Música
A floresta de Tulipa

A floresta de Tulipa

É difícil imaginar que alguém fique, um dia sequer, sem a presença da música. Seja por vontade própria de ouvir uma determinada música, de um cantor específico, ou involuntariamente, ouvindo “de longe” alguma melodia. Tulipa Ruiz costuma dizer que não passou nem um dia de sua vida sem a presença da música. O ambiente familiar favoreceu. Seu pai, o crítico musical e guitarrista Luiz Chagas, respirava música dentro e fora do trabalho, e sua mãe colocava os mais diversos vinis pra tocar na vitrola de casa. Mesmo com essa forte presença musical dentro de casa, Tulipa demorou para assumir seu lado cantora. Trabalhou em loja de discos, fez faculdade, se formou em Jornalismo e exerceu a profissão por quase dez anos, trabalhando também como ilustradora. Enquanto isso, cantava, informalmente, nas apresentações de amigos. Não fosse pelo “empurrãozinho” do amigo e também cantor Thiago Pethit, que a fez criar, em 2009, um perfil no site MySpace, talvez demoraríamos um pouco mais para descobrir uma das principais vozes da nova cena musical brasileira. Mas, como ela diz, tudo aconteceu no tempo certo, no tempo dela.

Com um timbre inconfundível e uma sonoridade ímpar, definida por alguns críticos como “pop ensolarado” e, pela própria, como “pop florestal” – uma brincadeira com essa coisa de ter que categorizar a música pois, segundo ela, o gênero é mutante e não deve se limitar – Tulipa floresceu para o grande público com seu disco de estreia, Efêmera. Com ele, a cantora paulista, criada no interior de Minas Gerais, figurou nas principais listas de Melhores do Ano, no ano de seu lançamento, 2010. Depois de uma turnê nacional, Tulipa levou seu Efêmera para alguns países da América do Sul, para os Estados Unidos e vários países da Europa, como França, Portugal e Inglaterra, onde lhe rendeu elogios rasgados do crítico Robin Denselow, do jornal The Guardian, um dos principais jornais do País.

Depois de Efêmera, veio a  responsabilidade do segundo disco. Um dos grandes desafios da carreira de um músico, após um disco de estreia bem criticado, é dar continuidade ao trabalho com a mesma qualidade demonstrada anteriormente, além de superar as expectativas e não se repetir. Com isso chegou, em 2012, Tudo Tanto. Um disco que, diferente do que diz a letra de OK, uma de suas músicas, não tinha “tudo pra ser aquilo tudo que todo mundo espera”. O segundo disco mostra uma Tulipa ainda mais à vontade e segura. Nele, ela assina, sozinha ou com parceiros, todas as 11 faixas, que são repletas de experimentos sonoros, exploração vocal e, ainda, muitos convidados, como Criolo, Lulu Santos, Kassin, entre outros.  

capas

Capas dos dois discos da cantora – Efêmera, de 2010, e Tudo Tanto, de 2012

É com este repertório mais recente, que Tulipa desembarca em Maceió amanhã, dia 8, no palco do Teatro Gustavo Leite. Graças ao projeto MPB Petrobras , o público alagoano vai matar a vontade de prestigiar a cantora, se contagiar com sua presença de palco e cantarolar suas músicas. O blog Graciliano On-line conversou por telefone com Tulipa e mostra, agora, o que rolou nesse bate-papo. Confira!

GRACILIANO – Você cresceu em um ambiente onde a música sempre esteve presente. Essa infância musical teve alguma influência na sua escolha de iniciar uma carreira na música?

TULIPA RUIZ – Eu venho de uma família de músicos. Meu pai e meu irmão tocam, meu irmão toca desde pequeno, e minha mãe sempre gostou muito de música. Então, na minha casa sempre tinha música em todos os ambientes. Eu cresci ouvindo os discos dos meus pais, que acabaram sendo meus discos de cabeceira. Minha escola foi a coleção de discos deles, foi aí que eu comecei a gostar de música e me interessar por música. Mas eu só decidi virar cantora, ter a música como ofício, em 2009. Demorei bastante. Eu morava em Minas, mudei pra São Paulo, fui fazer faculdade, trabalhar em agência e só depois que a música começou a virar uma coisa mais séria na minha vida. Mas ela sempre foi uma coisa informal, assim. Sempre gostei de cantar, sempre fiz aula de canto. Então a música era uma coisa que acontecia na minha casa, no meu dia a dia. Mas eu não tinha nem um plano de prosseguir com ela. Diferente do meu pai e do meu irmão, que sempre tiveram isso muito claro, muito definido.

