Bienal 2013, Literatura
Do cancioneiro português à cultura popular brasileira

Do cancioneiro português à cultura popular brasileira

Que a cultura popular brasileira tem muito do imaginário português, muita gente já sabe. Mas essa relação ficou ainda mais clara para os que participaram, nesse penúltimo dia da VI Bienal Internacional do Livro de Alagoas, da palestra-conversa de Bernardo Constant e Marcelo Marques.

As semelhanças e a relação entre o cancioneiro português e a cultura popular brasileira foi o tema central da fala dos dois estudiosos, que utilizaram a literatura de cordel, tão presente na nossa cultura – principalmente na nordestina – para mostrar como a tradição se mantém, ainda que modificada, quando sai de Portugal para o Brasil.

Para avivar essa relação na plateia presente, Marcelo e Bernardo colocaram para tocar alguns romances portugueses, a exemplo do Romance da Minervina, e perguntaram ao público quais memórias eram ativadas a partir daquele som. Para alguns, veio a imagem de pessoas com vestimentas medievais mas, para muitos, uma cena passada no sertão, com seca, sofrimento e tristeza.

A literatura de cordel portuguesa surgiu a partir das narrativas dos típicos romances portugueses – poemas épico-líricos cantado com acompanhamento instrumental – que eram documentados e impressos para serem vendidos em feiras.

Já o cordel brasileiro, apesar de um formato semelhante de distribuição das ideias, se difere do português na sua forma de composição e também nos seus temas. O cordel brasileiro fala sobre qualquer assunto, seja do passado ou do presente, não se restringindo apenas a temas religiosos ou a histórias tradicionais do país, como no caso de Portugal.

A mesa também abordou a relação entre o erudito e o popular pois, em Portugal, a literatura de cordel era feita e vista como algo da elite e, no Brasil, foi, por muitos anos, marginalizado. Definiram o conceito circularidade cultural, em que não somente a cultura erudita influencia na formação da dita cultura popular, mas que o inverso também ocorre.

“A distinção entre popular e erudito é um produto da própria cultura erudita, e surge para demarcar um espaço de alteridade em que se encontram aqueles relegados à ignorância ou capazes somente de uma forma diminuída de expressão cultural”, disse Bernardo.

Para exemplificar as semelhanças, principalmente da métrica utilizada, Bernardo e Marcelo apresentaram, além de romances portugueses, canções de brasileiros como Zé Ramalho e Siba.

Os palestrantes ressaltaram que o cordel é deve ser definido pelo seu modo de fazer poesia, e não pelo suporte em que é repassado, seja ele por meio da oralidade ou da escrita. “Nem todo folheto é cordel e nem todo cordel é folheto. O cordel se libertou do suporte tradicional e hoje deve ser identificado não como a poesia que é veiculada em formato de folheto e vendido nas feiras, mas sim como gênero próprio”, disse Marcelo.

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