Artes Cênicas
Remédio para quê?

Remédio para quê?

Embalagens vazias de medicamentos dispostos irregularmente em cima de um tapete. A princípio, vislumbra-se uma cidade, um mundaréu de prédios mal dispostos, tão comum ao olhar do brasileiro, acostumado a cidades construídas sem nenhum planejamento. O cenário descrito é o suficiente para a montagem do monólogo Mal, encenado pela Cia. Do Chapéu, e em cartaz no Teatro Linda Mascarenhas todas as sextas e sábados de julho.

O personagem, que não possui nome, está doente. Sofre de depressão. O médico recomenda comprimidos e o paciente inicia sua jornada (sem volta?) pelo universo dos remédios. Durante o tratamento, o personagem narra momentos de sua vida na infância, o relacionamento com a mãe amorosa e o pai meio rude que, por exemplo, exigia que o filho penteasse o cabelo para trás, embora o filho preferisse o cabelo para o lado. Ele não vive mais com os pais. Mora em uma cidade grande, onde a solidão passa a acompanhá-lo, apesar de não ter perdido o contato com eles. 

Foi a partir das lembranças dos diretores Thiago Sampaio e Gustavo Félix e do ator Rick Galdino que as situações reunidas na peça foram criadas. Muito do que se vê ali poderia muito bem ter acontecido a qualquer um de nós.

Para isso, os dramaturgos iniciaram uma atitude ousada de contar a história a partir de três diferentes tempos narrativos: quando o ator se transforma em uma terceira pessoa, quando ele vivencia os dias na infância e quando conta detalhes de sua vida. Se, por um lado, essa alternância de  tempo narrativo pede um esforço intelectual maior da plateia, por outro, dá margem para conclusões diferentes das pensadas pelos diretores, criando até confusão para se entender a história. “É difícil afirmar com absoluta certeza que há um único entendimento, sabendo-se que cada pessoa articula sua experiência de vida com a experiência da cena de maneiras bem distintas. No entanto, reconheço que se trata de uma informação que merece mais atenção e um trabalho de investigação que potencialize a própria dramaturgia”, explica Thiago. 

Um dos objetivos da história é discutir o tratamento dado hoje para os males da modernidade como a depressão e o TOC  (Transtorno obsessivo compulsivo). As embalagens dispersas pelo palco montado no chão do Espaço Cultural Lindas Mascarenhas revelam quão próxima de nós está a cultura da medicação. “Queríamos que o público se reconheça nas doenças  do personagem”, diz Thiago Sampaio. O grupo reuniu os rótulos de remédios que havia em casa para compor o cenário de Mal. Um olhar curioso na nomenclatura deles pode revelar, involuntariamente, se os participantes da companhia dividem a mesma angústia da personagem. 

Para compor o fio central da história, os diretores, inicialmente, pensaram em discutir apenas a depressão nos dias atuais. “Com o passar dos ensaios, essa temática ficou mais abrangente, permeando assuntos como o TOC, morte, pensamentos intrusivos”, conta Sampaio. “Eu, o Gustavo e o Rick trouxemos nossas lembranças de infância para a história”.  

Os ensaios da peça começaram em 2011, e ganharam ritmo depois do anúncio do resultado do edital Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2012. O projeto da Cia. Do Chapéu foi contemplado com 50 mil, dinheiro que custeou os gastos com os profissionais envolvidos com a peça e os materiais de cena. “Depois que ganhamos o edital, tivemos dinheiro para pagar dignamente os profissionais”, diz Thiago Sampaio. Além do espetáculo, o projeto previa a realização de oficinas de encenação e dramaturgia abertas ao público, que já foram ministradas.

Não é pretensão do espetáculo garantir curas para a depressão, mas Thiago propõe um caminho. “Mal discute o uso exagerado de remédios na tentativa de cura da depressão, revelando como o tratamento do mundo atual é buscado pelo paliativo”. Nesse peleja da arte com a depressão, talvez Friedrich Nietzsche tenha um diagnóstico mais preciso: “Nós precisamos da arte para não morrer de verdade”.

Confira abaixo um teaser da peça.

Serviço

O quê: Espetáculo Mal
Onde: Espaço cultural Linda Mascarenhas (ao lado do Cepa), Av. Fernandes Lima
Quando: Todas sextas e sábados de julho (12 e 13, 19 e 20, 26 e 27)
Horário: 20h (nos dias 26 e 27/07 às 18h e 20h)
Classificação indicativa: 12 anos
Ingressos: R$ 20 e R$10 (meia entrada). Vendidos no local, 1h antes de cada sessão.
Mais informações: (82) 9131-3131/ www.ciadochapeu.com/ facebook.com/pagdochapeu

FICHA TÉCNICA

Direção: Thiago Sampaio e Gustavo Félix
Dramaturgia: Rick Galdino, Gustavo Félix e Thiago Sampaio
Elenco: Rick Galdino
Plano de luz: Magnun Angelo
Concepção de cenografia: Isaac Feitosa
Execução de cenografia: O grupo
Concepção de indumentária: Joelle Malta
Execução de indumentária: Tácia Albuquerque
Sonoplastia: André Cavalcante
Gestão de conteúdo: Larissa Lisboa
Assessoria de imprensa: Natalhinha Marinho
Arte gráfica: Canel Jr.
Fotos: Magno Almeida
Produção executiva: Laís Lira e Pablo Young

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Um Comentário

  1. Rick Galdino

    20 julho 2013 at 16:41

    Ótimo!

    Reply

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