Mesmo com a presença forte da música dentro da sua casa (e até fora dela, como quando trabalhou em uma loja de discos, por exemplo), você só se assumiu cantora depois de trabalhar anos como jornalista, como ilustradora e tempos depois de fazer participações em shows de amigos. Em algum momento você se arrepende de ter demorado para fazer essa escolha?

Não, em momento nenhum. Foi tudo muito no meu tempo. Foi no tempo da minha vontade. Eu vivi outras coisas antes que foram muito importantes pro meu jeito de fazer música, inclusive. Tudo o que aconteceu antes, todos os encontros e todos os trabalhos, acabaram virando ferramenta, até mesmo de composição e de criação.

Um pouco antes de você lançar seu primeiro disco, Efêmera, li uma entrevista onde você dizia que a música ainda não te sustentava, que você sobrevivia, naquela época, dos trabalhos que fazia como ilustradora. Demorou muito para essa realidade mudar?

Ela começou a mudar logo depois de Efêmera. Eu lancei o Efêmera e comecei a fazer muito show. E aí até o meu tempo pro desenho ficou menor. Hoje em dia eu continuo desenhando, mas a música toma a maior parte do meu tempo e é o meu trabalho, eu garanto minha vida com a música, hoje. E o desenho corre em paralelo. Eu continuo desenhando e fazendo meus trabalhos com ilustração. São os meus freelas (risos).

Você faz ilustrações mensais para o jornal Le Monde Diplomatique Brasil e, recentemente, lançou uma série de capas de cadernos pela Papelaria Cícero, em parceria com a Livraria Cultura. Tirando esses trabalhos, você ainda tira alguma parte do seu dia para desenhar?

Não existe uma regra, assim. Tem horas que eu paro e pego o caderno, pra fazer um desenho. Na estrada acontece mais. Estrada, pra mim, é um lugar onde eu produzo muito. Sempre que eu posso estar rabiscando alguma coisa, eu gosto. Então eu tenho essas coisas, como o Le Monde, fixo, mas outras coisas acontecem no meio do caminho.

flor_do_cerrado-tulipa-2

Um dos desenhos de Tulipa, que ainda faz trabalhos como ilustradora

Você disse em uma entrevista que, quando descobriu os discos do seu pai, se apaixonou primeiro pelas capas. Hoje, com as coisas cada vez mais virtuais, muitas vezes, por exemplo, ao baixar algum novo disco, o arquivo da capa nem está incluído. Você acha que o cuidado com a capa dos discos está diminuindo? Como cantora e também como ilustradora isso te incomoda?

Eu acho que tá diminuindo, sim. Esse tipo de comunicação tá se perdendo. Eu sou uma pessoa que, às vezes, quando eu baixo um disco, eu fico muito interessada para ver a ficha técnica. Em saber quem gravou, onde eles gravaram, se foi na Primavera. Eu adoro ler aquele “gravado na Primavera de tal ano”. (risos) Eu gosto de saber todas as coisas e, realmente, na internet, essas informações ficam fragmentadas. O próprio disco é fragmentado. Às vezes você baixa só uma música, você nem baixa o disco inteiro. Como eu tenho essa ligação, eu me interesso por isso. Os meus discos estão no meu site para download, assim como o pdf do encarte. Então é possível você baixar o encarte e ver o meu pensamento gráfico pra tudo aquilo, e também saber quem tocou na música 07. Eu acho isso muito importante. E outro pensamento que eu tenho também, agora, acho que é um desafio gráfico e contemporâneo, inclusive, por conta de tudo isso, é você pensar numa arte pro seu disco, que funcione no vinil, no cd e/ou no celular. Então acho que a gente tem que pensar, o desafio é muito maior. A gente tem que pensar numa escala que funcione em todos os tamanhos.

Seu pai fez parte da Vanguarda Paulista – famosa movimentação criativa que aconteceu em São Paulo no fim dos anos 70, começo dos 80. – E você, no início da carreira, junto com nomes como Tiê, Thiago Pethit, Dudu Tsuda e Tatá Aeroplano fez parte de um grupo chamado “Novos Paulistas”, responsável por apresentar alguns novos nomes da cena musical paulista. A Vanguarda Paulista, teve influência nessa nova onda da qual você fez parte?

