Artes Visuais
Mãos sem tinta

Mãos sem tinta

Herbert Loureiro não imaginava que sua habilidade para o desenho um dia pudesse se tornar um trabalho. Formado em jornalismo e com alguns anos de experiência como designer na agência de publicidade Alba, Herbert hoje  possui ilustrações espalhadas por todo o país. Ele é um dos tantos, conhecidos ou não, ilustradores que nasceram em Alagoas e fazem do desenho seu ofício.

O talento de Herbert foi descoberto por acaso. Durante uma aula de redação, o professor e escritor Tainan Costa encantou-se com o traço do garoto e convidou Herbert para ilustrar o livro Açougue. Foi o primeiro trabalho profissional do artista. Essa não foi, no entanto, sua única incursão como ilustrador de livros. Em 2010, ainda no estúdio Alba, ilustrou o livro infantil Upiara, de Eliana Maria. Três anos depois seus desenhos foram parar nas páginas do livro Embolados, de Nivaldo Vasconcelos. Apesar do trabalho com ilustração, Herbert não largou o design. “Ainda não consigo viver de ilustração por aqui”, diz. A falta de trabalhos na área é uma das explicações. Mas eles aparecem. Em 2012, assinou a capa da revista cultural Graciliano e  expôs seus desenhos na Pinacoteca Universitária da Ufal. Com o título Caravana, não perca a bandeira, Herbert usou seu habitual traço para representar personagens do folclore brasileiro.

Estampas em nanquim e aquarela desenhadas por Herbert para a coleção inverno 2013 do estilista Danilo Costa. O artista buscou referências na cultura Amish para elaborar os desenhos

Até os quinze anos, seus desenhos eram totalmente produzidos por programas de manipulação vetorial em seu computador. Hoje o primeiro passo da ilustração é o desenho em papel com caneta nanquim que é digitalizado. Só depois Herbert pinta com a ajuda de seu computador. O apreço pelo traço torno dá aos seus desenhos um estilo próprio, facilmente reconhecível.

O seu site transformou-se no chamariz para novos trabalhos, a maioria deles fora de Alagoas. “As pessoas conhecem o site, gostam dos desenhos e me contratam”, conta. “É engraçado porque muitos deles, quando se referem a mim, destacam o fato de seu ser de Alagoas. Talvez eles achem isso exótico, interessante, chamativo”. Sua fissura por moda deu ao artista um novo filão, estampas para camisetas. Desenhou para a coleção de inverno 2013 do estilista Danilo Costa e para a coleção verão 2014 da Der Metropol, ambas com desfiles na Casa dos Criadores.

Ilustrado por Herbert, poster para o show da musa tropical Gaby Amarantos no Cine Joia em São Paulo

Embora já possua um trabalho conhecido e consolidado em Alagoas, Herbert sente a falta de outros ilustradores no estado para trocar experiências. “É super difícil ter uma interação com os artistas daqui”, diz Herbert. “Como não têm cursos de arte, muitas pessoas que gostam de desenhar não sabem que isso pode ser um trabalho”. Herbert ressente-se também da ausência de uma crítica sincera, seja na imprensa, seja entre os amigos. “Queria que houvesse espaço para discutir meu trabalho e o trabalho de outras pessoas”, conta.

Ao contrário de Herbert, o editor de arte Thiago Oliveira se utilizava da ilustração durante seus trabalhos como publicitário. “Na publicidade, dificilmente o cara será apenas ilustrador. O desenho entra em nossa vida como complemento de um trabalho”, explica Thiago. Ele começou também na infância ao decalcar desenhos de super-heróis. “Nunca fui de devorar quadrinhos. As histórias eram idiotas. Gostava da complexidade do desenho”, lembra.

Ilustração de Bumba meu boi feita por Thiago Oli

Ilustração de Bumba meu boi feita por Thiago Oli

Sabedor da ausência de cursos de aperfeiçoamento em ilustração, Thiago recorreu à internet para melhorar seu desenho, além de aprender a manipular os principais softwares que o ajudam até hoje. Com isso, aos 17 anos, venceu um concurso de quadrinhos e foi convidado a integrar a Napalm Comics, coletivo cujo objetivo era a produção HQs. O projeto não deu muito certo e Thiago resolveu entrar no mundo acadêmico. Cursou Administração, Publicidade e, finalmente, Jornalismo. Abandonou os dois primeiros. Estagiou em uma agência de publicidade até conseguir a vaga de editor de arte na Núcleo Zero. Foi aí que testou para valer suas habilidades com a ilustração. Utilizou-se dos desenhos para compor cartazes, capas de livros, camisetas. 

