Bienal 2013
Modernidade e espiritualidade segundo Frei Betto

Modernidade e espiritualidade segundo Frei Betto

O escritor e religioso Frei Betto levou centenas de pessoas ao Teatro Gustavo Leite, neste quarto dia da VI Bienal Internacional do Livro de Alagoas. Com a palestra intitulada “Sociedade no século XXI: A crise da modernidade e espiritualidade”, o autor de 57 livros questionou os valores da sociedade em que vivemos.

“Diferente dos nossos avós, que viveram uma época de mudanças, estamos vivendo uma mudança de épocas”, disse ele, lembrando que a última vez que a humanidade passou por um momento como esse foi há mais de 500 anos, na transição da Idade Média para a Modernidade.

“Antigamente os jovens admiravam seres altruístas, como Ghandi. Hoje em dia, admiram quem tem poder, dinheiro, beleza e fama”, alegou, questionando sobre o que as pessoas valorizam nos dias atuais. Segundo ele, essa característica de grande parte dos jovens – e não só dos jovens – de hoje, se reflete em situações muito corriqueiras como, por exemplo, quando um jovem não dá lugar a uma senhora de idade no ônibus.

O escritor, durante a palestra, questionou grandes avanços decorrentes da evolução da ciência e da tecnologia, dizendo que o capitalismo corrompeu as conquistas da modernidade. “Existem avanços, sim, mas em cima de uma brutal desigualdade social. No mundo, 35 mil crianças morrem, diariamente, em decorrência da desnutrição. A tecnologia fez o homem pousar na Lua, mas ainda não conseguiu fazer pousar um pouco de comida na barriga de milhões de crianças”.

Segundo Frei Betto, a crise da modernidade é resultado da perda de identidade dos quatro pilares da sociedade: Família, Igreja, Estado e Escola. Com a mudança dos tempos, a identidade desses pilares precisam se renovar, os perfis mudam com as épocas.

O modelo de família que temos hoje – de casais que casam porque se amam, independente do sexo – surgiu com a Modernidade. Antes, os casamentos eram arranjados (como ainda são em alguns países do Oriente).

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Palestra de Frei Betto lotou o Teatro Gustavo Leite (Fotos: Taynara Pretto)

A escola, segundo ele, está perplexa e sem conseguir acompanhar as mudanças tecnológicas. “Muitas crianças, desde cedo, têm acesso à internet. E, algumas delas, às vezes acham que podem ensinar os professores. Então a escola precisa se adequar a essa revolução tecnológica e levar a internet para dentro da sala de aula”.

Frei Betto falou também sobre a influência da mídia e denominou hipnose coletiva a intenção de programas como o Big Brother. “A escola quer formar cidadãos. A mídia quer formar consumistas”, alegou, dizendo que vivemos numa sociedade onde criamos necessidades que não existem. “Diariamente vemos pessoas frustradas, sofrendo por inutilidades, tomando remédios para segurar ambições desmedidas”.

Para ele, essas necessidades são criadas já na infância, com comerciais que atingem as crianças, seres que possuem grande poder de persuasão. Esses comerciais tornam o desenvolvimento das crianças precoce – desde cedo querem pintar unhas, usar maquiagem – tornando-os biologicamente infantis e psicologicamente adultos.

O escritor, muito aplaudido, encerrou sua participação com a leitura de um texto que fala sobre espiritualidade e religião, presente em seu último livro “O que a vida me ensinou”. Leia o texto na íntegra abaixo.

***

Espiritualidade e religião se complementam mas não se confundem. A espiritualidade existe desde que o ser humano irrompeu na natureza, há mais de 200 mil anos. As religiões são recentes, não ultrapassam 8 mil anos de existência.

A religião é a institucionalização da espiritualidade, assim como a família é do amor. Há relações amorosas sem constituir família. Do mesmo modo, há quem cultive sua espiritualidade sem se identificar com uma religião. Há inclusive espiritualidade institucionalizada sem ser religião, como é o caso do budismo, uma filosofia de vida.

As religiões, em princípio, deveriam ser fontes e expressões de espiritualidades. Nem sempre isso ocorre. Em geral, a religião se apresenta como um catálogo de regras, crenças e proibições, enquanto a espiritualidade é livre e criativa. Na religião, predomina a voz exterior, da autoridade religiosa. Na espiritualidade, a voz interior, o “toque” divino.

A religião é uma instituição; a espiritualidade, uma vivência. Na religião há disputa de poder, hierarquia, excomunhões e acusações de heresia. Na espiritualidade predominam a disposição de serviço, a tolerância para com a crença (ou a descrença) alheia, a sabedoria de não transformar o diferente em divergente.

A religião culpabiliza; a espiritualidade induz a aprender com o erro. A religião ameaça; a espiritualidade encoraja. A religião reforça o medo; a espiritualidade, a confiança. A religião traz respostas; a espiritualidade suscita perguntas. As religiões são causas de divisões e guerras; as espiritualidades, de aproximação e respeito.

Na religião se crê; na espiritualidade se vivencia. A religião nutre o ego, pois uma se considera melhor que a outra. A espiritualidade transcende o ego e valoriza todas as religiões que promovem a vida e o bem.

A religião provoca devoção; a espiritualidade, meditação. A religião promete a vida eterna; a espiritualidade a antecipa. Na religião, Deus, por vezes, é apenas um conceito; na espiritualidade, uma experiência inefável.

Há fiéis que fazem de sua religião um fim e se dedicam de corpo e alma a ela. Ora, toda religião, como sugere a etimologia da palavra (religar), é um meio para amar o próximo, a natureza e a Deus. Uma religião que não suscita amorosidade, compaixão, cuidado do meio ambiente e alegria, serve para ser lançada ao fogo. É como flor de plástico, linda, mas sem vida.

Há que tomar cuidado para não jogar fora a criança com a água da bacia. O desafio é reduzir a distância entre religião e espiritualidade, e precaver-se para não abraçar uma religião vazia de espiritualidade nem uma espiritualidade solipsista, indiferente às religiões.

Há que fazer das religiões fontes de espiritualidade, de prática do amor e da justiça, de compaixão e serviço. Jesus é o exemplo de quem rompe com a religião esclerosada de seu tempo, e vivencia e anuncia uma nova espiritualidade, alimentada na vida comunitária, centrada na atitude amorosa, na intimidade com Deus, na justiça aos pobres, no perdão. Dessa espiritualidade resultou o cristianismo.

Há teólogos que defendem que o cristianismo deveria ser um movimento de seguidores de Jesus, e não uma religião tão hierarquizada e cuja estrutura de poder suga parte considerável de sua energia espiritual.

O fiel que pratica todos os ritos de sua religião acata os mandamentos e paga o dízimo e, no entanto, é intolerante com quem não pensa ou crê como ele, pode ser um ótimo religioso, mas carece de espiritualidade. É como uma família desprovida de amor.

A espiritualidade deveria ser a porta de entrada das religiões.  Antes de pertencer a uma Igreja ou a uma determinada confissão religiosa, melhor propiciar ao interessado a experiência de Deus, que consiste em se abrir ao Mistério, aprender a orar e meditar, penetrar o sentido dos textos  sagrados.

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Frei Betto responde questões feitas pela plateia (esquerda) (Fotos: Taynara Pretto)

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