Cinema, Entrevista
Beto Brant em movimento

Beto Brant em movimento

PENEDO, AL – O cineasta Beto Brant está em movimento. Enquanto não assume a direção de nenhum novo longa-metragem, ele ou coloca a mochila nas costas e desbrava diferentes pedaços do Brasil, ou aproveita para desenvolver projetos audiovisuais bastante ousados. “Eu não fico parado. Porque o que me move não é o (cinema) negócio, mas sim o olhar. É a disposição para andar pelo mundo”, disse.

Com sete filmes no currículo e 15 anos de estrada, o cineasta paulistano possui uma carreira digna de nota. Seu longa mais recente, “Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios”, levou vários prêmios, entre eles o de melhor filme no festival de Huelva e na Mostra São Paulo e de melhor atriz para Camila Pitanga nos festivais do Rio e do Amazonas.

Convidado especial da terceira edição do Festival de Cinema Universitário de Penedo, Beto exibiu na noite de ontem (15) o seu curta-metragem “Manifesto Makumbacyber”, ao ar livre, na Praça 12 de Abril. Realizado pelo coletivo Fata Morgana, o filme nasceu de forma espontânea, a partir da performance do artista multimídia, músico, cantor e compositor Xarlô, que professa, em uma manifestação, as raízes da cultura africana.

Em entrevista ao blog Graciliano On-line, o diretor falou sobre o desafio de filmar de forma colaborativa, como é fazer cinema independente no Brasil e muito mais. Confira.

GRACILIANO ON-LINE – Passados mais de 15 anos, você retorna a direção do curta “Manifesto Makumbacyber”. Porque você optou por voltar a filmar nesse formato?
BETO BRANT – Na verdade, nunca deixei de fazer curtas. Eu os fazia em paralelo aos longas. Porque o curta é sempre um exercício, é como um conto. Nesse caso do “Manifesto…”, foi um poeta e multiartista (cantor, diretor de espetáculos músicais) chamado Xarlô, que é autor de uma poesia citada no livro “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” – o meu último longa-metragem. Então, a Simone Sou, que fez a trilha sonora do filme, me apresentou ao Xarlô e ele me disse que tinha há 10 anos uma vontade de registrar o manifesto que vem fazendo em seus diversos shows. Existe um projeto chamado Catarse, em São Paulo, que reúne toda cena da música alternativa independente. Durante uma semana, acontecem treze shows de 15 minutos. E eu filmei o manifesto feito lá nesse evento e também no Ilú Obá De Min, que é um bloco de mulheres que militam na divulgação e na luta de direitos dos afro-descentes.

Dirigi-lo de forma colaborativa foi um desafio?
Eu continuo tendo uma produtora com o meu sócio Renato Ciasca, com quem estudei junto na universidade e dirigi o meu primeiro curta e fiz dois longas – “Cão sem dono” e “Eu receberia…”. Só que tem alguns projetos que eu faço, os quais não posso ser dono, porque é uma ação coletiva. Sem pessoa jurídica. É uma ação entre amigos através do coletivo Fata Morgana. Toda a nossa produção a gente disponibiliza na internet, porque não temos intenção de comercializar. A gente faz para se expressar mesmo.

Quais são as possibilidades do curta-metragem entrar no circuito comercial? De que forma essa realidade poderia acontecer no país?
Tiveram algumas iniciativas que aconteceram no espaço Itaú, do Ademar Oliveira, numa ação conjunta com a Petrobras. A ação promovia uma sessão de curta, às seis horas da tarde, todos os dias da semana. Eu acho legal isso, porque você cria uma sessão para um público que vai interessado no curta. Na época em que eu comecei a fazer curtas, existia a lei de obrigatoriedade que obrigava a exibição deles antes do início das sessões de cinema. Não acho isso a coisa melhor. Porque você vai para o cinema, para um ingresso, e antes do filme iniciar já tem um monte de trailer, filme de segurança… e quando você vai ver o filme vai começar após 10/15 minutos do início da sessão. E se tiver um curta, vai começar meia hora depois. Isso quebra as sessões. A não ser que seja um filme muito curto, mas um curta hoje que tem em média 15 minutos não dá passar no cinema. Acho que tem que ter certos editais e exibidores que acreditem no interesse do público para assisti-los. Sobretudo, essas cadeias, esses grupos que possuem várias salas. Já quem produz e distribui tem que fazer as suas ações de divulgação através da internet e tal. Mas outro caminho muito mais contemporâneo e efetivo que eu tenho feito hoje é lançar o filme diretamente na internet.

