Comportamento
Postais da memória

Postais da memória

Antes dos e-mails, das redes sociais ou até mesmo do telefone, a troca de cartas era a única forma de se corresponder com um parente ou amigo distante. Contudo, engana-se quem pensa que a proposta de síntese ou instantaneidade na troca de correspondências só foram inauguradas na modernidade com surgimento das mensagens de texto, por exemplo. Os cartões-postais deram o primeiro passo nesse sentido e acabaram adquirindo um importante papel de documentação histórica.

Criado há 144 anos pelo professor Emmanuel Hermann, na Áustria, o uso do cartão-postal foi instituído no Brasil pelo então ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Manuel Buarque de Macedo, através de decreto, em abril de 1880.

Em carta a dom Pedro II, Macedo explicitou suas motivações: “Segundo Vossa Majestade Imperial se dignará ver, a primeira de tais alterações é a que estabelece o uso dos bilhetes-postais geralmente admitidos nos outros Estados e ainda em França, onde, aliás, houve durante algum tempo certa repugnância ou hesitação em os receber; os bilhetes-postais são de intuitiva utilidade para a correspondência particular, e, longe de restringir o número de cartas, como poderá parecer, verifica-se, ao contrário, que um dos seus efeitos é aumentá-lo.”

As primeiras tiragens usavam como suporte o papelão fino e tinham uma das faces destinada ao endereço do destinatário, na qual se encontrava impresso o selo postal, reservando-se a outra para mensagem. Apesar da pouca qualidade do material, isso não evitou que fosse um sucesso. Pois ao contrário das cartas comuns, os postais dispensam o uso do envelope, o que torna a correspondência mais fácil e barata. Uma novidade para a época.

No início, a fabricação dos cartões era restrita ao Estado. Até que, no final do século 19, foi autorizado que as indústrias particulares os imprimissem, inserindo selos no valor do porte. Essa mudança representou um estímulo significativo ao seu uso, pois no espaço antes apenas destinado à mensagem começaram a ser também impressas gravuras dos mais diferentes tipos. Anos depois, foi publicada uma autorização legal que permitiu o uso de imagens em todo o campo de uma das faces. Com isso, os postais atraíram a atenção de colecionadores e ganharam status de documento histórico, pois as fotografias registram as mudanças urbanas ocorridas nas capitais do mundo inteiro.

Um dos maiores colecionadores alagoanos de postais, o diretor do Museu da Imagem e do Som (Misa), Fernando Lobo, 65, já contabiliza cerca de 30 mil – desse total, 10 mil retratam Alagoas. “Quando começamos a colecionar não temos a dimensão lógica nem conceitual do que esse hábito significará. No caso dos postais, foram publicados vários livros e artigos, no Brasil e no exterior, discutindo que dentro dos conceitos da arquivísticos e da documentação o cartão-postal é considerado um documento, tanto individual, pois é produzido por um fotógrafo, como por permitir análises sobre percursos da evolução das cidades”, diz.

Cartofilia: a paixão pelos cartões-postais

Para Lobo obter essa quantidade impressionante de postais foi necessário tempo, viagens e o contato com outros cartofilistas – como são chamados esses colecionadores. Um deles foi o antropólogo e folclorista Théo Brandão (1907-1981), o qual teve a oportunidade de conhecer na época em que trabalhou no departamento do curso de História da Ufal.

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Fernando Lobo, diretor do Misa e colecionador de postais (Foto: Francisco Ribeiro)

“Comecei a colecionar em 1968. Dr. Théo comprava centenas de cartões, que não só trazia na volta das suas viagens, mas também os enviava do local onde estava para os amigos. Foi a partir daí que me interessei por esse objetivo de colecionismo”, rememora. Sua coleção deu um grande salto quando recebeu de Théo Brandão cerca de 7 mil itens.

“Como antropólogo e etnólogo, ele possuía um olhar muito atento. Tenho exemplares maravilhosos com trajes típicos da Espanha, México e Portugal. Nesses cartões que recebi dele encontrei correspondência com o poeta Pablo Neruda (1904-1973), por exemplo. Vera Calheiros [colecionadora] também me deu sua coleção. Então eu tive esse duplo privilégio”, conta.

Com um acervo tão vasto, Lobo possui algumas raridades em sua coleção. Entre eles, um postal de um coqueiro chamado Cobra Fumante, cuja deformidade era semelhante ao  famoso Gogó da Ema, e exemplares que registram a beleza arquitetônica do antigo Hotel Lopes.

