Comportamento
Datilografia, uma paixão

Datilografia, uma paixão

Responda rápido: para que você usaria uma máquina de escrever nos dias de hoje? Caso sua resposta tenha sido “para nada”, você precisa rever essa postura. Embora não exista mais nenhuma fábrica de máquinas, o leque de possibilidades de uso dessas máquinas é variado. Para uns, a máquina datilográfica é objeto de trabalho, sim. Os cartórios da capital, por exemplo, ainda preenchem formulários ao som do “tec”, “tec”, “tec”. Para outros, a máquina datilográfica é sinônimo de objeto decorativo, pois imprime ao ambiente um ar retrô, tão em moda ultimamente.

Para o estudante de Design da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Roger Ferraz, o motivo é outro. O universitário é um daqueles que, apesar de usufruir de todas as inovações digitais, possui uma predileção estética por objetos antigos. “Sempre fui um nostálgico”, diz. 

O interesse por máquinas datilográficas começou durante a faculdade, sobretudo depois que leu uma reportagem sobre o valor estético das Olivettis. “A matéria contava que a Olivetti Valentine, quando foi lançada, tinha o mesmo valor estético do que os aparelhos da Apple hoje”, diz o estudante. Além de design, Roger alimenta uma paixão por tipografia, a arte de compor e imprimir com tipos. “As máquinas de escrever  se aproximam da maneira de se imprimir dos tipos móveis, onde a letra é cravada no papel”, explica Roger.

A assistência técnica reforma as máquinas de escrever antes da venda. Na foto, uma Remington 100 BJ. (Fotos: Lucas Almeida)

O estudante enumera outros fatores que explicam sua paixão por máquinas de escrever. “Sempre fui uma pessoa nostálgica e tenho juntado toca-disco para rodar discos de 7 polegadas, conhecidos como compactos. Ainda hoje revelo fotografias em máquinas analógicas e compro CDs e DVDs”, conta Roger. “Apesar da facilidade das compras de dispositivos digitais, existe um mercado paralelo de pessoas que preferem o toque do álbum material, como eu”. Hoje, a máquina divide espaço na decoração de seu quarto com um tocador de discos, uma máquina de fotografia analógica, discos, CDs, DVDs. 

Foi em uma de suas andanças pelo Centro de Maceió que Roger se deparou com a Escrev, um estabelecimento que presta serviços de conserto de impressoras, mimeógrafos, máquinas de calcular e máquinas de escrever. Para sua surpresa, a Escrev também vendia máquinas de datilografar usadas. Por R$ 120, Roger comprou a Olivetti Lettera 32, uma máquina de escrever de tamanho pequeno, cujas teclas são pouco maiores do que a circunferência da ponta do dedo.

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Máquina Olivetti Lettera 32 adquirida pelo estudante de Design Roger Ferraz

A Escrev funciona desde 1984 no mesmo endereço: Rua do Sol, 335, Centro. Surgiu a partir da vontade de Sandra Guimarães (foto em destaque) em ter seu próprio negócio. Antes de abrir a assistência técnica, Sandra trabalhava na Executive – primeira empresa especializada em venda de máquinas de escrever em Alagoas–, como vendedora. “Na época, havia mais de 40 lojas de assistência técnica aqui em Maceió”, relembra Sandra. Com um sorriso revigorante e uma atenção ao cliente pouco comum, era de se esperar que Sandra fosse boa vendedora. “Vendia cerca de 50 por dia”, conta.  Hoje, ela conserta, em média, oito máquinas por semana.

Aos 23 anos, Sandra vendeu todos os seus pertences, deixou o emprego e comprou o atual ponto de comércio, onde se localiza a Escrev. O marido, que era vendedor de carro, também largou o trabalho para se dedicar à Escrev. Hoje a loja conta ainda com a ajuda do filho e mais quatro funcionários. “Eduquei meus dois filhos com o dinheiro daqui”, diz Sandra.

Máquina Olivetti Studio pronta para ser vendida

Olivetti, IBM, Remigton, Olympia, Halda, Facit. As marcas que Sandra possui em sua estante são diversificadas, assim como os modelos, tamanhos, cores, usabilidade. Nem todas as máquinas estão prontas para uso. “Nesse caso, é só pedir que nós consertamos, limpamos e pintamos”, diz Sandra. Esse foi o caso de Roger Ferraz, cuja máquina passou por uma limpeza e ganhou uma cor verde azulada, a cor original.

Os clientes de Sandra que agitam o universo das máquinas de escrever são os mais diversos possíveis. Ela conta, por exemplo, que a maioria dos cartórios da cidade ainda usa a máquina. Na semana passada, o gaúcho Luciano Fukasawa, que estava de férias em Maceió, comprou uma máquina Halda, fabricada em 1940, a mais antiga à venda que Sandra possuía.

Um desses clientes é o jornalista e desembargador aposentado Antonio Sapucaia, que ganhou sua primeira máquina na adolescência, ainda quando morava em Pilar. “Aos 13 anos fiz um curso de datilografia e cheguei a receber o diploma de datilógrafo, porém jamais consegui usar todos os dedos na hora de datilografar qualquer coisa”, conta Sapucaia.

Ainda hoje o desembargador aposentado Antonio Sapucaia utiliza sua máquina para escrever . "Uma das grandes frustrações de minha vida, hoje, é não saber nada de computação", diz.

Ainda hoje o desembargador aposentado Antonio Sapucaia utiliza sua máquina para escrever . “Uma das grandes frustrações de minha vida, hoje, é não saber nada de computação”, diz.

Aos 15 anos, Sapucaia mudou-se para Maceió, mas, mesmo morando em Pilar, já era correspondente do jornal Gazeta de Alagoas na cidade. Todos os domingos assinava matérias com os fatos mais importantes ocorridos na cidade interiorana. Apesar de trabalhar em Maceió como auxiliar de escritório, Sapucaia não abria mão do ofício de jornalista. “Foi nessa condição que cheguei à Gazeta de Alagoas onde tornei-me repórter e redator, sem nenhuma evolução na arte de datilografar, pois jamais fui além dos dois dedos”, diz Sapucaia.

A vida como jornalista terminaria oficialmente em 1971, quando assumiu o cargo de juiz em uma vara no interior do estado. “Quando escrevi O legendário Costa Rego, livro de 307 páginas, fiquei com os dois dedos dormentes, o que evidentemente não me levou a contrair uma LER [ lesão por esforço repetitivo], já que tive de pagar a alguém para digitá-lo”, diz o jornalista. Ainda hoje Sapucaia continua usando sua Remington 100, sobretudo porque o universo digital lhe é estranho. “Uma das grandes frustrações de minha vida, hoje, é não saber nada de computação”, conta. Sapucaia leva, religiosamente, a cada seis meses, sua máquina na assistência técnica, para manutenção. É cliente de tão longa data que não lembra a primeira vez que pisou na loja. 

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