Flip 2013
O fim da Festa

O fim da Festa

Chega ao fim a 11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), edição dedicada ao escritor alagoano Graciliano Ramos. Todas as pessoas com as quais falei durante o evento – Luiz Schwarcz, Dênis de Moraes, Randal Jonhson, Sérgio Miceli, José Luiz Passos, Daniel Galera, Xico Sá, Marcelino Freire – para apresentar a revista Graciliano sobre o escritor que a batiza, tinham sempre a mesma reação: a de manifestar a imensa admiração pela obra de Graciliano.  O jornalista e colunista da Folha Xico Sá foi mais além: com o pôster (que acompanha esta edição da revista) aberto, procurava Luís da Silva, para ele “o que mais se lascou, o mais machucado de todos”.

A mesa “Graciliano Ramos: ficha política” pareceu-me uma das mais profundas de toda a Flip. Ali, foi possível perceber o quanto a atuação do autor de Vidas Secas é objeto de estudo atual e, agora, conecta-se, de certa forma, com o momento político agitado que vivemos. Emocionou-me ouvir de especialistas como o brasilianista Randal Johnson e o biógrafo Dênis de Moraes detalhes minuciosos da vida e da obra de Graciliano, como a data em que ingressou e a data em que pediu demissão do cargo de diretor da Imprensa Oficial de Alagoas, nos anos 30. O momento mais importante (e que acabou encerrando a mesa, com fortes aplausos) se deu quando Moraes, em resposta a Miceli (que participava do debate) sobre o fato de o alagoano ter sido, no Rio, funcionário público indicado pelo então ministro Gustavo Capanema, em pleno governo Vargas,  afirmou: “Existe uma grande diferença entre servir sob uma ditadura e servir a uma ditadura”.

No sábado, quem roubou a cena foi o documentarista Eduardo Coutinho. Sem debate, mas com apresentação do crítico e cineasta Eduardo Escorel (revista Piauí), que lançava os temas para que Coutinho comentasse, o encontro deixou a plateia instigada, algumas vezes surpresa e, ao final, bem íntima do diretor de Edifício Master, famoso por sempre extrair depoimentos francos, impactantes. Durante o bate-papo, foram exibidos trechos de dois documentários de Coutinho, produzidos com 20 anos de diferença: Cabra Marcado para Morrer (1984) e Peões (2004). A exibição dos filmes ilustrou um dos eixos da conversa: o método do cineasta e a relação que estabelece com seus entrevistados. O pensamento de Coutinho (de certa forma, um jornalista no cinema) é também uma aula de antropologia: parte do que faz (e bem) resulta da percepção que tem sobre o comportamento humano.

Sem autocensura, à vontade para falar de qualquer tema, Coutinho deixou muito sobre o que pensar (ele chegou a fazer uma provocação ao aspecto que chamou de “exclusão” da Flip). Criticou também a televisão: “Se eu fosse um ditador, cancelaria todas as concessões no primeiro dia de governo. Depois eu seria derrubado, mas tudo bem. A TV é um circo”. Falou também das adaptações de romances para o cinema: “A obra de Graciliano teve muita sorte. Vidas Secas, Memórias do Cárcere, São Bernardo. Todos bons filmes. Já Machado de Assis não teve essa sorte”. Sobre criação, foi enfático ao dizer que nada do que se  faz parte do zero. “Sou a favor do plágio criativo. Eu mesmo sou um plagiador”.

Em resposta às perguntas da plateia, Coutinho fez todo mundo rir ao dizer que “cigarro é um negócio budista, faz pensar” (ele enfrenta um enfisema pulmonar e está proibido de fumar) e que é ateu, mas clama por todos os santos a cada vez que o avião tem uma turbulência. Definiu-se um “materialista mágico”. Para sua surpresa, uma das perguntas questionava se ele, um dia, iria voltar a fazer o horóscopo da revista Piauí, que assinava como Chantecler: “Essa pessoa sabia que era eu? Você está muito bem informado, viu?!” No inusitado horóscopo, o astrólogo dava orientações como “leia As palavras e as coisas, de Michel Foucault, pulando as páginas pares”.

Ao final, entre a profusão de mesas, debates, encontros e oficinas que é a Flip (a maior no gênero no País) percebe-se claramente o quanto a literatura é importante para o debate criativo (ficcional ou não) e o quanto ela, de alguma forma, reflete o tempo e o lugar em que é produzida. O mercado editorial aquecido, eventos similares se espalhando pelo Brasil, empresas e instituições (Folha, livraria Cultura, Instituto Moreira Salles) investindo, a cada nova edição da Festa, em atividades paralelas que se integram à programação principal e contribuem para deixar o evento mais rico: sem dúvida, o saldo é positivo.

 

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