Música
Ouço o cantar

Ouço o cantar

Leia na íntegra a reportagem “Ouço o cantar”,  assinada pelo cantor e compositor Wado, publicada na revista Graciliano nº 17. Consulte os pontos de venda em http://graciliano.tnh1.com.br/pontos-de-venda-2/

Sem elas, a música alagoana não teria o mesmo encanto. No palco ou no estúdio, Cris Braun, Irina Costa, Ana Galganni, Wilma Araújo, Millane Hora e Fernanda Guimarães desfilam charme, talento e inteligência e contribuem para a diversidade de estilo que marca o  cenário local

A canção de Dinoel Sampaio, Vicente Matos e Arlindo Veloso (trecho acima) e que já foi interpretada por Clara Nunes e Marisa Monte pode ser boa pedida para trilha sonora desta reportagem. Vamos falar de um cardume heterogêneo de cantoras talentosas, divas sereias, alagoanas de berço ou opção, gente do mundo inteiro que por aqui aportou. Algumas delas intérpretes, outras “cantautoras”, vamos contar da experiência prazerosa de ouvi-las. Tentar deixar no papel uma história que começa pelos ouvidos.

Essas cantoras estão aqui em nosso chão, mas poderiam estar e se destacar em qualquer lugar. Sorte nossa de tê-las pertinho. Você conhece nossas vozes femininas? Separamos algumas de nossas prediletas: quantas histórias bonitas, quantos enlaces com o Brasil e o mundo, quantas abordagens completamente diferentes em suas carreiras e que prazer que exalam quando falam de música.

Quando nos debruçamos sobre a obra dessas meninas, nos deparamos com discursos claros, focos precisos e universos particulares de sonoridade e, mesmo quando não são autoras de suas canções, isso se firma e afirma. Cantoras que escolhem seus músicos com tanto critério quanto a um figurino (o que para nós homens poderia ser secundário, para elas tem um norte feminino, outra abordagem) e determinam suas escolhas nos detalhes, com mãos firmes no leme de seus barcos.

O fio condutor desta história é o prazer de cantar e a alegria que isso gera nelas, alegria que, em alguns casos, pode até curar. São cantoras de muita técnica, mesmo quando não há o estudo formal em seus currículos. Quando afinar é natural e quase orgânico, como é para essas mulheres, as preocupações podem partir para pontos mais sublimes e nessas conversas percebemos o carinho e suas buscas pessoais no ofício.

PARA OUVIR COM OS OLHOS

A seguir, você confere um perfil de seis cantoras que atuam na cena alagoana, cada uma a seu jeito.

cabecalho-cantoras-01     Nas memórias musicais de Cris Braun (foto), estão Beatles, Chopin, Gary Numan, punks, rock progressivo e muito da melhor música brasileira. “Meus pais sempre ouviram muita música. Louis Armstrong, Elis Regina, Elizeth Cardoso e orquestras”, exemplifica Cris. E salienta que hoje em dia adora música clássica e está entrando na onda do Post Rock instrumental, principalmente dos expoentes de São Paulo. Ainda sobre sua relação com a música, diz que chegava a certos delírios nirvânicos, parecidos com gozo, e também uns delírios religiosos quando ouvia certas frases melódicas e poesia.

Nos anos 80, Cris foi para o Rio com um violão que seu pai havia lhe dado e todos os seus vinis. Essa era a sua mudança mais meia dúzia de camisetas. Nesse período, fez shows malucos e ecléticos em bares da moda e na década seguinte veio a consagração com o Sex Beatles, banda cult carioca que, entre outros feitos, foi produzida por Tom Capone e Dado Villa Lobos. Cris era a cantora do grupo que tinha Alvin L. como principal compositor. “Vivi o glamour das gravadoras e também seu último suspiro”.

Cris Braun (1)

Cantora Cris Braun (Foto: Felipe Brasil)

Seu primeiro disco solo, Cuidado com Pessoas como Eu, saiu pelo selo Fullgás, que a cantora Marina Lima mantinha dentro da gravadora Universal e foi muito bem recebido pela crítica especializada. O segundo veio sete anos depois, pelo selo independente Psicotrônica, já sem o tal glamour da indústria que Cris viu ruir. Diz que foi necessário muito esforço para compreender, tratar as mágoas, as vaidades e entender que acontecer é relativo. “É uma coisa criada pela mídia, pelo ego, pela grande indústria”. Acontecer, em arte, é gerúndio, um eterno acontecendo sempre. “Carreira, música está sempre acontecendo”.

