Cultura popular
Heróis da resistência

Heróis da resistência

Os artistas visuais Maria Amélia Vieira e Dalton Costa são o que podemos chamar de heróis da resistência. Eles mantêm um dos raros espaços particulares em Alagoas destinados a preservação da cultura popular local. Ao todo, mais de duas mil peças criadas pelas mãos de artesãos, que vivem nos desconhecidos rincões deste país, além das obras de seus fundadores, estão salvaguardadas no espaço. Não há dúvida de que o casal é obstinado e apaixonado pelo trabalho que realizam, afinal, a galeria neste ano completa 28 anos de fundação.

Mesmo diante de realidades adversas, os galeristas buscaram alçar novos voos. Desde 2008, eles desenvolvem, com o apoio de instituições privadas e públicas, os projetos Tecendo a Manhã e O Museu no Balanço das Águas. Ambas as ações possuem um caráter sociocultural e levam para crianças, jovens, escultores, artesãos e bordadeiras de povoados às margens do rio São Francisco a oportunidade de obterem novos conhecimentos sobre o fazer artístico.

No mês de setembro, o barco-museu – também conhecido como Santa Maria, nome original da antiga embarcação que realizava o transporte de passageiros – ancorou na Ilha do Ferro (Pão de Açúcar), Entremontes (Piranhas) e Belo Monte, com o propósito de promover oficinas arte-educativa na região. Nesta edição, nomes como o do documentarista Celso Brandão e do fotógrafo Juarez Cavalcanti estiveram na lista dos oficineiros convidados. A iniciativa contou com o patrocínio da Funarte, e o apoio do Sebrae Alagoas e da galeria Karandash.

O casal de artistas viuais Maria Amélia e Dalton e Ricardo Lima no barco-museu mantido pela galeria (Foto Pablo de Luca)

O casal de artistas visuais Maria Amélia e Dalton e Ricardo Lima no barco-museu mantido pela galeria (Foto: Pablo de Luca)

Em entrevista ao blog Graciliano On-line, o casal de artistas falou sobre as perspectivas de disseminar a arte em Alagoas, como criar um diálogo com o grande público e revelaram também os detalhes de seus novos projetos. Com a palavra, Maria Amélia e Dalton Costa.

Como surgiu a ideia de fundar a Galeria Karandash?
Maria Amélia Vieira – Em 1985. A necessidade de um espaço que abrigasse a arte contemporânea de Alagoas, o nosso próprio trabalho e exposições de artistas brasileiros eruditos foi o mote para iniciarmos um caminho como galeristas. A época pedia isso. Éramos muito jovens, questionando o mercado de arte, buscando caminhos, assumindo riscos. Enfim, éramos um casal de artistas capaz de enfrentar todas as feras com as armas que tínhamos: ousadia, alegria e criatividade.

Dalton numa entrevista concedida ao jornal “Gazeta de Alagoas” afirmou que o espaço trouxe uma nova perspectiva de disseminar a arte em Alagoas. Qual seria ela?
Dalton Costa – Na descoberta de novos artistas, novos valores, sobretudo os artistas populares que não têm uma vitrine para expor os seus trabalhos. Na documentação que a Karandash reuniu em 30 anos de pesquisa – textos, banco de imagens, vídeos.

dalton e as crianças JUAREZ CAVALCANTI

Dalton Costa (Foto: Juarez Cavalcanti)

Considerados como os grandes responsáveis pelo sucesso e pela permanência da Galeria, de que forma vocês conseguem se manter no mercado de arte no nosso estado?
Dalton Costa – Desenvolvendo um trabalho de vanguarda, trabalhando com seriedade e compromisso com o dia-a-dia da galeria e os clientes. Lembrando que o mercado lá fora também conhece e valoriza o nosso trabalho

Existe público consumidor para a cultura popular em Alagoas?
Maria Amélia Vieira – Muito reduzido. Com exceção de alguns poucos colecionadores.

Como vocês buscam criar um diálogo com o grande público, com o intuito de despertar nele o interesse de conhecer o espaço que abriga um acervo tão valioso?
Maria Amélia Vieira – Através de projetos culturais via editais, com exposições itinerantes, exibição de vídeos documentários produzidos pela Karandash, parcerias em mostras nacionais e internacionais, visitas guiadas com escolas da rede pública e privada.

Atualmente, vocês desenvolvem os projetos Tecendo a Manhã e O Museu no Balanço das Águas nas cidades de Pão de Açúcar e Piranhas. Como nasceu a ideia de estender o trabalho de vocês além da galeria?
Maria Amélia Vieira – Necessidade de ampliar o universo da nossa arte e do nosso acervo para novos segmentos de publico, oferecendo não somente Imagens, e sim, possibilidades de crescimento e descobertas.

Fale um pouco sobre cada um desses projetos e seus objetivos.
Maria Amélia Vieira – O Projeto Tecendo a Manhã foi contemplado no Programa de Apoio ao Artesanato Brasileiro e tem o patrocínio da Caixa Cultural, Ministério da Cultura e Sebrae Alagoas. O Centro Universitário CESMAC abrigará na Galeria Fernando Lopes uma exposição dos belos produtos em 100% linho, que foram desenvolvidos durante o projeto. Será uma oportunidade rara para o público conhecer as bordadeiras de Entremontes e da Ilha do Ferro. A mostra estará aberta a visitação a partir do dia 29 de agosto.

Já o Projeto O Museu No Balanço Da Aguas, recebeu o premio no Edital Conexões da Funarte, com nota máxima. O Barco museu levará um grupo de artistas para três comunidades ribeirinhas, propondo um intercâmbio com oficinas gratuitas de fotografia, escultura, objetos pictóricos, técnicas de xilogravura. Os artistas instrutores são: Rubem Grilo, Adriana Maciel, eu, Celso Brandão, Dalton e Juarez Cavalcante. Contamos com a sensibilidade de Pedro Octávio que registrará em vídeo as ações do projeto. Para a viagem levaremos materiais específicos para as oficinas e uma energia maravilhosa em nossos corações. Estamos descobrindo novos Brasis.

Como acontecem as ações destinadas às crianças, adolescentes, escultores populares e bordadeiras de povoados às margens do rio São Francisco?
Maria Amélia Vieira – Tudo é muito espontâneo. As coisas acontecem de forma muito lúdica, prazerosa, feliz.

Levar informação cultural para os alagoanos, tanto por meio dos projetos que vocês desenvolvem, quanto através da Galeria Karandash é um grande desafio. O quê os motivam a atuar na promoção da nossa cultura?
Maria Amélia Vieira – Não sabemos fazer outra coisa. Somos artistas de corpo e alma. Não temos energia para o que não seja arte. A vida nos motiva a ir um pouquinho mais. Cada dia um pouquinho mais. Revelando o que somos.

SERVIÇO
O quê: Galeria Kandash
Onde: Av. Moreira e Silva, 89, Centro
Mais informações: 3221-0883

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