Literatura
Um jornal centenário

Um jornal centenário

Alagoas ingressa no século 20 com ares de desenvolvimento. De acordo com dados do IBGE, a população alagoana ultrapassava os 800 mil habitantes, enquanto que, em sua capital, Maceió, pouco mais de 60 mil pessoas dividiam o tráfego nas ruas da cidade com animais e carros de bois.

A primeira década do século passado é marcada pela chegada ao poder de Euclides Vieira Malta. Enquanto isso, a paisagem urbana da capital é profundamente alterada com as obras do arquiteto italiano Luigi Lucarini, como  o Teatro Deodoro e o Palácio dos Martírios. Já em 1912, um episódio deixaria uma mancha na historiografia local, o Quebra de Xangô, quando a Liga dos Republicanos Combatentes invadiu e destruiu inúmeros terreiros de candomblé de Maceió.

É nesse contexto que surge, em 1913, o veículo de comunicação da arquidiocese de Maceió, o jornal O Semeador, o mais antigo diário católico em circulação no País. Inicialmente com periodicidade diária, O Semeador resiste e hoje é publicado a cada 15 dias. Sua criação é uma iniciativa de dom Antônio de Oliveira Lopes, o segundo bispo de Alagoas. Ele ordenou a três sacerdotes católicos que criassem um diário católico. 

Assim como a história de outros jornais centenários, as páginas de O Semeador guardam fatos históricos importantes e já serviu como fonte de pesquisa para cientista sociais e jornalistas.

Um desses episódios foi observado pelo jornalista e pesquisador Jackson da Silva Santos, cujo trabalho de conclusão de curso foi um estudo sobre o periódico católico. Na década de 30, as páginas do jornal expressavam posição contrária ao comunismo. “O Semeador publica um editorial em que avança a necessidade de manter-se cautela contra o comunismo, fala da penetração comunista no que chamava de ‘classes populares’ e frisa a necessidade de providências para que os conservadores saíssem fortalecidos pela criação de um partido consistente”, escreveu Jackson Santos.

O golpe militar de 1964, que levou a censura a patamares ainda não conhecidos no Brasil, iniciou uma guerra silenciosa contra os jornais brasileiros, levando-os a táticas inusitadas para driblar a censura. Em Alagoas, segundo a opinião de Jackson da Silva Santos, isso não foi preciso, pois o diário católico aclamava o golpe. “O golpe contou com o explícito apoio do arcebispo de Maceió, dom Adelmo Cavalcante Machado. Ele celebrou, ao lado do governador de Alagoas, autoridades estaduais, empresários e clérigos”, escreveu Jackson.

Pensar que O Semeador, por ser um jornal hoje pouco conhecido, nunca possuiu influência é um grave equívoco. Em 1930, o cônego Luís de Medeiros Netto chegou a ser preso depois de escrever o artigo “Do berço ao lixo”, considerado ofensivo por autoridades da época. 

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