Cinema
Por eles mesmos

Por eles mesmos

O cinema é uma arte coletiva. Essa frase pode soar como clichê, mas ainda é a que melhor traduz a essência do trabalho de quem se propõe a ser um realizador audiovisual. E é esse espírito colaborativo entre diretores, roteiristas, produtores e outros profissionais da área que se tornou um dos principais responsáveis por impulsionar o atual período do eferverscência que o cinema alagoano vivencia.

“Nós estamos produzindo curtas metragens, sobretudo, por conta da união entre os amigos”, diz Paulo Silver, 20, sentado próximo ao bloco do curso de Comunicação Social (COS), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), ponto de encontros dos jovens universitários que se descobriram cineastas.

O resultado de uma dessas parcerias já rendeu três fruto: os curtas Lixo, de Paulo Silver, Menina, de Amanda Duarte e Maysa Reis, e 12:40, de Dário Jr. Este último, vencedor do prêmio Velho Chico de Cinema Alagoano, na segunda edição do Festival de Cinema Universitário de Alagoas, realizado em Penedo.

A estudante de jornalismo da Ufal Amanda Duarte conta como tudo começou. “Sempre quis fazer algo relacionado ao audiovisual, mas não tinha a oportunidade por conta da falta de recursos e equipamentos no COS. Mas a partir da oficina Da Lauda ao Filme pude aprender mais sobre a técnica e amadurecer bastante minhas ideias para a construção fílmica”.

Ministrada pelo professor dos cursos de Comunicação Social e cineasta Almir Guilhermino, a oficina que visou apresentar os vários aspectos que compõe a linguagem cinematográfica é considerada por esses universitários como um divisor de água nas suas vidas.

“A oficina, na verdade, aconteceu em função da minha indignação com o sucateamento do COS, especificamente, do nosso estúdio de vídeo. Diante dessa situação, me questionei sobre qual sentido vai ter daqui para frente se eu sempre procurei conciliar a teoria e a prática. Sempre me considerei mais uma pessoa de cinema do que um professor”, afirma Guilhermino, diretor de Tana’s Take (1986).

Inconformado com os rumos que o curso tomava, ele buscou parceria com a Pró-Reitoria de Extensão da Ufal visando apoio financeiro para a produção de dois filmes, os quais seriam os produtos finais da oficina Da Lauda ao Filme, realizada em março do ano anterior. “A proposta foi aceita pela vice-reitora Rachel Rocha e recebemos uma verba de mais de 7 mil reais”, lembra.

Com esse valor foram produzidos os curtas 12:40, de Dário Jr., e Menina, de Amanda Duarte e Maysa Reis.

Sem recursos
Seja em filmes com verbas minúsculas ou em produções maiores, o cinema produzido por Paulo e Amanda, ao lado dos colegas de curso Isis Silva, Maysa Reis, Viviane Araújo, e Dário Jr, é marcado pela criação coletiva e o caráter independente.

O resultado dessa empreitada são filmes ousados que têm obtido boas críticas, prêmios e espaço em festivais realizados em outros estados, a exemplo de 12:40, que participou do 23º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, e Menina, que será exibido hoje (28), no Cine Chinelo NoPE, e neste sábado (30), no Curta Alagoas – Mostra de Filmes Alagoanos, promovido pelo Sesc Alagoas.

“Dessa experiência de fazer audiovisual o que mais me marcou foi a coletividade. Naquele momento eu pude perceber a entrega de cada uma das pessoas que se envolveram, principalmente, com o 12:40 e a oficina. Eles se desprenderam de tudo para embarcar nessa”, conta Dário Jr., 40, estudante de Jornalismo da Ufal.

Após a produção dos curtas metragens 12:40 e Menina, o grupo agora se dedica à realização de filmes sem nenhum apoio ou patrocínio.

Filmada em fevereiro, com apenas R$ 400 de orçamento, a mais recente produção dos jovens cineastas é intitulada Lixo. A história narra um dia na vida de dois personagens – um catador de lixo e um jovem ‘playboy’ – que vivem na mesma cidade, mas habitam universos diferentes. O roteiro e a direção são assinados por Paulo, que já atuou como assistente de direção e na produção dos dois curtas feitos pelo grupo. O rodízio na equipe e a falta de hierarquia é a marca dessa espécie de “coletivo audiovisual”.

Como orientador da iniciativa, Guilhermino pontua: “O meu trabalho foi deixar os meninos mais à vontade e permitir que eles dirigissem seus próprios filmes. E isso foi uma experiência muito gratificante porque o Dário Jr., que foi diretor de 12:40, trabalhou no filme da Amanda e da Maysa como assistente de direção. E assim foi indo. Eles trocaram papéis. Então foi uma experiência recompensadora porque puderam ocupar outras funções no cinema.”

A seguir, você confere depoimentos de cada um dos seis jovens cineastas e de Almir Guilhermino, que encabeçou a iniciativa.

