Entrevista, Literatura
O engenho de histórias de Sidney Wanderley

O engenho de histórias de Sidney Wanderley

É durante a infância, dizem, que se forma a personalidade do indivíduo. Marcada pela curiosidade, geralmente é nessa fase que se tem o primeiro contato com o mundo da literatura, seja ele de forma oral, visual, sensorial. Ouvir e presenciar histórias é importante para a formação de qualquer ser. Por meio desses contos abre-se um caminho absolutamente infinito de descobertas e de compreensão do mundo, estimulando a imaginação e as diferentes emoções.

A infância – e parte da adolescência – do escritor alagoano Sidney Wanderley foi daquelas regadas a bons livros e boas histórias. Sua cidade natal, Viçosa, em Alagoas, é cheia de personagens peculiares e histórias interessantes – e engraçadas.

Em 2014, parte desse passado do escritor virou livro. Em Cidade, Sidney revisita seus dias de infância e adolescência na cidade que, hoje, tem menos de 30 mil habitantes. Levado pela memória traiçoeira, pelo afeto incontido e pela imaginação, memórias e fantasias se misturam e resultam em um passado um tanto anárquico e ficcionalizado.

Nela, Sidney retrata causos como o do livreiro Manoel Acioli, proprietário de uma livraria no centro de Viçosa e a quem Sidney diz dever o amor desmedido aos livros; os dias de movimentação na pequena cidade, causada pela gravação do filme “São Bernardo”; entre tantas outras histórias impagáveis, que faz você se sentir íntimo de Viçosa e seus ilustres moradores.

Segundo o autor, a obra não retrata fielmente a Viçosa onde viveu seus dias de infância e adolescência, mas a Viçosa que inventou e lhe serve de confortável exílio. “Algo assim como uma Pasárgada bandeiriana, a que se somam boas doses de humor, lirismo e autoironia”, diz.

Editado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, será lançado nesta quarta-feira (30), às 19h, durante a edição de abril do projeto Munguzá Cultural, do Museu Théo Brandão. O blog Graciliano bateu um rápido papo com o autor e apresenta um pouco de Sidney e de Cidade. Confira.

GRACILIANO – No livro Cidade, você mostra que o gosto pela literatura está presente na sua vida desde criança – seja lendo a revista Placar ou romances de grandes escritores. Nas suas memórias de infância, em quais momentos a literatura está mais presente?

SIDNEY WANDERLEY – De início, na leitura dos gibis do Disney. Neles é que entrei em contato com a mitologia grega e as sagas viquingues. Depois, com os contos de Andersen, dos irmãos Grimm e de Perrault. Mais à frente, Monteiro Lobato, seu reino e suas reinações. E aos 13 anos, com O crime do padre Amaro (Eça de Queirós), Olhai os lírios do campo (Érico Veríssimo) e David Copperfield (Dickens).

Ter passado sua infância em Viçosa influenciou, de alguma forma, o seu gosto pela literatura?

Foi muito importante poder contar com a boa biblioteca paterna e com a livraria Acioli, onde adquiri os livros e gibis que menciono na pergunta anterior. Tive também um excelente professor de Português, o padre Severiano Jatobá. De quebra, um padrinho delirante e poeta, José Aragão.

Sua cidade natal lhe rendeu muitas (e boas) histórias. Até que idade você viveu em Viçosa?

Até 1972, todos os dias. De 1973 a 1980, nos finais de semana. De 1981 a 1985, todos os dias (trabalhava então no Banco do Brasil). De 1986 em diante, visito a cidade umas três vezes por ano. 

Você já cursou Medicina e Biologia. Quando decidiu que seria, além de biólogo e professor, escritor?

No primeiro ano de Medicina, ao cursar Anatomia, percebi a absoluta falta de vocação para esse curso e essa profissão. Danei-me a escrever poemas (na época, lia um bocado Drummond, Pessoa e João Cabral), e até hoje não me curei desta doença.

Em Cidade você revisitou seus dias de infância e adolescência para poder contar, de maneira peculiar, muito do cotidiano da cidade naquela época. Como foi o processo de criação do livro? Demorou ou foi algo que fluiu naturalmente?

Gastei 45 dias para escrevê-lo. Melhor dizendo, 45 noites. Sempre na rede e ouvindo jazz.

O que essa volta ao passado, que está tão presente na obra, representa para você?

Foi uma viagem bastante confortável e barata, além de terapêutica. Pude vasculhar os fantasmas do passado esquecido dos medos e pavores que eles me provocaram na infância. Optei pelo humor e por uma saudável nostalgia, em detrimento do amargor e da melancolia.  

A Viçosa retratada no livro é uma cidade com histórias e personagens encantadores, cada um à sua maneira. No livro há a mesma dose de memórias e fantasia, ou alguma sobressai?

A crônica de que mais gosto foi a última a ser escrita: “A feira”. É, a meu ver, a mais bem realizada literariamente. Nela há 10% de fantasia e 90% de memória.  

O humor é muito presente no livro, cheio de “causos” engraçados. Esse bom humor que você transmite é uma herança de Viçosa?

É uma herança de Viçosa, sim, mas sobretudo é uma característica minha. Há por lá também muita gente macambúzia e abusada.

Como você selecionou as memórias que fariam parte do livro? Alguma coisa ficou de fora? Viçosa e suas histórias poderiam render mais um livro?

Deixei de fora muitos “causos” que se prestavam tão só ao riso desbragado. Tentei evitar que o livro se convertesse num simples anedotário municipal. Viçosa e suas histórias/estórias podem certamente render mais outro livro. O tempo confirmará ou desmentirá essa expectativa.

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SERVIÇO

Munguzá Cultural com palestra de Sidney Wanderley e lançamento do livro Cidade
Onde: Museu Théo Brandão (av. da Paz, 1490, Centro)
Data: 30 de abril de 2014
Hora: 19h
Entrada franca

Livro Cidade
Editora: Imprensa Oficial Graciliano Ramos
Preço: R$ 20 (158 págs.)
Pontos de venda: Livraria Leitura (Parque Shopping Maceió), Livraria Viva (Jatiúca), Revistaria Porto Seguro (Farol), Edufal (Ufal Maceió), Imprensa Oficial (Gruta) e loja virtual da editora (http://www.imprensaoficial.al/livros)

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