Artes Visuais
Sobre eles e nós

Sobre eles e nós

Você que lê esse texto, provavelmente, deve ter um computador ou smartphone. Reclama do trânsito, das parcelas do cartão de crédito ou da mensalidade do colégio dos filhos. Mora num cubículo ou num verdadeiro palacete, na área nobre ou na periferia. Habitamos uma das múltiplas cidades que existem dentro dela mesma. Realidades diferentes que convivem entre si e que, muitas vezes, se chocam.

Protagonistas do espetáculo que revelam essa natureza plural dos grandes centros urbanos, os moradores de rua ocupam praças, terrenos abandonados, constroem instalações com os objetos à disposição: madeira, papelão, móveis velhos. Tomam para si o que é público, pois dependem disso para sobreviverem. Eles estão por toda parte e as implicações da sua presença nas cidades envolvem todos os seus habitantes.

Com intuito de pensar essa relação que a artista pernambucana Marianna Bernardes (foto em destaque*) criou a exposição Moradores, cuja abertura acontece hoje, às 20h, e segue em cartaz até 20 de setembro (confira os horários abaixo). A princípio, podemos achar que a exposição pretende discutir a vida dos moradores de rua. No entanto, ela se propõe ir além. “O nome pressupõe a existência de pessoas e de lugares. E a exposição é sobre essa relação”, diz Marianna. 

Ela percorreu  pontos da cidade atrás de moradores de rua e pediu para que eles interpretassem para sua câmera uma situação bastante hipotética: O que eles fariam se tivessem uma casa? Para mobiliar esse lar imaginário, Marianna procurou  utensílios domésticos: mesas, sofás, cadeiras. Objetos encontrados abandonados pelas ruas, lixo e empresas de reciclagem. Os curtas filmados foram exibidos na fachada de prédios da capital. “É o espaço público ocupando o espaço privado”, explica. Depois, captou a exibição com outra câmera. São essas imagens que estarão sendo exibidas na exposição.

Cinco moradores de rua aceitaram a proposta e encenaram para Marianna suas primeiras reações dentro de uma casa. Quando a artista perguntava o que eles precisavam para mobiliar uma casa, a resposta era uníssona: “Precisamos de muito pouco”.

Na primeira sala da exposição, é possível ouvir os depoimentos de 25 moradores de rua (Foto: Camila Cavalcante)

A maioria dos moradores de rua entrevistados por Marianna chegaram até esta situação por inúmeros motivos: perderam emprego, perderam parentes que os sustentavam e encontraram na rua um lugar para morar. “Poderia acontecer com qualquer um de nós”, refletia a artista durante as entrevistas. No total, ela coletou 25 depoimentos que poderão ser ouvidos em fones espalhados na primeira sala da exposição.

Câmeras de segurança colocadas nas paredes da exposição exibirão ao vivo o vai e vem dos visitantes.”A exposição só possui sentido completo quando o morador, além de ocupar o espaço material, ocupa também o espaço virtual. É por isso que gostaríamos de exibir esse vídeo pela internet em nosso site”, explica Marianna. A relação é também apontada no texto da curadora da exposição, Camila Cavalcante. “Tu fazes com que o que chamam de mundo virtual seja teu discurso, teu sorriso, tua vida real”.

A segunda sala da exposição é composta pelos móveis encontrados por Marianna que serviram de cenário para os curta-metragens. Serão projetados na paredes imagens – cada vídeo dura, em média, 30 segundos– captadas da cidade e seus moradores. Será possível ouvir os sons produzidos por essa mesma cidade, apesar de som e imagem não estarem sincronizados.

A artista

Formada em publicidade e propaganda pelo UFPE, Marianna participou, durante a graduação, de um intercâmbio em comunicação audiovisual na cidade de Salamanca. O assunto em discussão na exposição começou a habitar seus pensamentos a partir de sua tese de mestrado na UERJ. Sua atividade como cineclubista – ela é uma das fundadoras do Telatudo – despertou sua curiosidade sobre a reprodução de conteúdo audiovisual em espaços públicos.

(*Foto principal por Flávia Correia)

SERVIÇO

O quê: Exposição Moradores
Quando: De 15 de agosto a 20 de setembro (excepcionalmente no sábado 31/08)
Onde: Pinacoteca Universitária (Praça Visconde de Sinimbu, 206, primeiro andar)
Horário de funcionamento: 2ª, 5ª e 6ª, das 8h às 18h; 3ª e 4ª, das 8h às 20h (excepcionalmente no sábado 31/08, das 08h30 às 12h30)
Mais informações: www.projetomoradores.com e facebook.com/eumoro
Entrada gratuita

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