Literatura
Jorge Calheiros: o poeta dos cordéis

Jorge Calheiros: o poeta dos cordéis

Em matéria de falar, o mestre cordelista Jorge Calheiros é imbatível. E o impacto da sua presença é ainda maior, especialmente quando ele garante que, apesar dos seus 70 e poucos anos de idade, sabe de cor as mais de 200 estrofes das 96 edições de cordéis de sua autoria. Com um repertório tão vasto, é compreensível que seja tomado pelo desejo de compartilhar tais histórias.

Homem de riso fácil e de palavras na ponta da língua, Jorge faz questão de resgatar o seu passado, lembrando a infância pobre que não lhe permitiu frequentar a escola. “Meu filho, o dinheiro não dá. Você ou come ou estuda. Das duas uma”, conta ele, rindo, ao repetir o argumento de seu pai. Embora as dificuldades tentassem estancar a sua vocação, seu talento se sobressaiu.

Ainda garoto, por volta dos 10 anos, ajudava ao seu pai e aos três irmãos a catar madeira no meio da mata para fazer carvão, depois vendido no comércio de Pilar. A lenha recolhida por eles era o único meio de sustento da família. Dos oitos filhos, apenas Zilda, a irmã mais velha, teve a oportunidade de estudar. Ela assumiu o compromisso de repassar tudo o que aprendia aos irmãos.

Cansados, depois de um dia de trabalho, nem todos tinham o mesmo ânimo para aprender a ler e a escrever. Jorginho era a exceção. O caçula aguardava ansioso, toda a noite, as aulas particulares com Zilda. “O meu lápis era uma pedra de carvão e o terreiro de barro era o caderno. Foi assim que eu aprendi a fazer o meu nome e o mundo acabou de me ensinar o jeito de viver”, rememora.

Foi naquela época em que teve o primeiro contato com a literatura de cordel. Ao redor de uma fogueira, à noite, os meninos se reuniam para assistir, fascinados, contações de histórias. “Ficávamos todos atentos, escutando e dando risada. Às vezes, quando a história era grande, passava-se até uma semana lendo um só livreto. Todos curiosos para saber o que ia acontecer no final”, conta. Foi daí que surgiu o seu interesse por esse gênero literário, e, após algumas tentativas, foi percebendo a facilidade que possuía para escrevê-lo. “O que não é nada fácil”, pontua.

Quando o talento se sobressai
Com familiaridade crescente com a literatura oral, era natural que Jorge acabasse tendo vontade de desenvolver sua própria produção poética. No entanto, a urgência de ter seu ganha pão o obrigou a abdicar do seu talento. Aos 11 anos, trabalhou, com carteira assinada, na construção do Edifício Brêda. “Juntava os pregos, pois não podia fazer outra coisa”. Aos 12, foi empregado de uma fábrica de tecidos em Fernão Velho.

Em busca de melhores condições de vida, o mestre cordelista tornou-se um “andarilho”. Trabalhou em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Sobre esse período, ressalta com orgulho o fato de ter sido considerado um dos melhores marceneiros de Maceió. Mas com o peso da idade chegando, o seu corpo já não dava mais conta de certas atividades. “Foi quando não deu mais, nem pra vigia. Ninguém queria mais fichar um cabra de 60, 65 anos.”

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Jorge Calheiros no Museu Théo Brandão. Local reserva um espaço para a venda de seus cordéis (Foto: Francisco Ribeiro)

Mesmo que tivesse exercido ofícios que o afastava da sua derradeira paixão, Jorge nunca deixou de produzir os seus folhetos de cordel. Duvidando da qualidade do material e com receio de cometer gafes, caso os apresentasse em público, Jorge guardava seus escritos para si mesmo. Foi assim até que, numa dessas suas andanças pelo País, fez amizade com um cordelista que iria se apresentar durante um festival de poesia em Aracaju.

“Conversando com ele comentei que achava bonito o cordel, tinha alguns já escritos, mas não possuía coragem de subir no palco. Ele me disse: ‘Se você nunca arriscar, não saberá se tem alguma coisa que preste’. Pedi para que ele conseguisse um espaço pra mim na programação. E lá mesmo me apresentei pela primeira vez. Tremendo, eu subi e recitei. O povo me aplaudiu e foi muito bom”, recorda.

Daquele dia em diante, Jorge deixou de lado a sua insegurança e começou a divulgar o seu trabalho entre amigos e conhecidos. “As pessoas liam e gostavam dos meus cordéis. Aí eu pensei: Não vou mais procurar outra coisa, e já que trabalhar não vai dar mais, vou continuar escrevendo”, conta. Hoje, ele contabiliza cerca de 100 edições dos livretos. Entre os mais conhecidos, estão Maloqueiro Zé Catacra, Conselho de um Velho Pai, O Pobre e a Medicina e Brigas de Amor.

Mas o reconhecimento do seu trabalho, ressalta o artista, veio aos poucos. O cordel O encontro de Tancredo com seu Pedro lá no Céu foi contemplado na categoria melhor crítica política, num prêmio concedido pelo Estado de Minas Gerais. O livro trata da ditadura militar e tece uma crítica sobre esse regime político. Sempre modesto, comenta: “Não sei se eu tenho capacidade de escrever uma história como aquela novamente, ficou muito boa.”