A violência e a presença do indivíduo marginalizado estão bastante presente em seus filmes. A que se deve a opção por tais temáticas?
Eu acho que é você está sensível ao que se passa ao redor. A vida brasileira tem isso. Eu vivo em São Paulo, um estado onde existe uma tensão social muito forte. Essa preocupação e essa sombra da violência é uma coisa presente. Mas, não foram todos os meus filmes que retrataram a violência. De sete curtas, três não têm essa temática. “Eu receberia…”, que irá ser exibido no festival, fala sobre a violência numa cidadezinha no interior do Pará. E acho muito legal inclusive que esse filme passe numa cidade como Penedo, que tem suas causas e demandas. Para as pessoas que vivem próximas ao rio, que enfrenta esse processo de degradação que já vem de longa data. Hoje mesmo eu estava aqui na praça e vi um manifestação em defesa da vida do rio, cobrando atitudes de empresas que trabalham com energia e que precisam mudar o comportamento. Eu acho que no momento estou falando sobre violência é sobre algo que existe e está presente na sociedade. E que eu estou sensível a isso. Eu não exploro esteticamente a violência, como, por exemplo, nos video-games. Até porque os meus filmes têm uma tensão e uma violência psicológica, mas nem sempre existe a fotografia da violência, do gesto da agressão.

Apontado como seu filme de maior potencial popular, “Eu receberia…” vem depois de “Schianberg”, que possui um caráter mais experimental. Como é transitar por esses dois universos, que são de certa forma tão distintos?
Eu não tenho preconceito com a novidade. Eu acho que novas tecnologias e novas possibilidades me jogam em novas experiências. Eu não gosto de me repetir naquilo que deu certo uma vez só para me garantir. Eu gosto mesmo é de está aberto para a experimentação. No caso de “Schiamberg” é o primeiro filme que eu fiz baseado no livro “Eu receberia…”, do escritor Marçal Aquino. Ele conta a história de um personagem secundário na obra. E eu propus o projeto para fazer uma série para a TV Cultura, com uma direção experimental. Então, ao invés de fazer um cinema para tevê, eu tentei criar um projeto que trabalhasse com a linguagem da tevê. Portanto, eu propus uma espécie de reality show entre artistas, que viveram durante três semanas dentro de um apartamento. E eu vivia no apartamento do lado com oito câmeras robotizadas e acompanhando essa vivência deles de construir uma vídeo arte num período de três semanas. Não existe um roteiro. Foi uma construção experimental. Que ao invés de estar ali para a disputar de um prêmio, havia uma tentativa de construírem os dois juntos uma obra. No final, a artista buscava mostrar para o ator a obra que ela construiu junto com ele.

Como é produzir “cinema independente” no Brasil?
O cinema independe é amplo demais. Ele é desde o filme que você vai ver na Praça (12 de abril), até o que você vai ver na tela já com um procedimento empresárial (através da captação de recursos, de contração de pessoas, tem compromisso com investidores). Eu me sinto também muito entusiasmado com essas possibilidades de você fazer um filme com tecnologia digital e não depender da burocracia, desse arranjo todo que é complicado. Os instrumentos existem para você fazer um filme e tentar acessar esse mercado comercial, do circuito de salas, tentar colocar em tevês. Eu também não quero abrir mão disso. Porque eu já tenho sete filmes nesse modelo, tenho um modelo, tenho  uma história, uma credibilidade, pois os meus filmes foram todos executados dentro dos cronogramas, dos orçamentos. Dentro do que eu tinha me comprometido a realizar. Então é um jogo, um caminho, um combate que me interessa. Só que nessas entressafras, pois um filme demora muito tempo para ser realizado, eu vou filmar com meus amigos. Eu não fico parado. Porque o que move, sobretudo, não é o negócio, mas sim o olhar. É a disposição de andar pelo mundo. 

Assista “Manifesto Macumbacyber” abaixo.

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