Hoje se sente feliz, tranquila, sem pressa e curada das dores. Cheia de ideias malucas na cabeça e achando que a internet e o contato direto com o público e as entidades que formam esse universo são seu caminho. “Eu sempre fui um artista doido. Nunca tive encaixe, então, a independência é vida!” reforça.

Sobre sua abordagem para gravar o que não é autoral, Cris é objetiva: “Gravo o que me emociona e dou prioridade a músicas onde eu possa imprimir meu carimbo Cris Braun. Uma canção, quando é boa, te abre muitas leituras. Quando é melódica e não rítmica a origem da composição, você, como intérprete, tem mais possibilidades. Quando é ritmo, é meio aquilo mesmo. Escolho canções”.

Gravar aqui ou fora? “Gravar aqui em Alagoas: temos músicos extraordinários, mas como somos um estado depenado pela corja, às vezes, estamos desprovidos de equipamento e fica a solidão do talento. Não temos um estúdio, que eu saiba, para finalizar, mixar, masterizar. E a única coisa da qual me ressinto nos tempos modernos, é que, com os programas de computador tornando acessível a todos suas manifestações artísticas, perdemos em acabamento, qualidade. Existe uma coisa na música, que é da física, está no som. Harmônicos, timbres e nuances se perdem na maçaroca sonora por falta de qualidade. Mas temos que fazer sempre, como for, procurar as condições legais, nunca paralisar. De resto, gravarei sempre assim, juntando as peças desta ponte aérea Maceió-Rio de Janeiro, minhas duas terras amadas”.

Na hora de gravar, a escolha: “Tudo importa na música, isso apenas se reveza de acordo com o que você quer para cada música e arranjo. Diz que existem músicas que gosta da voz enterrada, fazendo efeitos, em outras quer ser Maria Bethânia. Para ela, tudo em música é relevante”.

cabecalho-cantoras-02Wilma começou meio que no empurrão. Quem vê sua desenvoltura no palco pode não perceber, mas ela sempre foi muito tímida e seu start se deu nos festivais. Ali aconteceram as primeiras experiências como cantora, embora sofresse um pouco com o processo, por querer que as músicas que representava ficassem sempre entre as melhores. Ela foi amadurecendo a voz e ganhando espaço.

Um episódio do início de carreira que Wilma lembra com carinho ocorreu antes de completar seu primeiro mês de apresentações regulares no bar do Alípio ( já acompanhada de Marcos Assunção), num show do violonista Baden Powell.

“O Baden não admitia que ninguém fizesse abertura de show. E tinha o fato de que o banco que ele sentava estava preso no chão. Ele, na verdade, não queria que ninguém conversasse e tal. Toda atenção estava voltada para sua maravilhosa habilidade com o violão e, quando terminou o show, foi ovacionado num momento maravilhoso, inesquecível, a casa lotada”, descreve. E aí, o Alípio em pessoa, dono do estabelecimento, pediu para Wilma Araújo cantar. Foi um susto. Mas, para sua surpresa, Baden Powel pediu para sentar perto do palco e ali assistiu Wilma todo o tempo. “Ao final, pediu pra falar comigo e me disse que eu era muito afinada, que tinha uma voz suave e que seguisse em frente. Assim, isso foi um empurrão enorme e eu perdi parte da minha vergonha”.

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Tímida, a cantora Wilma Araújo começou sua vida artística nos festivais de música (Foto: Matheus Sandes)

Wilma só canta o que gosta. Mesmo não sendo um trabalho autoral, ela gosta de cantar uma ampla gama de ritmos da música brasileira: samba, choro, pé-de-serra, ciranda, frevo e outras variantes. Gosta de ouvir os sons do Brasil, dificilmente escuta música em outras línguas e acompanha a carreira e obra de cantores e compositores antigos e novos. “Quando gosto, escuto muito tempo só aquele trabalho. Lembro que, quando saiu o disco Líricas, do Zeca Baleiro, logo após o show dele, fiquei um mês escutando só ele. Sei todas as letras e a sequência. Gosto muito de ouvir o pessoal daqui também. Ouço e compro o disco”, revela.

