Gastronomia
Cachaça made in Alagoas

Cachaça made in Alagoas

Desde 1994, a partir da lei n° 8.918, a cachaça tornou-se uma bebida oficialmente brasileira. O decreto, assinado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, determinava que o destilado deveria ser produzido no Brasil e possuir teor alcoólico entre 38 a 48%.

A preocupação era registrar essa bebida tipicamente brasileira que surgiu no País em 1532, com a chegada das primeiras mudas de cana-de-açúcar. Hoje, além da produção industrial da bebida, a maneira de se produzir cachaça artesanalmente vem ganhando espaço e conquistando o gosto de brasileiros e estrangeiros.

Foi por isso que, no início de 2012, foi decretado nos Estados Unidos uma lei reconhecendo  a cachaça como bebida exclusiva do Brasil. Antes os rótulos das cachaças brasileiras recebiam a descrição “Brazilian Rum” (rum brasileiro). Bebida notadamente vinculada ao estado de Minas Gerais, a cachaça tem sido produzida nos mais diversos estados do Brasil, inclusive em Alagoas.

Segundos dados da Associação dos Produtores de Cachaça de Alambique e outros Derivados da Cana-de-açúcar de Alagoas (Aprocal), existem, regulamentadas pelo Ministério da Agricultura, seis diferentes cachaças produzidas artesanalmente no estado.

A cachaça artesanal alagoana Gogó da Ema é encontrada em três sabores: tradiconal (armazenada em barris de bálsamo), mix (armazenada em jequitibá) e a nox (armazenada em inox)

É o caso, por exemplo, da cachaça artesanal Gogó da Ema, cujo alambique se localiza no município de São Sebastião. Em 2004, o engenheiro civil Valdir Tenório decidiu produzir o destilado da cana. Para isso, contou com a ajuda do filho, Henrique Ferreira, que hoje está à frente dos negócios. Em 2006, Henrique abriu uma loja para vender cachaças, a Adega do Farol, que possui em seu catálogo mais de 180 rótulos. Todos de cachaça.

Para aprender o manejo dos materiais, os dois assistiram a aulas em Minas Gerais. Hoje, a Gogó da Ema pode ser encontrada em três tipos: a tradicional (armazenada em barris de bálsamo), a mix (  armazenada em jequitibá) e a nox (armazenada em inox).

A convivência com a venda do destilado e o estudo constante sobre seu processo de produção deu a Henrique um olhar apurado quando o assunto é testar a qualidade da cachaça. “Se a cachaça estiver turva, significa que a filtragem não foi eficiente”, explica Henrique. “Ao chacoalhar uma garrafa,  a  cachaça produz pequenas bolhas que devem desaparecer entre 12 e 15 segundos”.

O teste de qualidade vai além do visual. “Se a bebida descer rasgando na garganta ou deixar um cheiro de álcool na boca, significa que essa cachaça não é boa”, explica Henrique. “Se, ao cheirar a bebida, você sentir queimação nos olhos ou no nariz, significa que ela foi produzida de maneira errada”.

O convívio com a venda de cachaça e o estudo deu a Henrique Ferreira um olhar apurado no momento de testar a qualidade da bebida. “Se a bebida descer rasgando na garganta ou deixar um cheiro de álcool na boca, significa que essa cachaça não é boa”, explica (Fotos: Lucas Almeida)

O preconceito criado a partir da imagem estereotipada do cachaceiro, segundo Henrique,  prejudica o comércio em Alagoas. “Em Minas Gerais, a cachaça é uma bebida fina. Tanto é que 90% da produção são consumidas no próprio estado”, diz. O próprio perfil do consumidor tem mudado. “O consumidor de cachaça geralmente tem mais de 30 anos”, conta Henrique. “Mas o mercado tem acrescentado sabor aos destilados para atingir o público mais jovem, o pessoal que gosta de balada, por exemplo”.

Já a cachaça Brejo dos Bois apostou no segmento da cachaça orgânica para encontrar um nicho de mercado. Produzido em um processo que não envolve agrotóxicos, nem mesmo na extinção de pragas da cana-de-açúcar, a cachaça orgânica Brejo dos Bois é a única no estado. No País, apenas 12 carregam essa informação em seus rótulos. Criada em 2006 pelos irmãos Lenildo Amorim e Mário Sérgio Amorim, a Brejo dos Bois hoje é comercializada em três sabores diferentes: a tradicional, a de carvalho e a com mel. “Estamos planejando criar bebidas com misturas de camomila e erva cidreira”, diz Mário, que enviou técnicos agrícolas para Minas Gerais a fim de aprender como produzir aguardente de cana de maneira artesanal. “Passamos dois anos errando no ponto da cachaça”, diz. Hoje, afirma que esse perigo está longe das cercas de seu alambique. “O legal em se produzir cachaça é que, mesmo você envelhecendo a aguardente em barris da mesma madeira, é impossível que o gosto seja o mesmo, porque o processo depende ainda do solo, das chuvas, do terreno”, conta Mário. 

