Artes Cênicas
Ivana Iza: A voz delas

Ivana Iza: A voz delas

Na porta do apartamento 202, onde mora o casal Ivana Iza e Tainan Costa, há um aviso aos visitantes. Nele está escrito: “Proibido pisar nos sonhos”. A primeira impressão que tal mensagem nos causa é que, ali, não é um lar parecido como tantos outros que estamos acostumados a conhecer. Expectativa essa que se confirma após uma longa tarde de conversa com Ivana.

Escritora e atriz do espetáculo teatral Devassas – O Que as Mulheres Gostariam que Fizessem com Elas na Cama, considerado um dos mais bem sucedidos de Alagoas – foram mais de 20 mil espectadores entre apresentações na capital e nas cidades de Arapiraca, Penedo e Aracaju (SE) –, ela costuma afirmar que ao longo dos 18 anos de carreira, o fazer artístico nunca lhe trouxe nenhuma decepção. “Meus momentos de infelicidade se davam exatamente porque eu não conseguia ver um caminho para o teatro que fazia numa certa época da minha vida”, pontua Ivana, se referindo às suas experiências anteriores, as quais a levaram questionar sua profissão.

“Eu comecei a me incomodar com a postura que faz o teatro parecer um hobbie e não uma profissão. A gente se encontra, passa por um processo e depois o espetáculo se esfria. E ele só é retomado quando alguém liga o contratando. Isso para mim não é teatro. Se eu tenho um espetáculo de reportório tenho que ficar ensaiando. Se não, isso não é ser ator. Porque o teatro é muito vivo, está em constante mudança. Não pode achar que ele está pronto, porque nunca vai estar. Essa é a minha opinião”, justifica.

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Ivana Iza, escritora e atriz do espetáculo teatral Devassas (Foto: Tony Admond)

Aos 35 anos de idade, a atriz formada em Filosofia pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) conta que o momento decisivo da sua carreira aconteceu há três anos, quando mergulhou num projeto independente e autoral diferente de tudo o que tinha feito anteriormente. “Fui me afastando aos poucos dos espetáculos que participava para me dedicar a um projeto que deveria ser do jeito que eu acreditava.”

Em 2007, o cineasta alagoano René Guerra sugeriu a Ivana à leitura de Patty Diphusa, do espanhol Pedro Almodóvar, que narra às memórias de uma estrela pornô. A ideia inicial de adaptar o texto para o teatro não foi adiante. No entanto, o livro tinha despertado na atriz a vontade de investigar os hábitos sexuais femininos. Foram dois longos anos de pesquisa sobre esse universo (ainda nebuloso), e vários rascunhos, até chegar à versão final da peça que anos depois viria a se tornar um sucesso de público.

“Mergulhei dentro da minha intimidade e também na de amigas. E eu ouvia coisas absurdas. Certa vez uma mulher casada me chamou para conversar e disse: ‘Meu marido quer me levar para um motel, mas não quero ir’. Perguntei: ‘E por que você vai?’ Ela respondeu: ‘Ah, mulher, se eu não for…’ Eu ficava tão passada. E essas declarações vinham de pessoas esclarecidas. Não era de nenhuma coitada”, lembra a atriz, que faz questão de destacar uma das centenas de informações que coletou na época: “35% das mulheres brasileiras jamais souberam o que é ter um orgasmo”.

Um projeto para chamar de seu
Dois anos mais tarde, com o projeto de Devassas devidamente finalizado, Ivana o inscreveu no Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2009. A montagem foi a única de Alagoas contemplada naquela edição do concurso. “Foi tudo muito desafiador. Eu disse para mim mesma: ou é do jeito que estou pensando, ou vou fazer outra coisa”, enfatiza.

Para isso, ela tomou as rédeas em todas as frentes do projeto: além de ter escrito o texto e de atuar na montagem, também assina o figurino, o cenário e a produção geral. Outra decisão que considera importante foi convidar um leque de profissionais talentosos para enfrentar essa empreitada ao seu lado. “Não queria um processo que fosse cansativo de emocional, de briga, de confusão. Por isso chamei pessoas muito bacanas para trabalhar, e que também são ótimos profissionais. Pois precisava me tranquilizar, porque quando eu estava ensaiando não podia ser produtora, então eu precisava acreditar muito no trabalho do outro.”

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Atriz em cena (Foto: Divulgação)

A equipe do espetáculo é composta por Eris Maximiniano, que responde pela gerência de produção, Fátima Farias, que assina desenho de luz, e por Pedro Ivo Euzébio, o Tup, responsável pela trilha sonora da peça, além de Arnaldo Ferjú, na direção de palco, Renata Voss e Gustavo Boroni (fotografia), Leonardo Leal (design gráfico), Leandro Maman (projeções) e Jorge Adriani (produção executiva). Quem assumiu o desafio de dirigir a peça foi ator e diretor alagoano Flávio Rabelo.