Seu primeiro disco foi gravado em São Paulo e o segundo realizado em Maceió, com produção do maestro Almir Medeiros. “E tem uma coisa que gosto muito de dizer: é que a qualidade dele é maravilhosa. Não tem nada a dever para qualquer CD nacional que tenha sido lançado hoje e olha que ele foi feito em 2005”.

Agora está gravando o terceiro disco no Recife, com produção de Jorge Simas, que mora por lá. “Acho que hoje não tem mais essa coisa do lugar, já que o que importa é o equipamento e quem está usando-o. O resultado final desse só vou ver daqui a uns quatro meses, mas acredito muito que terei mais um lindo disco. Eu gosto muito dos outros dois”, orgulha-se Wilma.

“Na hora de gravar, importa a canção, o timbre, o arranjo, a voz…ou seja, tudo junto e mais o conjunto destes fatores. Existem vozes que são personalíssimas (como a da Fernanda Guimarães, que tem uma voz forte, afinada e canta super bem), mas a minha voz é apenas uma voz suave e afinada…como tantas vozes. O que me deixa feliz é saber que as pessoas identificam a minha voz cantando qualquer canção”.

Pra mim, é muito difícil gravar porque, como não componho, estou sempre esperando que alguém me ofereça alguma canção. E nem sempre a música que chega é a que você queria (Wilna Araújo, cantora)

Sobre repertório: “Pra mim, é muito difícil gravar porque, como não componho, estou sempre esperando que alguém me ofereça alguma canção, ou então tenho que pedir. E nem sempre a música que chega é a que você queria. Acho isso muito complicado, ainda não aprendi a lidar. Cantoras como a Bethânia ou a Maria Rita recebem sempre muitas canções de um mesmo compositor e podem escolher dentro daquele universo. Eu recebo uma e tenho que escolher, ou não, aquela, entende? Acho difícil isso.”

E onde a música faz feliz? “A música não só me faz feliz como me cura muitas vezes. Perdi as contas de quantas vezes estive mal e depois de cantar estava bem. Hoje , o que me faria mais feliz ainda, com certeza, seria viver e sobreviver da música. Poder viajar para fazer shows, ou mesmo tocar aqui, mas com uma estrutura. Poder ter um bom som, boa luz e condições para pagar bem os músicos que me acompanham (sempre fiz questão disso), porque isso faz toda a diferença. Essa parceria é que me faz feliz, saber que a música que a gente faz sustenta várias famílias. A música é alegria, é vida, cura e me faz muito feliz”.

cabecalho-cantoras-04A arte chegou de maneira natural para Ana Galganni, filha de músico e que tinha no ambiente famíliar mais dois parentes: uma avó cantora e um padrasto trompetista que ajudaram em sua formação. Hoje, ela e o irmão mais novo estão completamente imersos neste mundo. Ele é sapateador, mora em Nova York, dá aulas e dança em vários lugares. Já realizaram, inclusive, um show juntos em Maceió, no Teatro Linda Mascarenhas, em 2011.

Ana começou fazendo aulas de violão e cantando para os amigos do colégio. Seu início profissional se deu aos 16 anos, cantando em eventos diversos em São Paulo. Participou de uma companhia de teatro de rua chamada Farândola Troupe, onde cantava, tocava violão e fazia acrobacias. Foi através dessa companhia que surgiram três projetos musicais dos quais participou: a banda Expresso Monofônico, que teve um disco lançado pelo selo paulistano Baratos Afins, em 2004; o quarteto Choramba, onde cantou clássicos do samba e do choro brasileiro; e o Lambrego, projeto de músicas próprias com CD lançado de forma independente.

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Cantora Ana Galganni (Foto: Matheus Sandes)

Além disso, Galganni estudou canto popular por três anos com Silvia Maria, cantora que é grande referência em sua vida. Com ela, aprendeu muito do ofício de cantar, além de ter tido o privilégio de conhecer pessoalmente músicos de grande renome, como Arrigo Barnabé, Lilian Carmona, Conrado Paulino, Sizão Machado, entre outros. Em paralelo, começou a dar aulas de canto numa escola de música.