Lançada no mercado em 2006, a Brejo dos Bois é a única cachaça orgânica do estado (Foto: Lucas Almeida)

Lançada no mercado em 2006, a Brejo dos Bois é a única cachaça orgânica do estado   (Foto: Lucas Almeida)

Localizada no povoado Chã do Meio, na zona rural de Junqueiro, a fazenda que abriga o alambique possui sua própria plantação de cana-de-açúcar e equipamentos de moagem, destilação e armazenamento da bebida. Depois que a cana-de-açúcar passa por esses processos, ela é armazenada em barris de inox durante 6 meses. Esse é o processo de produção da cachaça tradicional. Depois desse período, as cachaças com sabor passam mais um tempo, que geralmente varia entre 6 meses a dois anos, em barris de diferentes madeiras. 

Mapa da cachaça

Apesar de a cachaça industrial ser a mais consumida no País,  a artesanal vem ganhando os paladares de cada vez mais brasileiros, inclusive dos jovens, como é caso de Felipe Januzzi e Gabriela Barreto. Os dois se conheceram no curso de cinema da Universidade de São Carlos e resolveram montar um site colaborativo para catalogar os alambiques brasileiros. Criaram o site Mapa da Cachaça, que já possui em seu acervo mais de 500 rótulos cadastrados.”Nosso objetivo principal com o sistema colaborativo era registrar as histórias dos alambiques”, diz Januzzi. “Saber quando e onde os alambiques surgiram, quem os criou, quais as curiosidades e características da região que os produz, produção, detalhes históricos da região, características geográficas”.

O setor espera aumentar a exportação  da cachaça brasileira para a Europa e para os Estados Unidos em 10% só este ano. Para Januzzi, a identidade da cachaça como produto exclusivamente do Brasil é um dos fatores que explicam esse fenômeno. “A cachaça é peculiar, única e exótica. Isso é curioso para um mercado buscando novidades. Quando produzida adequadamente, a cachaça é um produto de muita qualidade e muito diferente de qualquer outro destilado, até mesmo do rum caribenho que é também um destilado de cana-de-açúcar”, conta Januzzi.” A cachaça é um destilado com uma enorme variedade de madeiras para envelhecimento, são mais de 20. Entra elas as nativas amburana, balsamo, jequitibá, ariribá, pau-brasil. Cada madeira dá um aroma e gosto diferenciado para a bebida, tornando-a muito complexa”.

A própria peculiaridade cultural torna a bebida ainda mais interessante. “É possível contar a história da cachaça fazendo paralelos muito interessantes com a história do Brasil. Como, por exemplo, a popularização dos alambiques ao longo da Estrada Real”, explica Januzzi.

Adega do Farol

 Localizado na rua Comendador Francisco Amorim Leão, a Adega do Farol é um recanto para apreciadores de cachaça em Maceió. São mais de 180 rótulos de cachaça vindos dos mais diversos estados brasileiros, inclusive Minas Gerais e São Paulo, notadamente dois dos principais centros de produção no país.

Localizada na rua Comendador Francisco Amorim Leão, a Adega do Farol possui em seu catálogo mais de 180 rótulos de cachaça (Foto: Lucas Almeida)

A adega funciona desde 2006 e possui, além de cachaça, estantes com vinhos e whisky.  Lá é possível encontrar também as mais populares cachaças artesanais alagoanas. Entre as cachaças podem ser encontradas as premiadas Weber Haus e as alagoanas Brejo dos Bois, Gogó da Ema, Gameleira, Engenho Nunes e outras.

SAIBA MAIS

Site
www.mapadacachaça.com.br
www.cachacasaprocal.com.br

Livro
Cachaça
Autor: Araquém Alcântara
Editora: Terra Brasil
Páginas: 156

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Um Comentário

  1. Absair inacio ferreira

    13 maio 2014 at 14:34

    Sou pequeno colecionador de. Cachaças de alambique,tenho interesse em saber mais sobre elas e aonde adquirilas porque moro um pouco distante.daí.

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