Na verdade, foram dois shows que a gente fez. Eu, a Tiê, o Dudu Tsuda, o Tatá Aeroplano e o Thiago Pethit fomos convidados para esses dois shows e o nome do projeto era “Novos Paulistas”. Não era um nome de uma banda que a gente fez, e sim de um projeto que a gente participou. Então não tem uma influência direta da Vanguarda sobre isso, porque eram pessoas completamente diferentes, com influências muito variadas, que foram juntas participar de um projeto. Então a gente não considera isso como uma banda, e nem como um movimento, como foi a Vanguarda Paulista. A coincidência é que chamaram a gente pra um projeto com esse nome e a feliz coincidência é que éramos todos amigos. Independente de fazer música juntos. Então a gente topou por isso, a gente se gostava e foi tudo muito bom. Mas eu tenho uma influência direta da Vanguarda Paulista, porque meu pai fez parte, sei que o Tatá também gosta muito, Dudu Tsuda também. Sei que acaba tendo uma influência pra eles também, até pelo fato de eles serem músicos paulistanos. Então a Vanguarda Paulista acaba fazendo parte do repertório das pessoas que tão aqui.

Tulipa Ruiz 2 - Foto Rodrigo Schmidt (1)

Foto: Rodrigo Schimidt

Seu pai é uma grande influência pra você, e você e seu irmão possuem afinidades que vão muito além da música. Qual é o momento que você mais gosta de dividir com eles? Compor, dividir o palco, a estrada ou em casa, “fora do horário comercial”?

Ah, varia muito. Eu e meu irmão sempre fomos amigos. Eu digo que ele é meu irmão e meu “brother”. Porque a gente tem uma diferença de idade super pequena, de um ano e meio. Então quando eu fiz 16 anos, os nossos amigos viraram os mesmos. A gente cresceu com a mesma turma e ouvindo os mesmos discos, isso gera uma cumplicidade gigantesca. Meu pai é jornalista de cultura, então ele sempre tem alguma novidade musical. Ele é a pessoa mais atualizada que eu conheço, sempre foi. De todos os meus amigos, o meu pai é o mais atualizado e que conhece todos os sons. Não tem nenhuma outra pessoa que me mostre uma super novidade musical. Sempre que alguém vem me mostrar, meu pai, provavelmente, já me mostrou antes. (risos). Então não tem muito específico assim, se é na estrada, ou compondo. Sempre varia muito. Às vezes a estrada tá super legal, às vezes a gente se encontra e faz uma música e é legal fazer essa música, ou então a gente vai ao cinema e é também um barato.

A criatividade está presente no seu dia a dia, tanto na hora de compor, quanto na hora de desenhar. Alguma delas acontece com mais facilidade?

Ultimamente eu tenho trabalhado mais com a música, tenho trabalhado o meu tempo mais na música. Mas não tem muita diferença, não. Às vezes eu até quero fazer uma música, mas aí acaba saindo um desenho, ou vice-versa. Não tem um primeiro lugar, assim.

Sobre o seu processo criativo, de composição, a música Dois Cafés, do seu último disco, possui esse nome porque foi composta no intervalo entre um café e outro. Suas composições costumam ser rápidas assim, no estilo “pensou, escreveu, virou música”, ou esse foi um caso atípico?

Esse acabou sendo um caso atípico. Às vezes, alguma música fica guardada por um tempo, ou então eu tô trabalhando nela faz tempo, e depois ela acaba de transformando numa outra coisa. “Dois cafés” foi um caso bem atípico, assim, isso não costuma acontecer com frequência, mas é bem legal, também, quando acontece.

Pra você, o que vem primeiro, a letra ou a melodia?

Normalmente eu penso um pouco junto. Quando eu quero me dedicar à composição, eu pego o violão e começo a fazer a música e a letra um pouco juntas. Mas quando eu tô na estrada, às vezes vem a letra primeiro. Porque eu tô sem violão, não tem como pensar em música, então vem a letra primeiro e depois uma melodia. Ou uma melodia, e eu penso na letra depois. Mas também não existe muito uma regra.

