Bienal 2013
Caetés: o ensaio da obra Graciliano Ramos

Caetés: o ensaio da obra Graciliano Ramos

É curiosa a trajetória da publicação de “Caetés”, primeiro romance de Graciliano Ramos. Foi graças à repercussão nacional dos relatórios em que o mestre Graça, à frente da prefeitura de Palmeira dos Índios, prestou contas da sua gestão ao então governador do estado, que a obra pode ser publicada.

Escritos numa linguagem inusitada para os textos dessa natureza, em especial, pela ironia e o tom mais coloquial contidos neles, os documentos têm repercussão nacional.

Com comentários em vários jornais do país e transcritos na íntegra em alguns deles, o texto chega ao conhecimento do poeta Augusto Frederico Schmidt, dono da editora Schmidt.

Admirado com a qualidade da escrita, o editor fica interessado no escritor alagoano, que logo se oferece a publicar o primeiro romance de Graciliano, “Caetés”.

No entanto, isso ocorre somente em 1933, três anos após o mestre Graça lhe enviar os originais, por uma razão banal: Schmidt havia esquecido por longo tempo os originais no bolso de sua capa de chuva e não conseguia encontrá-los.

Considerada a obra percursora de um estilo que irá amadurecer nos romances posteriores, “Caetés” completa oito décadas desde a sua primeira publicação neste ano. Para discutir o livro, estiveram reunidos na noite de ontem (29) o professor da Usp Erwin Torraldo, Elizabeth Ramos e Ricardo Ramos (neta e filho de Graciliano Ramos, respectivamente).

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Professor da Usp Erwin Torraldo, Elizabeth Ramos e Ricardo Ramos (neta e filho de Graciliano Ramos, respectivamente) (Fotos: Francisco Ribeiro)

Ensaio
Enquanto escritor, o anseio de Graciliano Ramos residiu no maior desafio de quem se propõe ter a palavra como ofício: não repetir modelos que foram representativos no seu tempo.

“Ele ensaiou em ‘Caetés’ uma nova estrutura narrativa”, afirmou Erwin Torraldo.

Segundo Torraldo, Graciliano tinha em mente a realização de um duplo projeto em seu primeiro livro: “Escapar a descrição da crônica, o naturalismo. E estabelecer a relação entre objetividade e subjetividade”. “Por isso, 80 anos depois da obra ser lançada, estamos reunidos agora a discutindo”, disse.

“Caetés” narra à história de João Valério, um homem introvertido e fantasioso, que se apaixona por Luisa, mulher de Adrião, dono da firma comercial em que trabalha. O caso amoroso é denunciado por uma carta anônima, levando o marido traído ao suicídio. Arrependido, João Valério afasta-se de Luisa, continuando, porém, como sócio da firma.

O escritor retrata, em suas páginas, o dia-a-dia da cidade que, por um breve tempo, administrou. “Ali já está tudo direitinho. Tudo o que ele odiava, o que destrói o homem. O verniz de um romance que traz o ser humano cru, rasgado, de uma maneira fascinante”, analisou Elizabeth Ramos.

Após o bate-papo com o público, às 19h30, os atores Chico de Assis e Paulo Poeta interpretaram trechos das obras e algumas crônicas de Graciliano Ramos.

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Os atores Chico de Assis e Paulo Poeta interpretam textos de Graciliano Ramos (Fotos: Francisco Ribeiro)

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