Cultura popular
Criaturas fantásticas surgem pelas mãos de alagoanos

Criaturas fantásticas surgem pelas mãos de alagoanos

Desbravar o sertão de Alagoas surpreende quem espera assistir apenas a cenas de seca e miséria.  A quase vinte quilômetros do município de Pão de Açúcar, está localizada a Ilha do Ferro, um pequeno paraíso às margens do Rio São Francisco. A visita ao povoado é inusitada desde quando os moradores de Pão de Açúcar explicam como chegar até lá e se descobre que não se trata de uma comunidade insular. “Se for de barco, é difícil ter como voltar. Melhor ir de carro”, aconselham.

Os limites do povoado têm como marca uma mudança profunda na paisagem sertaneja: enquanto o trajeto de ida é marcado por uma estrada de terra batida cercada por cactos, árvores secas e gado magro, a entrada da Ilha encanta os visitantes, com uma vegetação verde, pequenas casas coloridas, cachorros deitados embaixo das árvores e barcos de pesca ancorados na beira do rio.

Não é só em sua paisagem que a Ilha do Ferro fascina. O imaginário coletivo de seus habitantes demonstra a fertilidade criativa do lugar, cuja fundação é um mistério até para seus moradores mais antigos. A história sobre o início do povoamento se confunde com lendas de seres mitológicos e elementos mágicos e se modifica ao longo do tempo, cada vez que um novo ser surge nos depoimentos dos contadores de história.              

O imaginário popular da Ilha do Ferro é traduzido pelas mãos dos artesãos da comunidade. Das raízes e galhos retorcidos encontrados na vegetação local e dos troncos de árvore trazidos pela correnteza do rio, os mestres entalham seres híbridos que ganham vida nas narrativas populares e criam mobiliário com características peculiares.

Paisagem da Ilha do Ferro (Foto: Renata Menezes)

Paisagem da Ilha do Ferro (Foto: Renata Menezes)

Transformação da madeira

Com peças expostas em grandes museus e com uma obra reconhecida internacionalmente, o mestre Fernando Rodrigues é o principal expoente da arte da Ilha do Ferro. Falecido há quatro anos, o mestre deixou um legado inestimável, entre esculturas, mobiliário e um livro inédito de contos de literatura fantástica, guardado a sete chaves pela sua filha, Rejânia Rodrigues.

Fernando começou o trabalho como artesão fabricando tamancos – ofício que aprendeu com o pai – e, depois, passou a trabalhar como marceneiro. Nessa época, fundou o Bar do Redondo, que recebeu esse nome pela mobília circular criada por ele e até hoje é ponto de encontro da comunidade.  Foi somente no fim dos anos 90 que Fernando iniciou a produção de suas esculturas de animais mitológicos que hoje são objetos de cobiça de colecionadores no mundo todo.

A tarefa de continuar o trabalho de Fernando foi dada a Valmir Lima, seu genro e herdeiro de sua oficina, que hoje é referência principalmente na confecção de cadeiras e bancos. Valmir revela que, antes de morrer, o sogro pediu a ele para continuar disseminando os contos que deixou escritos. “Eu entalho as histórias do seu Fernando nos bancos e em outras coisas que faço, do jeito que ele me pediu”, relata.

Teto do ateliê do mestre Fernando Rodrigues (Foto: Renata Menezes)

Teto do ateliê do mestre Fernando Rodrigues (Foto: Renata Menezes)

Sobre as peças que produz, Valmir faz questão de ressaltar a unicidade de cada uma delas. “Se você pedir pra eu fazer uma cadeira igual a essa, eu não vou conseguir, porque nunca vou encontrar uma raiz de árvore igual”, explica.

Em uma pequena oficina localizada aos fundos da casa em que vive com sua esposa, mestre Aberaldo, um dos mais velhos da Ilha do Ferro, trabalha lentamente enquanto fala sobre o processo de esculpir em madeira. Ele mostra que a unicidade das peças não é uma característica apenas da obra de seu Valmir, mas também de todos os outros artesãos da comunidade.

Conhecido principalmente por entalhar ex-votos e pássaros mitológicos, Aberaldo conta que deve haver uma espécie de conversa entre o homem e o pedaço de madeira para decidir que tipo de escultura pode surgir a partir daquele material. Nas peças espalhadas pela oficina, ele mostra que o formato do galho sofre poucas interferências durante o processo. “A gente sai pelo mato procurando um pedaço de madeira bom. Quando encontra, a gente vê o que dá pra fazer com ele”, explica.

Detalhe do espaço, agora ocupado por Valmir Lima, onde mestre Fernando Rodrigues produzia suas peças (Foto: Renata Menezes)

Detalhe do espaço, agora ocupado por Valmir Lima, onde mestre Fernando Rodrigues produzia suas peças (Foto: Renata Menezes)

No ateliê de Aberaldo, um mergulho no lado fantástico da Ilha

O lado mais fantástico da comunidade pode ser encontrado na oficina de seu Aberaldo, não somente pelas figuras humanas coloridas e amontoadas pelos cantos. O pequeno ateliê surpreende pela forte representação do misticismo do mestre, que guarda uma coleção de casulos de insetos pendurados por todo o teto, peles de animais e um crânio de bode para espantar maus espíritos – costume comum nas cidades de interior. “Eu já pedi a ele para se livrar desse monte de lixo que só junta casa de aranha, mas ele é teimoso”, reclama Vana, a esposa, enquanto Aberaldo ri.

Essa fantasia também é traço marcante dos escritos de seu Fernando, que envolve pessoas de sua família em situações inusitadas. Um exemplo é a história registrada na placa pendurada em seu antigo ateliê, que conta sobre o dia em que sua neta, Urânia, viajou em sua companhia e encontrou um “diamante” no chão. Na porta de sua casa, outra placa traz uma previsão do contador de histórias sobre a chegada de Santo Antônio à Praça da Boca do Vento, local de convivência da comunidade.

Peça confeccionada por seu Aberaldo (Foto: Renata Menezes)

Peça confeccionada por seu Aberaldo (Foto: Renata Menezes)

Na estrada de terra entre Pão de Açúcar e o povoado, está o sítio Estrelo, que chama a atenção pelas criaturas enormes, retorcidas e com longos dentes afiados que recepcionam os visitantes. O sítio pertence ao mestre Petrônio Farias, que explica que se inspira em seus pesadelos para entalhar as criaturas bestiais. “Foi o jeito que eu encontrei de me livrar dos pesadelos e de fazer alguma coisa diferente aqui na região”, completa.

No quintal de Petrônio, apodrecem lentamente pedaços de madeira que, segundo ele, estão guardados para momentos de inspiração. “Muitas vezes eu começo a trabalhar numa peça e desanimo, aí deixo pra lá e começo outra. Acho que eu gosto mais de entrar no mato pra procurar a madeira do que de fazer as esculturas”, fala o artesão, em meio a risadas.

Compartilhe

Posts Relacionados

Responder

Seu e-mail não vai ser publicado. Required fields are marked *