Seu disco de estreia, Efêmera, esteve entre os melhores nas listas mais importantes daquele ano, 2010. Durante o processo do segundo disco, você sentiu alguma pressão por ter que manter o nível que o público e a crítica estavam esperando?

Desde o meu primeiro dia do Efêmera me perguntavam sobre o segundo disco. Então eu rapidamente me acostumei com essa pergunta, com essa expectativa. E quando eu vi que isso ia começar a acontecer cada vez com mais frequência, eu me prometi não me desesperar com isso. Eu quis fazer meu segundo disco de um jeito muito tranqüilo e, sobretudo, eu queria desfrutar do processo de gravar o disco, porque a gravação de Efêmera foi muito rápida. Muito legal, mas muito rápida. No segundo eu queria fazer as coisas com mais calma, exatamente pra poder desfrutar desse processo. A minha grande preocupação era essa, eu tinha que gravar um disco onde eu estivesse curtindo gravar esse disco e minha banda também. E, eu acho, que pelo fato de meu pai ser Jornalista, ser crítico musical, isso me deixou com menos medo dessa questão, dessa expectativa.

Tudo Tanto surpreendeu, e veio muito mais encorpado, movimentado, com novos experimentos sonoros e muitas parcerias. Esse amadurecimento e a segurança em experimentar coisas novas e diferentes foram resultados de coisas específicas, ou aconteceu naturalmente?

Isso foi resultado direto do que aconteceu com o Efêmera. Dele na estrada, da integração entre os músicos, entre a equipe toda. Falando por mim, assim, e o que vejo pelas pessoas que trabalham comigo, a gente amadureceu muito na estrada. Mas amadureceu no sentido de “jogar bola” mais junto. Quanto pintou o Tudo Tanto o nosso futebol tava mais fluído, sabe. Foi mais tranquilo. Acho que se não tivesse vivido uma turnê antes do Tudo Tanto, ele também seria diferente.

O último disco fala de coisas mais subjetivas, e não só sobre amor (como a maior parte das letras do primeiro). Como surgem os temas das suas músicas?

Eu vejo o Efêmera com um disco de fotografias, de recortes do cotidiano. O Tudo Tanto, por ser mais subjetivo, talvez mais denso, é como se essas fotografias tivessem virado radiografias. Só que eu não tenho muito claro isso de como eu defini o tema de cada música, eu acho que elas foram acontecendo.

Fazer parte do projeto MPB Petrobras te proporciona tocar em lugares onde talvez você demorasse para se apresentar, como Maceió. Como você vê a importância de um projeto como esse que, além de fazer ótimos artistas circularem, ainda cobra ingressos com preços acessíveis?

Eu acho fundamental projetos que acabam sendo projetos de divulgação do artista e também de formação de platéia. Porque, não necessariamente, as pessoas que vão no show conhecem o meu trabalho, o meu primeiro disco, meu segundo disco. Em casos assim, como o MPB Petrobrás, as pessoas arriscam, elas têm acesso à divulgação, ficam interessadas, e acabam indo pro show. Talvez, em um outro momento, elas nem chegassem a ter essa informação. Então eu acho projetos como esse fundamentais, sobretudo, nessa questão de formação de platéia.

Muitos maceioenses já viajaram para outras cidades para ver um show seu. Quais as expectativas para o seu primeiro show em Maceió?

Olha, eu tô muito curiosa pra conhecer Maceió, eu não conheço, e os meninos da banda também. Tá todo mundo super a fim de chegar aí. E o show é sempre uma troca assim, né. Então, dependendo do público, o show acontece de um jeito. E no Nordeste, geralmente os shows tem uma outra temperatura, são shows muito mais quentes. As pessoas estão muito dentro do show, elas sabem cantar as músicas, e dançam. Então é sempre muito estimulante pra gente. A gente sai amanhã (no último sábado, dia 03) pra essa viagem, pra esse circuito, e tá todo mundo bem, bem empolgado. 

SERVIÇO

MPB Petrobrás  apresenta Tulipa Ruiz

Quando: 08 de maio, às 21h

Onde: Teatro Gustavo Leite (Rua Celso Piatti, s/n, Jaraguá) 

Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

Pontos de venda:  na bilheteria do teatro. 

Mais informações: 9808-6067 e 9363-3610.

Compartilhe

Posts Relacionados

Responder

Seu e-mail não vai ser publicado. Required fields are marked *