Artes Visuais
Arte que vem do barro

Arte que vem do barro

Do barro retirado do povoado Muquém, localizado em União dos Palmares, são criadas obras de incontestável valor artístico. Os moradores da pequena vila, onde vivem remanescentes quilombolas, permeiam o cotidiano com um sentido simbólico, como pode ser visto através dos artigos de cerâmica que produzem. É desse cenário que surgiram as peças da exposição Modelagens do Barro: Muquém, aberta a visitação no Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore (MTB), até o próximo sábado (28).

A exposição é uma das ações do Programa de Promoção do Artesanato de Tradição Cultural (Promoart), iniciado em 2009. O programa foi concebido com a finalidade de apoiar produtores de artesanato de tradição cultural no Brasil. Realizado pela Associação Cultural de Amigos do Museu de Folclore Edison Carneiro, o Promoart tem gestão conceitual e metodológica direta do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), vinculado ao Departamento de Patrimônio Imaterial do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, com sede no Rio de Janeiro.

De acordo com Wilmara Figueiredo, gestora técnica do Promoart, já há três anos a iniciativa buscava realizar esse trabalho com o Muquém. “A ideia de fazer a mostra na capital alagoana tem o objetivo de chamar a atenção da população local para os trabalhos dos artistas dessa comunidade quilombola”, conta ela, ressaltando que o povoado passou por uma seleção criteriosa, realizada por especialistas, em que foi considerada a importância cultural e a alta qualidade da produção artesanal, além da variedade de tipologias e técnicas envolvidas na sua produção. “O Muquém foi selecionado entre 150 possibilidades, inclusive áreas indígenas”, destacou.

O blog GRACILIANO ON-LINE visitou a mostra e traz um guia dos principais destaques.

O circuito da exposição é composto por três ambientes. No primeiro, é exibido um curto documentário com depoimentos de alguns artesões do povoado. Eles falam sobre as suas inspirações, o processo de produção das peças e o significado da atividade artística para cada um deles.

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Na primeira sala, é exibido um curto documentário com depoimentos de alguns artesões do povoado (Fotos: Francisco Ribeiro)

Nas duas salas seguintes, estão expostas as obras de sete artistas: Irinéia, Antônio, Marinalva, Aparecida, Laelson, Edson e Preta. São esculturas, objetos utilitários, entre outras peças, a exemplo das cabeças, feitas por dona Irinéia e seu Laelson; moringas, potes, panelas e cuscuzeiras, confeccionadas por dona Marinalva, e em miniatura, por dona Aparecida.

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Além das peças, estão expostos nas paredes painéis com fotos dos artesões e informações sobre o povoado

O processo de criação dos artigos revela o cotidiano e as experiências vividas pela comunidade. “As peças de dona Irineia têm um apelo singular, dentre estas, destacamos as cabeças e, mais recentemente, as esculturas relacionadas à enchente sofrida pela comunidade, como a jaqueira em que muitos passaram a noite à espera de socorro”, comentou Figueiredo.

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Para sobreviverem durante a cheia que destruiu o povoado, os moradores subiram nas árvores. As lembranças daquela tragédia foram transformados em arte pelos artesões

Dona Irinéia é considerada uma das melhores artesãs do barro, em Alagoas. Desde 2005, a artista faz parte do Registro do Patrimônio Vivo de Alagoas. Ela começou fazendo cabeças de barro para ajudar na renda familiar. Tornou-se conhecida ao participar de feiras de artesanato pelo Brasil. Hoje, seus trabalhos fazem parte de catálogos da cultura popular elaborados pelo Ministério da Cultura (MinC).

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Dona Irinéia, moradora do povoado

A exposição tem a pesquisa e texto produzidos pelo pesquisador Daniel Reis, e o projeto expográfico realizado pelo museólogo Luiz Carlos Ferreira, ambos profissionais do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP). Para a realização dessa ação, o Promoart contou com o apoio do Sebrae Alagoas e com a parceria da Vale, da Prefeitura Municipal de União dos Palmares, do Museu Théo Brandão e da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Gestora do projeto fala sobre importância do povoado Muquém
Wilmara Figueiredo, gestora técnica do Programa de Promoção do Artesanato de Tradição Cultural falou em entrevista sobre a iniciativa que contemplou os artesões do povoado Muquém e a importância do artesanato produzido pela comunidade, onde vivem remanescentes quilombolas. Confira.

Como surgiu a ideia da exposição? Por que Maceió foi escolhida para a sua realização?
Wilmara Figueiredo – A ideia de fazer a mostra na capital alagoana tem o objetivo de chamar a atenção da população local para os trabalhos dos artistas dessa comunidade quilombola, e num espaço de grande referência como o MTB. Esta é uma das atuações do Promoart, que desde 2010, tentava realizar ações de incentivo à produção, à comercialização e à divulgação do artesanato do Muquém. Mas, devido à cheia, as atividades foram suspensas até que a população fosse reassentada no Novo Muquém, fato que ocorreu somente no meio deste ano. Isto feito, achamos oportuno colaborar com esta nova fase da comunidade, criando um espaço de mostra e reflexão sobre seus conhecimentos tradicionais e expressões artísticas.

A exposição faz parte de algum projeto? Como o artesanato do Muquém foi selecionado?
Sim. Esta é uma das ações do Promoart que desde 2010 tentava realizar ações de incentivo à produção, à comercialização e à divulgação do artesanato dessa comunidade quilombola. Mas devido à cheia lá ocorrida as atividades foram suspensas até que a população fosse reassentada no Novo Muquém, que ocorrera somente no meio deste ano.

Isto feito, achamos oportuno colaborar com esta nova fase da comunidade criando um espaço de mostra e reflexão sobre seus conhecimentos tradicionais e expressões artísticas. A Sala do Artista Popular (SAP) é um programa do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP) que existe há 30 anos e que reúne todos os recursos que precisamos para o objetivo que nos propusemos.

Vale lembrar ainda que Muquém, assim como outras 64 comunidades espalhadas por todas as regiões do país que o Programa vem atuando desde 2009, foi selecionada por especialistas dentre cerca de 150 possibilidades, inclusive áreas indígenas, considerando-se a importância cultural e a alta qualidade da produção artesanal, além da variedade de tipologias e técnicas envolvidas na sua produção.

Existe uma temática que se destaque entre as peças expostas?
As peças de dona Irinéia têm um apelo singular, dentre as quais destacamos as cabeças e, mais recentemente, as esculturas relacionadas à enchente sofrida pela comunidade como a jaqueira em que muitos passaram a noite à espera de socorro. Além destas, as louças utilitárias de dona Marinalva e Aparecida retratam um cotidiano local que está cada vez mais caindo em desuso devido às tecnologias que de uns tempos para cá dominam o mercado como os recipientes plásticos e as panelas de metal.

SERVIÇO
O quê: Exposição Modelagens do barro – Muquém
Onde: No Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore (Avenida da Paz, 1490, Centro).
Visitação: Até 28 de setembro (terça a sexta, das 9 às 17h. Sábado, das 14h às 17h).
Entrada gratuita.
Mais informações: 3214-1713 ou 3214-1716.

*Com informações da Ascom/MTB
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