquilidade, seus olhos parecem fixar o horizonte. Traços marcantes, mas comuns. Presentes num homem destinado por forças maiores do que ele a levar uma vida sem grandes feitos, de simples realizações cotidianas, dedicada à sobrevivência.

Nascido num desses desconhecidos rincões do País, José Cândido dos Santos (1902-2007) teve a história da sua vida humilde transformada nos últimos instantes. “Por Deus”, como ele acreditou, ou pela sensibilidade de alguns estudiosos da cultura popular. Ou quem sabe ainda, pelas duas razões. Desde dezembro último, suas obras podem ser apreciadas novamente pelos alagoanos, durante a exposição Troféus – Geografia Simbólica de Zé do Chalé, que vai até o dia 9 de março, no Museu Théo Brandão.

As obras do artista Zé do Chalé estão em cartaz no Museu Théo Brandão, até 9 de março

As obras do artista Zé do Chalé estão em cartaz no Museu Théo Brandão, até 9 de março  (fotos: Celso Brandão)

Nordestino e descendente de índios Xocó, seu José Cândido nasceu em 1902, no povoado de Saúde, no município de Neópolis, às margens do rio São Francisco. Filho de um alagoano conhecido como Cândido Mulato e da índia sergipana Maria Francisca da Silva, quando ainda era criança teve que seguir em direção às terras do avô materno, na Ilha de São Pedro, região indígena dos xocó. Para ele, o período em que viveu naquelas paragens, foi o mais agradável da sua vida. Anos depois ganhou o apelido de Zé do Chalé. “Porque eu fazia chalé de madeira ou de palha, cobria de telha ou de barro”, contou certa vez ao antropólogo Etianne Samain. E permaneceu lá até as oligarquias agrárias ameaçarem por fim no aparente sossego que os rodeavam. Coube aos homens mais sensatos apenas arrumar as trouxas de roupa e migrar para outro lugar. Foi isso o que seu José Cândido e sua família fizeram numa manhã esmagada pelo sol forte. Tornaram-se retirantes. “Ali teve muitas coisas bárbaras que quando as pessoas não suportavam mais, iam embora”, disse sua esposa, dona Donata Travesso, já falecida, em entrevista ao documentarista alagoano Celso Brandão.

Seu Zé do Chalé fixou moradia em Aracaju, capital sergipana, em meados de 1958, após andanças por cidades como Limoeiro, Carrapicho e Penedo. Nesta última, chegou a trabalhar como carpinteiro na Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf). “Era como cigano. Hoje aqui, amanhã acolá”, frisou dona Donata. Aos 89 anos, José Cândido decidiu se aposentar desse ofício, cuja renda ajudou a sustentar a casa, sua mulher, as duas filhas, Maria de Fátima e Maria Helena, e o único filho, Zacarias dos Santos. “Eu sou rico de família. Sabe quantos bisnetos eu tenho? São 39, fora os que estão espalhados e eu não sei”, disse em tom de brincadeira.

Com o tempo livre, se dedicou a construir navios em miniaturas e a colocar pequenas cruzes de madeira dentro de garrafas de vidro. Depois, começou a fabricar correntes de madeira, cuja beleza residia no tipo de montagem, na qual o encadeamento entre os elos se dava sem emendas. Contudo, seu destino mudou a partir do momento em que produziu esculturas em formato cilíndrico com o fundo vazado a que o artista chamava de “troféus”. As peças se sobressaiam em relação às demais pelo forte teor religioso, pois muitas delas eram coroadas por superfícies pontudas ou mesmo por cruzes e uma série de outros símbolos religiosos.

Peças esculpidas em formato cilíndrico, com interior vazado, os troféus traduzem a religiosidade e a memória indígena de Zé do Chalé

Peças esculpidas em formato cilíndrico, com interior vazado, os troféus traduzem a religiosidade e a memória indígena de Zé do Chalé

“O mundo tá muito bom, só não tá como Deus quer”, avaliou Zé do Chalé, quando completou um século de existência. Até o final da sua vida, aos 105 de idade, ele podia ser visto onde quer que fosse com sandália de couro nos pés, toco de madeira nas mãos e talhando algum tronco de árvore, retirado das redondezas da sua moradia. Foram 15 anos de trabalho (de 1993 a 2007), que resultaram num extenso catálogo formado por peças únicas esculpidas em madeira. Nas esculturas produzidas por ele, a simplicidade do processo de fabricação parece adquirir mais valor devido à surpreendente sofisticação presente nas obras de arte que surgiram, aos poucos, da ponta de uma faca.

