Artes Visuais
Inquietações sobre Alagoas

Inquietações sobre Alagoas

Há um tom profético na arte. O cinema e a literatura, por exemplo, anteciparam os nossos temores em relação ao futuro.

Capazes de intuir sobre fatos ainda não concretizados no presente, os artistas tornaram-se os oráculos da modernidade. O fotógrafo e crítico de arte Francisco Oiticica Filho é um deles. Antes do levante popular realizado no mês de julho em diversas cidades do País, ele se debruçava sobre a questão da mobilidade urbana. Dentro do carro em movimento, Francisco capturou através da câmera do celular dezenas de imagens que compõem a sua mais recente exposição, “Real Alagoas”, que será aberta à visitação no Museu Théo Brandão, nesta sexta-feira (13), às 19h, e segue até o dia 22 de fevereiro.

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Francisco Oiticica Filho

Ele afirma que esse recurso foi utilizado porque “tanto facilitava a realização do trabalho quanto combinava com o assunto (mobilidade urbana), o motivo (carros, muros e calçadas), o automatismo e o movimento”.

A mostra, composta por fotografias e instalações, reúne cerca de 150 imagens, apresentadas em suportes variados. Na série “Múrmuro – Poética Involuntária das Ruas”, por exemplo, elas são exibidas na forma de vídeo.

Oiticica inaugura, segundo o diretor do museu, Wagner Chaves, “um espaço para produções artísticas contemporâneas que estabeleçam diálogo com temas e questões de interesse para a investigação antropológica”.

Outro ponto que permeia “Real Alagoas” é a violência. O artista discute essa temática através do lixo produzido pelo homem e sua incapacidade de lidar com os descartes de forma mais eficiente.

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“O homem enfrenta a dificuldade de se livrar das coisas que não lhe servem mais e ainda assim continua a produzir o que não lhe é realmente útil. O lixo é a manifestação da violência contra a si mesmo. Algo que é próprio da cultura humana e que ataca as bases da própria cultura”, comenta Oiticica.

O blog GRACILIANO ON-LINE esteve na mostra e fez um roteiro breve do que você poderá encontrar por lá.

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Na primeira sala, o espectador confere a série de imagens que batiza a exposição. “Real Alagoas é um ensaio sobre a mobilidade urbana vista através do ângulo do motorista, que capta as fotos através do celular”, conta o artista. É ainda nesse ambiente em que a temática do lixo aparece para os visitantes.

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Oiticica Filho usa as instalações visando a confluência entre a antropologia e as artes visuais. No circuito, entre outros itens, encontramos fotografias coladas em sacos plásticos preenchidos com jornais. Nesse espaço, “será discutida a questão da mobilidade urbana a partir da visão do pedestre que se depara com aquilo que não serve mais para as pessoas”.

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No salão central, Oiticica usa o caráter simbólico através de suas instalações. Lá, nos deparamos com cocos espetados em varas, que, segundo o artista, remetem à fotografia das cabeças do grupo de cangaceiros comandados por Lampião, expostas na escadaria da Igreja de Piranhas. “O que se depreende daí é a permanência da violência no ser humano contemporâneo”.

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“Mesmo com todo desenvolvimento tecnológico e todo aparato conceitual e científico, persiste esse forte impulso, essa tendência à violência na humanidade. Independentemente de onde você vá buscar exemplos disso, irá encontrar traços de selvageria do ser humano. Aquilo que faz o homem um ser selvagem, que escapa ao seu controle, algo contra o que ele nada pode fazer”, pontua.

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A quarta e última sala do circuito é para onde a exposição culmina. Nela, um corredor estreito leva o visitante em direção a uma mesma ponte, fotografada em dois ângulos diferentes. Segundo o artista, o espaço busca lançar perguntas relacionadas à contingência do viver.

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“E agora? Prossigo ou não? Interrompo aqui a minha caminhada ou atravesso a ponte? Ao atravessar, o que encontrarei do outro lado? E, se atravessar, eu conseguirei voltar?”, questiona Oiticica, afirmando que a exposição é uma grande alegoria, formada por um encadeamento de metáforas, tanto da alagoanidade como da humanidade.

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Além da exposição, outras atividades estão incluídas na programação. Na noite de abertura (13), às 17h, haverá o debate “Antropologia e Artes Visuais”, com a participação de Oiticica, da professora de História da Arte e arquiteta Carol Gusmão, e da professora de Antropologia e pesquisadora Fernanda Rechenberg.

No final, o público poderá conferir duas apresentações: do grupo Chegança Silva Jardim e da banda de rock Dof Láfá.

SERVIÇO
Abertura da exposição Alagoas Real, de Francisco Oiticica Filho
Onde: Museu Théo Brandão (av. da Paz, 1490, Centro)
Abertura: 13 de novembro, às 17h
Visitação: até 22 de fevereiro, de terça a sexta-feira, das 9h às 17h; aos sábados, das 14h às 17h
Entrada franca
Mais informações: (82) 3221-2651

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Um Comentário

  1. Francisco Oiticica

    12 dezembro 2013 at 14:33

    Completa reportagem, em respeito ao artista, à obra e à exposição. Obrigado, Chico Ribeiro e Editora Graciliano! Abraço, Francisco Oiticica.

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