Alguns meses antes de vir para Maceió, a cantora teve algumas aulas de flauta transversal com Corina Meyer, do Choro das 3, até que o músico Júnior Bocão “fez como as águias fazem: jogou-me do penhasco para eu bater as asas e tocar flauta na Casa Flutuante! Fizemos um show em SP e viemos para cá”, relata Ana. Em Maceió, continuou seus estudos no instrumento com Uruba, músico e professor alagoano. Toda essa caminhada foi crucial para chegar ao que Galgani faz hoje, no Divina Supernova, grupo que tem em parceria com Júnior Bocão .

O álbum da dupla, prestes a ser lançado, foi gravado em Maceió, fato que, para Ana, não comprometeu o resultado final. “Não creio que o local de gravação seja relevante para a qualidade sonora de um trabalho”, pondera.

“Eu e Júnior Bocão gravamos todo o disco do Divina Supernova em casa e gostamos muito do resultado. Mesmo tendo divulgado poucas faixas, recebemos boas críticas de pessoas bem experientes”, adianta. Ana diz que o que importa na hora de gravar é o sentimento, porque o que você grava é o que permanece. “Os anos passam, a voz muda, tecnicamente você pode estar melhor, mas o sentimento que está impresso na voz naquele momento fica” afirma.

E é a música que a faz feliz. “Imensamente feliz”, acentua. “A música faz com que as pessoas se comuniquem sem palavras. Ela ajuda no restabelecimento de pessoas doentes. Ela faz com que pessoas se unam e se afirmem como grupo fora de seus países. Mais orgulho sinto de servir a esta deusa depois que vi de perto o respeito e a admiração que as pessoas de outros países tem pela música brasileira. É comovente”, finaliza.

cabecalho-cantoras-03Millane Hora foi se achando aos poucos. Começou na música por acaso. Não que a arte estivesse ausente na sua vida. Os sons tocavam pela casa por conta da família muito musical. Contudo, nunca pensou em ser cantora. “Na verdade, nem sabia que cantava”, confessa. Aos 13 anos, percebeu, sem se dar conta direito do que se passava. Começou a gostar da hipótese de conseguir entoar suas canções prediletas, foi curtindo a descoberta e envolveu-se mais seriamente.

Depois, veio o fascínio pelo palco. “A sensação de domínio e liberdade que ele me dava. Encantei-me com a energia que ia para quem ouvia e que vinha de lá para o palco. Ou seja, comecei me apaixonando pela magia que a música proporciona, pelo envolvimento que ela causa e pelas sensações que ela provoca”, revela. Só depois, Millane começou a buscar a sua personalidade, o seu perfil musical dentro desse universo.

Cantei forró, axé, internacional, separadamente e depois tudo junto, por muito tempo, nos bailes em Brasília (Millane Hora, cantora)

No começo, ainda menina, foi levada pelas oportunidades e pela simples vontade de cantar. Mais tarde, cantou de tudo para poder trabalhar. “Cantei forró, axé, internacional, separadamente e depois tudo junto, por muito tempo, nos bailes em Brasília”, onde morou por quatro anos. Foi uma experiência que lhe deu base para as investidas seguintes.

Participou também de alguns programas de TV, o que lhe rendeu uma certa popularidade. O melhor presente que ficou desta época foi a amizade com Roger Henri, produtor musical, que a dirigiu no Fama, programa que foi ao ar pela TV Globo.

Alagoas

O tempo passou e Millane viveu outras experências. De volta a Maceió, começou a trilhar um novo caminho, com mais foco. Mesmo diante da necessidade de trabalhar e por muitas vezes tendo que abrir mão do que desejava ser para fazer o que precisava, sempre separou metade de si para si. Sabia que essa metade era o que tomaria conta de seu ser e hoje está inteira entregue à sua música. Foi o momento em que diz ter se descoberto cantora.

Em 2012, junto ao amigo fiel Roger Henri, lançou o CD Vent Vert e, aos poucos, vem formando seu público. “Cada show é uma vitória, são caras novas, novas vozes e uma vontade incontrolável de chegar ao próximo show para cantar novamente e esse processo não para”.

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Cantora Millane Hora (Foto: Matheus Sandes)

Viver por quase duas horas histórias cantadas em quatro minutos, mais ou menos, por vez, é um privilégio para poucos e Millane se diz uma dessas felizardas. “Esses momentos vividos no palco são absolutos, completos, anestesiantes e o que me motiva é poder dividir e multiplicar essa energia com quem está me contagiando: o público. Uma simbiose rica e fatalmente viciante”, conta Millane.

