Literatura
Graciliano e o amor

Graciliano e o amor

No dia 20 de março de 1953, Graciliano Ramos morreu, no Rio de Janeiro.  Hoje, são 60 anos sem o homem que deu ao mundo obras literárias eternas, como Angústia e Vidas Secas.  

Se toda ausência sentida é também uma prova de afeto, ler as cartas que o escritor enviou para Heloísa, sua mulher – os dois podem ser vistos juntos na foto em destaque–, é aproximar-se do Graciliano quase nunca retratado: o homem que, apesar da visão amarga e realista da vida, sabia amar.

Por qual outra razão alguém escreveria “Conheces algum padre que me possa casar sem confissão? Não estou disposto a ajoelhar-me aos pés de ninguém. Mentira: estou disposto a ajoelhar-me aos teus pés, a adorar-te”, que não fosse por amor?

Confira abaixo uma das cartas de Graciliano Ramos a Heloísa na íntegra.

És uma extraordinária quantidade de mulheres

Heloísa:

Mandei-te uma carta pelo último correio e já a necessidade me aparece de falar novamente contigo. Se pudesse, empregaria todo o tempo em escrever-te, só para ter o prazer de receber respostas. Tenho tanto que te dizer… Nem sei por onde começar, fico indeciso, com a pena suspensa, vendo interiormente esses olhos que me endoideceram quando os vi pela primeira vez. Muitas coisas para dizer-te, mas coisas que só se dizem em silêncio e que talvez compreendas, se houver afinidade entre nós.

Santo Deus! Como isto é pedantesco! Eu desejava ser simples, dizer-te ingenuamente o que sinto e o que penso. Mas sentimento e pensamento, indisciplinados, não se deixam agarrar. Vou jogar aqui o que me vier à cabeça, à toa, sem ordem.

É verdade que és minha noiva? Não é possível, sei perfeitamente que tudo isto é um sonho, que vou acordar, que ainda estamos em princípio de dezembro, que tu não tens existência real. Esta carta nunca te chegará às mãos, porque não tens mãos, és uma criatura imaginária. A flor que me deste e que agora vejo, murcha, é simplesmente um defeito dos meus nervos. Beijando-a, tenho a impressão de beijar o vácuo. Já tiveste em sonho a consciência de estar sonhando? É assim que me acho. Vem para junto de mim e acorda-me.

Causaste uma perturbação terrível no espírito dum pobre homem que nunca te fez mal nenhum. Isto com certeza te dará alegria, porque todas vocês gostam de rasgar o coração da gente. Com esses modos românticos, esse rosto de santa que desce do altar, és uma fera. Vieste chamar-me para passar quinze horas a fio cercado de saias. E quando me tens seguro: “Ora meu caro senhor, deixe-se de histórias. Tudo isso foi pilhéria, não houve nada.”

Depois, uma reviravolta, estamos noivos. Ou não estamos? Ainda será engano meu?

Amo-te com ternura, com saudade, com indignação e com ódio. Confesso-te honestamente o que sou. Se te não agradam sentimentos tão excessivos, mata-me. Mas não me mates logo: mata-me devagar, deitando veneno no que me escreveres. Provavelmente sabes fazê-lo. Não devias ser como és.

Estou a atormentar-te, meu amor. Perdoa. Se não fosses como és, eu não gostaria de ti.

És uma extraordinária quantidade de mulheres. Quando me vieste pedir não sei que para o Natal, eras uma. Depois, em um só dia, ficaste duas, muito diferentes da primeira. Desejei ver qualquer das três e levei à casa do padre um bacharel que vendia livros. Apareceu-me outra. Daí por diante o número cresceu, cresceu assustadoramente. Na sexta-feira, antevéspera de tua partida, encontrei pelo menos vinte. No sábado, em nossa casa, havia uma na sala, outra na sala de jantar, dez ou doze ao pé da janela. És multidão. Como me poderei casar com tantas mulheres? O pior é que todas me agradam, não posso escolher.

Por que não te deixaste ficar mais uma semana? Por que não ficaste definitivamente?

Tenho recebido parabéns pelo meu novo estado, há quem suponha que me casei contigo. Era o que devíamos ter feito. Tudo tão fácil! E agora? Quanto tempo é necessário esperar ainda? Conheces algum padre que me possa casar sem confissão? Não estou disposto a ajoelhar-me aos pés de ninguém. Mentira: estou disposto a ajoelhar-me aos teus pés, a adorar-te.

Tenho o pressentimento de que te arrependeste do que fizeste. Está arrependida? Se estás, sê misericordiosa, não mo digas agora.

Quando me escreveres, dize-me com singeleza o que há em teu coração… contanto que não sejam coisas desagradáveis.

Que incoerências! Que disparates! Tudo por tua causa.

Adeus, meu amor. Recomendações a d. Lili (excelente amiga) e a todos os teus. Estou muito agradecido a teu pai por ter ouvido com resignação a arenga do padre Macedo.

Beijo-te as mãos. Teu Graciliano. Palmeira, 18 de janeiro de 1928.

 

IN: RAMOS, Graciliano. Cartas. 8a. ed. Rio de Janeiro: Record, 2011, p. 117-120

Compartilhe

Posts Relacionados

5 Comentários

  1. Carla

    21 março 2013 at 11:16

    Jana,
    li alguns trechos das cartas do ‘Grace’ para Heloísa na biografia do Dênis. As passagens são absolutamente emocionantes. E como os dois se conheceram? Outra história maravilhosa. Sem falar na vida partilhada. Ontem, no simpósio, a família estava reunida. Pura comoção. Uma prova que Graciliano vive!

    Reply

  2. Neto Fragoso

    21 março 2013 at 11:29

    Nossa Memória literária tão esquecida por muitos e apreciada por tão poucos Alagoanos.

    Reply

  3. MANOEL A. DA SILVA

    21 março 2013 at 12:57

    Lê Graciliano Ramos é viajar na forma mais sublime da nossa literatura, causa uma verdadeira emoção, Quando vou a Palmeira dos Índios dificilmente deixo de visitar aquele museu e a emoção é sempre a mesma como se nunca estivesse ido lá. outra coisa encantadora é ver o homem polido com a coisa pública que foi o velho “Graça” quando a gente se debruça em um balanço anual da prefeitura feito por ele quando foi prefeito na cidade.

    Reply

  4. Adriana

    21 março 2013 at 13:38

    Que lindo!

    Reply

  5. Janayna Ávila

    21 março 2013 at 20:01

    Muitos perfis acabam “engessando” o personagem, já que é fácil classificar alguém como isso ou aquilo. A compreensão sobre alguém (que é algo complexo) parece solucionada. Assim foi com Graciliano, para sempre visto apenas como homem seco, quase sem emoção na vida pessoal. E essa carta nos faz refletir. Uma carta incrível, linda, apaixonada. Carta de amor inteligente, como tudo que o escritor produzia.

    Reply

Responder

Seu e-mail não vai ser publicado. Required fields are marked *