“Deus é quem me dá a orientação de fazer a peça. E pra depois que eu preparo, eu digo: ‘Oh, meu Deus, onde foi que eu achei… Quem foi que me ensinou?”, contou o humilde artista rindo; e continuou: “O dom já vem de Deus. Pra preparar aquela peça que às vezes eu não ia esculpir de mim mesmo. Eu digo: Oxe! Quem foi que me ensinou a fazer essa peça, com tanto detalhe, na ponta de faca?”. Para o índio xocó Raimundo Lima, seu José Cândido dos Santos é “um artista especial, porque não estudou… Como a gente vê por aí afora, não há só ele, há outras pessoas assim também, que são artistas da natureza”.

Simples e ao mesmo tempo sofisticadas, as esculturas de Seu Zé do Chalé foram produzidas com o auxílio de poucos instrumentos

Simples e ao mesmo tempo sofisticadas, as esculturas de Seu Zé do Chalé foram produzidas com o auxílio de poucos instrumentos

O artista declarou também que as inspirações para produzir suas esculturas surgem durante o sono, através dos sonhos. “Eu já fiz uma peça num sonho… Quem está dormindo está morto. Tanto que fiz uma bola, dentro dela fiz outra, daí eu acordei, vi um pedaço de madeira, fiz uma bola, uma fora e uma dentro, pregada em cima, e coloquei um passarinho em cima. Uma pessoa me perguntou: ‘Seu José, o senhor já foi a Roma?’. Eu disse: ‘Não, por quê? ‘Pois na Basílica de São Pedro, na torre, tem uma bola, tem outra, e do lado de dentro tem uma cruz’. Tudo é um dom que Deus nos dá”, disse.

Graças ao esforço de pesquisadores, críticos de artes, antropólogos e colecionadores para desvendar na imensidão do País artistas vindos das camadas simples da população, os quais fabricam uma arte, de difícil conceituação, conhecida como popular, é que Zé de Chalé foi descoberto. Suas peças foram expostas em cidades como Rio de Janeiro, em Sergipe e em Alagoas.

O blog GRACILIANO ON LINE visitou a mostra e traz um guia dos principais destaques.

– Cerca de 30 esculturas da coleção do fotógrafo e documentarista Celso Brandão e do acervo pessoal dos colecionadores Maria Amélia Vieira e Dalton Costa, da Galeria Karandash, foram selecionas para a exposição. Elas estão dispersas por duas salas, onde o visitante poderá apreciar as obras chamadas por Zé do Chalé de “troféus” e, também, pequenas carrancas, correntes e barcos todos feitos com madeira, principal matéria-prima do artista.

– Nas salas, foram instalados painéis com textos de autoria do antropólogo Etienne Samain, cujo propósito é apresentar ao visitante o universo do escultor sergipano. Num deles, encontramos: “Esses troféus são ao mesmo tempo vozes longínquas, memórias arcaicas, talvez, gritos que emergem de troncos cortados e se erguem em direção aos céus. Nesses troncos esculpidos como rendas, pode-se ler compridas histórias e outros sonhos”.

– Na terceira e última sala do circuito é exibido o documentário Arquivo José do Chalé, de Celso Brandão. O filme reúne depoimentos de familiares e amigos e acompanha alguns episódios do cotidiano de Zé do Chalé. Numa das cenas, vemos seu filho, Zacarias dos Santos, confessar a surpresa por seu pai – analfabeto e já na velhice – ter sido descoberto um artista. “Ele se aposentou de sua profissão de carpinteiro aos 89 de idade, e como é uma pessoa que não sabe ficar parada, aí começou primeiro botando uma cruz dentro de outra garrafa. Depois ele cismou de fazer uma corrente. E pronto, não parou mais. E chegou até esse ponto de ser reconhecido pela imprensa, pelas pessoas que conhecem arte. Eu mesmo não entendia nada. Pensava que ele estava fazendo bobagem. Depois que vocês reconheceram o talento dele, então comecei também a dar valor”, revelou Zacarias, que hoje assumiu a preservação do acervo deixado pelo pai.

A exposição conta com a curadoria de José Carlos da Silva, Júlio César Cháves, Siloé Soares de Amorim e Thaísa Sampaio Sarmento, e para a sua realização, recebeu a parceria do Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore (av. da Paz, 1490, Centro). A entrada é gratuita.

SERVIÇO
O quê: exposição Troféus – Geografia Simbólica de Zé do Chalé
Onde e quando: no Museu Théo Brandão (av. da Paz, 1490, Centro), até o dia 09 de março
Visitação: de terça a sexta-feira, das 9h às 17h; aos sábados, das 14h às 17h
Entrada franca
Mais informações: (82) 3221-2651

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Um Comentário

  1. Narciso de Portela Matos

    22 fevereiro 2013 at 20:13

    Isto sim , pode-se chamar de “ARTE”. Porém no Brasil o verdadeiro artista não é considerado, pois normalmente vem de meio humilde e nunca é reconhecido, uma pena!

    Reply

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