Para ela, a música como escolha profissional traz todos os prós e contras que qualquer profissão leva consigo. A instabilidade que o músico tem é inegável, como também é inegável o prazer de trabalhar. Millane ainda não teve o prazer de viver sua música efetivamente fora daqui, mas este é seu objetivo. “Como todo profissional, eu desejo o sucesso de meu trabalho. Serei feliz onde quer que eu esteja fazendo música, conto e torço muito que seja em todo canto do Brasil”.

cabecalho-cantoras-05Os primeiros anos de Irina na música, de um total de 11 no ofício, foram dedicados ao fado – estilo musical que lhe trouxe aos palcos. Por sua origem e por tocar a alma das pessoas. E, mais ainda, revelaram uma Irina que, mesmo sendo uma portuguesa que nasceu em Angola, em 1975, fez de Alagoas não um lugar de passagem, mas um chão sem regresso. E, como costuma dizer, “hoje sou alagolana com muito orgulho”. Por isso, canta, também, a música feita em Alagoas.

Se lhe perguntassem isso há algum tempo, não exitaria em dizer: cantar o fado e a alma portuguesa. Porque é parte de uma história que, apesar de ser parte de seu espírito, ela não a viveu. E há coisas que não se explicam. Só se sente.

Hoje, diz que gosta de cantar o que vem na alma. Se encanta… ela canta. E já cantou os alagoanos Júnior Almeida, Wado, Mácleim, Sóstenes Lima, Naldinho, Gustavo Gomes e Júlio Uçá. O fato confirma o que sempre disse: Alagoas representa grande parte de sua trajetória. “Tenho orgulho da produção dos nossos artistas. E muito bons artistas, por sinal. As coisas têm mudado aos poucos. O povo alagoano já sabe o que tem e sabe apreciar e valorizar o que é seu”, argumenta.

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Cantora Irina Costa (Foto: Matheus Sandes)

Na ponte aérea com Portugal, representou o Brasil e Alagoas duas vezes, no Festival Lusavox, realizado pela RTPi (Rádio e Televisão Portuguesa) e Ministério dos Negócios Estrangeiros. O evento foi transmitido para mais de 141 países. Irina venceu a segunda edição e foi escolhida pelo público com a música O Cravo e a Rosa, do cantor e compositor alagoano Sóstenes Lima. “Cantar é minha grande paixão, a minha entrega. Por isso, gosto de ouvir de tudo um pouco. Não fico adstrita a registros. Se me toca de alguma forma, ouço e vou querer cantar”.

Irina ainda não gravou um CD. Há várias gravações isoladas, mas não estão compiladas em um disco. “Mas posso te relatar a experiência em gravar num estúdio em Lisboa, no estúdio do Diogo Poças, e de estar no Estúdio do Pedro Abrunhosa, na cidade do Porto”. Para Irina, “há, claro, diferenças e uma gama maior de recursos… Mas o que fará a diferença é fator humano. Os profissionais que te cercam e alma e identidade que se imprimem num trabalho. Isso vai para qualquer lado. Não importa onde se vá”.

cabecalho-cantoras-06Fernanda começou cedo tocando em banda, desde os 12, na escola, movida pelo que a música sempre lhe deu: satisfação. E o restante veio muito naturalmente: as bandas, as viagens para tocar, estar em contato com vários estilos e músicos diversos, até porque, diz, sempre curtiu o desafio de interpretar de tudo.

A sensação é que Fernanda não foi atrás, tudo veio naturalmente. E descobriu fácil o que queria da vida, por mais que tenha até tentado enveredar para outra área. A música foi sempre o seu norte. Hoje, ainda é assim. “Outra coisa que me move é a importância de se colocar nas coisas. Ninguém precisa inventar a roda, mas existem infinitas possibilidades em cada um e acho que expor isso é a grande sacada. Verdade nas coisas é o melhor que se pode dar. Imprimi-la no trabalho é o fator motivador”, comenta. E foi com esse raciocínio que Fernanda pensou em seu segundo disco, ( o primeiro foi Verbo Livre) projeto ou show que vier a fazer. “Acho que os 30 anos – que não são nada, mas são muita coisa – chegaram pra que eu me desse conta mais ainda disso”, constata.