Pelo conjunto do seu trabalho e pelo papel que desempenha na preservação da cultura oral nordestina, através dos seus cordéis, Jorge Calheiros foi agraciado em 2011 pelo Registro de Patrimônio Vivo de Alagoas (RPV/AL). E em 2010, a história do Matuto Zé Cará foi adaptada para o cinema, no curta-metragem alagoano narrado pelo próprio cordelista e ilustrado em forma de animações criadas pelo artista plástico Weber Bagetti.

O cotidiano como inspiração
Gênero literário popular, também conhecido no Brasil como folheto, os cordéis são frequentemente escritos em rimas e possuem forte vínculo com a oralidade. Ao contrário do que se acredita, a construção narrativa dessas histórias vai além da aparente simplicidade dos seus versos. Conforme explica Jorge Calheiros, o bom cordel deve seguir uma métrica, como a sextilha, martelo galopado, martelo 30 por 100 entre outras.

“A música sertaneja, por exemplo, é uma espécie de cordel. Se não tiver na sextilha, que é a métrica, jamais existiria a música sertaneja. Os folhetos têm a obrigação de serem recitados em dez ritmos diferentes. Se tiver uma letra a mais ou a menos, não será possível cantá-lo em ritmo de toada, um xote, embolada. O cordel só canta se tiver correto. Por isso, reviso umas 20 vezes os meus textos para que não fiquem fora da métrica”, conta ele, revelando sua fórmula.

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Os cordéis são frequentemente escritos em rimas e possuem forte vínculo com a oralidade (Imagem: Divulgação)

A inspiração para os causos narrados em seus livros surgem dos fatos que presencia no cotidiano. Como forma de não esquecer o que lhe chama atenção, costuma anotar tudo num caderninho sempre à mãos. “Certa vez, numa brincadeira, criei a história Mulher Feia, dedicada à minha esposa”, conta. Na primeira estrofe do folheto, lê-se:

Me chamo Jorge Calheiros poeta do Clima Bom
Na casa 49, encostada a Mãe do John
Mais feio do que Chico Lopez cantando fora do tom
Minha mulher mais feia na boca só tem um dente
Já nasceu com um peito só parecendo uma serpente
O satanás veio pegou ela e me devolveu novamente

Não à toa, sua mulher não levou a brincadeira na esportiva, rendendo-lhe alguns “aborrecimentos”.

Paixão
Pai de oito filhos, o mestre cordelista confessa que gostaria de que algum deles se interessassem em produzir literatura de cordel. E ainda que não demonstrem tal inclinação, sente-se orgulhoso por tê-los dado a oportunidade de concluir os estudos. “Tenho filho professor, administrador, enfermeiro etc. Graças a Deus eles puderam frequentar a escola”, diz.

Com o intuito de preservar a tradição da cultura oral, Jorge corre atrás de parcerias para desenvolver um projeto social, cujo propósito seria ensinar a crianças de rua a escrever e recitar cordéis. Ele também busca patrocínio para publicar três novas coletâneas de sua autoria. “Desejo imprimir esse material, mas não consigo por conta própria, porque o dinheiro é pouco. Mas estou batalhando”, afirma, sem aparentar desmotivar-se.

Jorge só fica incomodado com a falta de espaço exclusivo para a divulgação da cultura popular alagoana. “Eu tive sorte do povo ter me acolhido. Eu agradeço muito por isso. Mas os órgãos oficiais têm que divulgar mais. Eu vejo eventos que tem tanta coisa e não aparece um poeta, um cordelista”, observa. Mas o pior mesmo, disse o poeta, é quando alguém não dá valor aos seus versos.

Antes da entrevista ser finalizada, ele fez questão de ressaltar aquela que é uma de suas maiores paixões: Pilar, cidade situada 34km de Maceió. “Em Pilar em vivi poucos anos e, ao mesmo tempo, vivi a minha vida inteira. Veja bem, eu nunca passei um ano sem deixar de visitá-la. Lá foi a terra em que eu me criei, pobrezinho no tempo, muito pobrezinho. Sou tão apaixonado que, em homenagem à cidade, fiz um verso que diz: “Tenho orgulho 1º de ser brasileiro / 2º ser pilarense / 3º ser um guerreiro / 4º lugar ser poeta / E 5º ser Jorge Calheiros”, declamou.

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5 Comentários

  1. lucilo

    23 maio 2013 at 11:46

    continue seu jorge sou seu fã

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  2. Clarissa Veiga

    23 maio 2013 at 17:58

    Matéria ótima Francisco Ribeiro. Parabéns!
    Seu Jorge é figuraça que pode ser vista por diversos enquadramentos. Vale a pena descobrir seu lado mago. Verdade! Ele também desenvolve brinquedos cheios de truques e malandragens. Sou testemunha e aprendiz.

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    • Francisco Ribeiro

      23 maio 2013 at 23:22

      Obrigado, Clarice.
      Jorge Calheiros é realmente um homem de múltiplos talentos.
      Abraço.

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  3. Paula Calheiros

    23 maio 2013 at 18:21

    Parabéns Tio Jorge, você é um vencedor. Torço pelo seu sucesso.

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  4. Beatriz Vilela

    3 junho 2013 at 0:10

    Pessoas como o seu Jorge são um exemplo de força da cultura alagoana que precisa ser enaltecida!

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