 “Tenho um que é raríssimo, do final do século 19, cuja tiragem foi num número limitado e publicado na Inglaterra. Nele há uma foto do extinto Banco das Alagoas, hoje um prédio tombado que pertence ao espólio da família Leão. Numa cotação que fiz recentemente, ele estava no valor de 100 doláres”, revela.

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Fachada do extinto Banco das Alagoas, situado no Jaraguá (Foto: Acervo Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas)

Ao avaliar a importância dos cartões enquanto registro histórico, ele observa que o postal é considerado um documento tanto por ter uma imagem que traz a assinatura de um fotógrafo, quanto por mostrar as tendências estéticas de certa cidade numa determinada época. “Podemos, por exemplo, analisar o percurso da evolução urbana das capitais a partir dos anos 1920”, comenta.

Segundo o historiador, até os anos 1980 os cartões retratavam as paisagens urbanas de Maceió. Já na década de 1990, com o incremento do turismo, tais fotos foram substituídas por imagens de praias e outras belezas naturais. “Certa vez, numa conversa com um representante da Litoart [empresa especializada em publicação de postais] ele me justificou essa mudança afirmando que era o que mais tinha saída.”

No auge dos cartões-portais, três empresas alagoanas investiram nesse mercado: Mercato, Edicard e Ambrosiana. Esta última era ligada à Igreja Católica e foi a primeira a produzi-los em grandes tiragens.

No Brasil, há três entidades principais que reúnem os cartofilistas: Sociedade Brasileira de Cartofilia, em Brasília, Sociedade de Colecionadores de Postais de Estádios, em São Paulo, e a Associação de Cartofilia do Rio de Janeiro. Fernando Lobo se associou a elas como forma de estabelecer mecanismos de trocas de cartões.

Ele também colaborou com artigos publicados nas edições do boletim da Sociedade Brasileira de Cartofilia, que circulava entre seus associados. Os textos propunham formas de arquivar tais objetos, sugerindo uma norma padrão como a usada pelos bibliotecários. “Estava com um volume muito grande de cartões, assim me vi na necessidade de separá-los por temas. Fiz também um livro de inventário, no qual localizo se já tenho determinado cartão ou não”.

Fotógrafo argentino preserva a tradição dos postais

Radicado em Alagoas há pouco mais de 20 anos, o fotógrafo argentino Pablo de Luca, 50, assina quatro coleções de cartões-postais que retratam as belezas paisagísticas e culturais da cidade de Marechal Deodoro. Pablo faz coro com os profissionais da área que atuam para preservar a tradição dos postais. “Essa espécie de documento serve como registro iconográfico de um tempo. Daí a importância de darmos continuidade a projetos nesse sentido”, afirma.

Em setembro de 2010, durante a 1º edição da Festa Literária de Marechal Deodoro (Flimar), o fotógrafo lançou uma coleção de 12 cartões postais, intitulada “De Marechal, a lagoa”, com fotografias em preto e branco da lagoa Manguaba. No ano passado, produziu três coletâneas, entre elas “Barroco de Marechal”, premiada com o edital Banco do Nordeste do Brasil (BNB) Cultural, na categoria Artes Visuais, que trata da arte e da arquitetura barroca presentes nas construções do município.

O seu mais recente trabalho é a coletânea “A natureza de Marechal”, também composta por12 cartões, que traz fotografias de algumas espécies da flora e fauna encontradas na cidade. O conteúdo visual conta com texto explicativo da professora do curso de Biologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Aliete Bezerra. O projeto teve apoio da Secretaria de Meio Ambiente de Marechal Deodoro.

 “Assim como os livros, estes postais não serão objetos de descarte, mas sim peças culturais para preservar, colecionar, oferecer de presente, enviar pelo correio ou emoldurar a fim de decorar. Ou seja, será um documento iconográfico que irá transcender no tempo”, afirma com entusiasmo o fotógrafo.

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Um Comentário

  1. Walter

    9 janeiro 2014 at 15:36

    Possuo aproximadamente 530 postais, sendo 10% do exterior e os outros divididos por Estados Brasileiros, tipo MG 95, RJ 59, SP 50, etc. A maioria deles dos anos 70. Gostaria de saber valores, caso eu queira vender.
    Abraços,
    Walter

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