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“Existe, de certa forma, um pensamento individual nas pessoas que fazem cinema aqui. Eles querem fazer sozinhos e não estão a fim de partilhar ou pelo menos juntar outros curtas metragens para montar um longa de ficção. Ninguém quer e sabe o que eu digo? Eu vou fazer com a minha turma da faculdade porque o sucesso não subiu à cabeça. Existe a humildade de trabalhar 24 horas por dia no cinema e de poder discutir sua ideia numa oficina, submetê-la a críticas. Mas isso é um problema não só do cinema, mas da cultura alagoana em geral. Do artista que não quer dividir a espacialidade da tela com outra pessoa e acha que está fazendo cinema coletivo na medida em que contrata profissionais para fazer um filme. Quem ganha o reconhecimento não sou eu isoladamente, ou Dário, ou Maysa. E é isso que as pessoas que produzem filmes aqui não se tocaram. Elas vão para a Mostra Sururu torcendo para que o concorrente não tenha feito um filme melhor que o seu”, alfineta.
É cineasta e professor dos Cursos de Comunicação Social da Ufal

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“Fazia tempo que eu queria fazer algo na área do audiovisual, mas não tinha tido oportunidade por conta da falta de recursos e equipamentos no curso de Comunicação Social. Com a oficina pude aprender a parte técnica, mas também amadureci bastante minhas ideias para a construção fílmica. Uma experiência ótima, onde realmente aprendemos a trabalhar com o cinema, e que deve permanecer na universidade. O nosso curso estava muito carente da possibilidade de ir a campo, praticar. Contamos com o apoio da produtora Panan Filmes, em especial, do Henrique Oliveira, o que deu um resultado final mais profissional pra coisa”, destaca.
É estudante de Jornalismo pela Ufal. Codiretora e co-roteirista do curta Menina

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“Quando eu entrei na universidade logo comecei a me envolver com trabalhos relacionados ao cinema. Fiz junto com a Viviane um pequeno documentário no primeiro período do curso. Aí eu fui me envolvendo cada vez mais. Quando surgiu a oportunidade de participar da oficina, eu topei. Mas eu nunca me imaginei entrar na área cinematográfica”, 
É estudante de Jornalismo pela Ufal. Diretor e roteirista do curta 12:40

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“Cada um trabalha no filme do outro. A partir do momento que você trabalha num filme você quer mais e vai aprendendo mais. No filme Lixo, por exemplo, todo mundo atuou em várias funções.”
É estudante de Relações Públicas da Ufal. Foi continuísta nos curtas 12:40, Menina e Lixo. Neste último, também foi assistente de direção

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“Inicialmente, o tema tratado no curta Menina tinha um forte apelo sexual, mas após uma amiga da Amanda comentar sobre uma pesquisa feita por um professor de sociologia, na qual relatava a sua experiência ao se vestir de gari e trabalhar no bloco onde lecionava, o que o fez não ser mais reconhecido pelos alunos, amigos e colegas de trabalho, ela viu nesse estudo uma abordagem muito interessante. E mudamos o foco do filme. Reescrevemos o roteiro baseado na invisibilidade social. Nele contamos a história de uma auxiliar de serviços gerais que não interage com ninguém do trabalho, exceto pelos bilhetinhos de papel trocados pelos alunos em sala de aula, que ela lê depois do expediente. Ela faz isso para se sentir inserida, pertencente a algo. Tratamos de uma questão social por meio de uma perspectiva diferente”, observa.
É estudante de Relações Públicas pela Ufal. Codiretora e co-roteirista do curta Menina. Atuou como assistente de direção em Lixo e 12:40

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“O curta Lixo questiona o que realmente é o lixo para cada um. No total, onze pessoas trabalharam na sua produção. Foi um trabalho onde todo mundo se ajudou, assim como é o cinema que a gente tem feito. Por exemplo, o Dário além de assumir a direção de arte, interpretou o papel do catador de lixo. A gente tem conseguido desenvolver projetos audiovisuais por conta dessa união do grupo”, afirma.
É estudante de Jornalismo da Ufal. Diretor e roteirista do curta Lixo. Foi assistente de direção e produtor de 12:40 e Menina, respectivamente

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“O que marcou mesmo dessa experiência foi a correria das gravações. Atuei como produtora executiva e produtora do set. São mundos completamente diferentes. Meu primeiro contato teórico com o cinema foi a partir da oficina. Antes disso, nunca me imaginei trabalhando no cinema. Posso afirmar que foi com o 12:40 que eu me descobri como produtora. Eu vi que essa função me completava”, confessa.
É estudante de Jornalismo da Ufal. Produtora dos curtas Lixo, Menina e 12:40.

SERVIÇO
Curta Alagoas – Mostra de filmes alagoanos
Onde: Auditório Maron Emile Abi-abib, Sesc Poço
Quando: neste sábado (30), das 20h até às 6h. No final, será servido um café da manhã
Entrada gratuita
Classificação: 18 anos

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