Garimpos

Ela gosta de ouvir o que emociona, mas também o que dá vontade de mexer o esqueleto e ouvir arranjos inesperados, mas também admite que bom é quando isso tudo vem com uma linha melódica que dê vontade de cantar alto e coisas que instigam a reflexão, que fazem pensar.

Adora ouvir coisas novas, artistas novos, mas as referências na hora de criar sempre são as dos artistas que nunca deixam de estar na playlist, aqueles que nunca deixam de ser atuais. Dando exemplos do que curte, o rock sempre foi algo que cantou mais do que ouviu. “Mas nunca saem da vitrola o rock de Seattle (grunge), coisa bem marcante dos anos 90, como Pearl Jam, Temple Of The Dog, Alice In Chains, bem como outros estilos de rock, Metallica, Eric Clapton, Led Zepellin, Coldplay…”.

Grande conhecedora e pesquisadora, essa menina tem no carro de A a Z e no mp3 muita música brasileira, que inclui essa infinitude de ritmos e artistas maravilhosos – Criolo, Caetano, Gil, Djavan, Cris Braun, Mácleim, Júnior Almeida, Coisa Linda Sound System, Sonic Junior, Krystal, Pato Fu, Fernando Melo, Léo Cavalcanti, Renata Rosa, Mariana Aydar, Luisa Maita, Rodrigo Campos e Manu Santos. Além da francesa Zaz, da cabo-verdiana Mayra Andrade, das norte-americanas Tori Amos e Esperanza Spalding e também de Jamiroquai, Dave Mathews Band, Adelle, Amy Winehouse e a banda espanhola Buika.

Ninguém precisa inventar a roda, mas existem infinitas possibilidades em cada um e acho que expor isso é a grande sacada (Fernanda Guimarães)

Embora tenha apenas um disco, a experiência em estúdio a instigou a encontrar coisas inéditas e interessantes para inserir na gravação. “Como eu estava vivendo no Rio de Janeiro, acabei encontrando em alguns compositores cariocas essa fórmula de música e letra bem feitas, dentro da proposta que queria”. Nesse mesmo pensamento, gravou clássicos que adora, que ouve bastante, e isso traz uma carga de pessoalidade ao trabalho.

No álbum Verbo Livre, lançado em 2010, há a participação de alagoanos, como Félix Baigon, Fernando Nunes, Magno Vito e o Norberto Vinhas, que morou por alguns anos em Alagoas. O projeto gráfico tem assinatura de Flávia Correia. “Quando a gente está em casa, acho que as coisas fluem mais naturalmente. É lugar comum, rola mais intimidade com as pessoas, com o lugar e das poucas experiências que tive gravando aqui, percebi uma sintonia maior. Eu um pouco mais à vontade”, confessa. “Em contrapartida, o lance de criar acontece em qualquer lugar e, quando você tem a oportunidade de experimentar isso fora, também é muito bom, porque as coisas se constroem numa nova forma de trabalho, novas referências. Até a pegada dos músicos é diferente devido à escola de cada um”.

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Cantora Fernanda Guimarães (Foto Matheus Sandes)

Falando do papel da cantora, após todos os instrumentos gravados e já de frente para o microfone no estúdio, “acho que o importante é a entrega na hora da interpretação e isso para mim é estar bem da garganta, bem da alma. Se não estiver, toma um vinho, relaxa e joga isso no canto. Estar integrada com a harmonia e melodia da música. Põe o volume ideal no fone de ouvido, e foi!” revela.

Fernanda diz que a música é primordial em sua vida. É um diferencial em sua formação humana, numa relação que se estabelece de diversas maneiras. “Por ser impossível imaginar meu dia-a-dia sem estar ligada a ela, é bem difícil pensar na música de uma maneira apenas lúdica”, avalia. “Pensando profissionalmente, há muitos altos e baixos, as insatisfações, a falta de reconhecimento de um projeto interessante, um desgaste por fazer ‘noite’, de ser difícil dar continuidade a shows autorais em Maceió, principalmente os mais intimistas, enfim… Questões e questões. Mas tem o lado bom e esse se sobrepõe quase sempre ao lado ruim. Então isso é o quê? Uma forma de felicidade”, considera.

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