Desenho de Thiago Oliveria para o livro Pelos engenhos, de Rosival Lourenço

Assim como Thiago, o artista visual Pedro Lucena desenvolveu seu potencial como desenhista desde a infância. As ilustrações de Gustave Doré em A Divina Comédia, livro que Pedro leu, mesmo com a fissura pelos desenhos. Ainda na escola, o talento o ajudava na relação com os colegas. “Como eu sabia desenhar mais do que a média, sempre me pediam para que eu desenhasse as capas dos trabalhos escolares”, relembra Pedro. “As professoras diziam que os trabalhos nem eram muito bons, mas as capas eram lindas”.

Quadro de Pedro Lucena apresentado na exposição Ciscos

A decisão de focar parte de seu trabalho na ilustração aflorou apenas em 2006. “Passei dois meses no Amazonas e conheci um cara que, mesmo sem me conhecer, pediu que eu desenhasse para ele. A partir daquele momento, percebi que tinha algum talento”, conta Pedro. Mas ele tinha em mente que, para ser reconhecido em Maceió, era preciso ter trabalhos reconhecidos fora do estado, pensamento que ele resume assim: “Eu só podia entrar, se eu saísse”. Suas ilustrações circularam pelo Rio de Janeiro e seu portfólio foi publicado em uma revista digital na Austrália.

Ilustrações para matéria Na calada do cérebro da revista Saúde é vital (Fev/2009) da Editora Abril

Foi a partir desse tour pelo sudeste do país que Pedro conseguiu “entrar” em Alagoas. Em 2008, apresentou a exposição individual Ars Liberat, na galeria do Sesc, em Maceió. E, em janeiro desse ano, Pedro tomou como referência a obra poética de Manoel de Barros e a arte dos artesãos da Ilha do Ferro para levar a exposição Ciscos até a Pinacoteca Universitária da Ufal.

Exposição individual Ars Liberat apresentada na galeria do Sesc em Maceió, Alagoas, em 2008

Apesar da aparente estagnação no mercado da ilustração, Pedro faz ressalvas. “Precisamos dar a mão à palmatória. O cenário tem melhorado”, explica. Ele cita o exemplo de Ciscos. Setenta por cento das obras foram vendidas antes de a exposição ser aberta. Os preços, dados pelo próprio Pedro, variavam entre 2 e 4 mil reais. A internet tem ajudado no fomento desse cenário. “Existem grupos no facebook, como o eu rascunho, que reúnem pessoas que gostam de ilustrar. O pessoal está organizado e tem muita gente talentosa por aí”, conta Pedro.

Para Pedro, embora haja esse movimento entre ilustradores, falta em Maceió um espaço acadêmico voltado para a ilustração. “A academia é importante porque orienta as pessoas. Caso contrário, o artista produz seu trabalho sem um olhar crítico, o que nos enfraquece”, aponta.

Ilustração do livro infantil O diário de Dandara, de Cláudia Lins

Cartazes, revistas, capas de CD. Tudo isso já foi alvo de sua caneta de nanquim. Mas seu trabalho ganha ainda mais destaque na ilustração de livros, principalmente das obras infantis dos amigos Tiago Amaral, Cláudia Lins e Simone Cavalcante. A pedido deles, ilustrou os livros: O diário de Dandara (Cláudia Lins), Os segredos da mata (Tiago Amaral, Cláudia Lins e Simone Cavalcante), Filho de peixe, peixinho não é (Tiago Amaral) entre outros. Recentemente o traço de Pedro Lucena foi parar nas páginas do livro A bulha galinácea e os escritos galiformes, de Tainan Costa Canário. “O desenho que acompanha uma história precisa trazer uma nova leitura da própria história. A ilustração não deve ser ipsi literis o que conta o texto”, explica. “As ilustrações precisam contar uma nova história, a partir das interpretações do desenhista. E é o leitor quem deve se perguntar por que o cara fez aquilo”.

Saiba mais

Thiago Oliveira (http://thiagooli.com/)
Herbert Loureiro (http://herbertloureiro.com/)
Pedro Lucena (http://cargocollective.com/pedrolucena)

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Um Comentário

  1. mdf

    4 julho 2013 at 12:50

    Que lindo seu espaço,ótima idéia 🙂
    estou compartilhando aqui
    Forte abraço Willian mdf artesanato

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