“Flávio, que atualmente reside em São Paulo, ficou 20 dias em Maceió para trabalharmos o texto. Após um período de ensaios, ele retornou e acompanhou a pré-estreia da peça”, recorda ela, comentando a opção do diretor em iniciar a temporada em Arapiraca: “Ele pensou em levar a peça para um público diferente, que está sendo formado, para avaliarmos se tudo o que a gente tinha achava estava certo. E desde o começo, a coisa começou assustadoramente grande”.

Era uma coisa que eu não sei explicar. Foi uma energia, algo que gerou aquilo (Ivana Iza)

Após duas apresentações realizadas na cidade, Devassas estreou em Maceió, no teatro do extinto Centro Cultural Sesi, na Pajuçara, no final de 2010. “Ninguém entendia o que era aquilo. Eu tinha até lista de espera”, comenta sobre a repercussão imediata da peça. “Era uma coisa que eu não sei explicar. Foi uma energia, algo que gerou aquilo.” Nos meses seguintes, a montagem seguiu lotando várias casas de espetáculos em Alagoas e outros estados.

Foi assim até a primeira pausa nos trabalhos, que aconteceu de janeiro a setembro do ano passado. “Eu parei porque eu sou uma pessoa muito desconfiada. E a gente não pode se convencer de que está tudo bom, tudo ótimo. Porque não é verdade, sabe? E mais ainda se a gente está formando plateia é mais grave, pois não sabemos especificamente qual o critério que ela está usando para aplaudir você daquela maneira”, pontua.

Atriz revela seus projetos futuros
Após a última temporada realizada no mês de maio, Ivana agora se prepara para alçar novos voos. Em São Paulo desde o mês passado, ela dedica-se a um curso de interpretação em cinema, televisão e teatro. Mas, engana-se que o espetáculo Devassas chegou ao fim. Segundo ela, estão em andamento negociações para apresentá-lo em outras cidades do Nordeste e, também, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Como a atriz costuma dizer, a maior lição que tirou dessa experiência foi a certeza de que “nada é impossível”. “Pode ser que a gente considere improvável, mas impossível não é. Principalmente, se você trabalhar sério, dedicando toda a sua fé. Evidente que o espetáculo esteve aliado à sorte, ao fato de termos ganho o prêmio da Funarte, o privilegio de trabalhar com essas pessoas especiais e, claro, a generosidade do público de entender que aquele trabalho foi feito com muita dedicação”, ressalta.

Um papo divertido sobre sexo
Num ambiente de estética kitsch – termo de origem alemã, empregado para se referir a objetos vulgares, baratos, de mau gosto –, Ivana encarna diferentes personagens para falar sobre sexo nas diferentes fases da vida da mulher, em tiradas hilárias. No palco, temas como a perda da virgindade, masturbação, orgasmo, tamanho e formato dos pênis são abordados com humor e boas doses de ironia.

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As cinco personagens interpretadas por Ivana: Si, dona Carmen, Sindi Clayde, Amanda Kelly e a criança (da esquerda para direita).

Em cena, a atriz dá vida a quatro mulheres: a protagonista, uma religiosa em processo de descoberta do próprio corpo, uma criança que vê pela primeira vez um pênis, e uma senhora que foi casada durante 50 anos, cujo marido há quase três décadas deixou de transar com ela. Sobre o espetáculo, Ivana afirma que ele “não tem o intuito de ser uma aula, mas, sim uma conversa sobre temas que ainda são tabus para as mulheres”.

FICHA TÉCNICA
Flávio Rabelo (direção)
Ivana Iza (atriz e autora)
Eris Maximiniano (gerência de produção)
Jorge Adriani (produção executiva)
Fátima Farias (desenho de luz)
Pedro Ivo Euzébio (trilha sonora)
Arnaldo Ferjú (direção de palco)
Renata Voss e Gustavo Boroni (fotografia)
Leonardo Leal (design gráfico)
Leandro Maman (projeções)

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3 Comentários

  1. Pedro Paulo Laurentino

    22 agosto 2013 at 14:12

    Parabéns pela matéria!

    È maravilhoso perceber que a cultura alagoana vem ganhando cada vez mais espaço e aceitação. Conheço o espetáculo, assistí e recomendei por diversas vezes. Me decepcionei com a ausência da citação de um dos nomes de grande força na construção e execução desse projeto. ERIS MAXIMIANO? Alguém pode resolver essa interrogação para mim?

    Reply

    • Francisco Ribeiro

      23 agosto 2013 at 10:09

      Olá, Pedro.
      A informação foi adicionada na matéria.
      Obrigado pela observação.
      Abs.

      Reply

  2. Ivana Iza

    26 agosto 2013 at 2:27

    Olá.

    Nossas ultimas apresentações no estado de Alagoas, tiveram a produção executiva da querida e competente Alexya Vieira, e não mais de Jorge Adriani, que foi fundamental para construção e êxito desta montagem teatral, mas que não mais compõe a equipe do espetáculo ‘Devassas”.
    A “Graciliano” meu muito obrigada pelo espaço, e a você Francisco por ter conduzido tão bem essa entrevista.

    Bjs

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