Artes Visuais, Entrevista
Olhar para ver

Olhar para ver

A artista visual Flora Assumpção está à procura de olhares interessados em ver o que está além. “Ver dedicado a ver”, disse a mineira, que expõe suas obras pela primeira vez em Maceió, até o dia 06 de junho, na Pinacoteca Universitária, galeria de arte mantida pela Universidade Federal de Alagoas. “A partir do momento que nos interessamos em ver tudo o que está visível, descobrimos também a história por trás daquele objeto”, pontua.

Miragens é o título da mostra que reúne 37 peças, criadas em diferentes linguagens e suportes. O material exposto contempla uma videoinstalação, peças em resina e metal, dois livros-objetos em fotografias, três séries de fotogravuras e desenhos gravados a laser sobre espelhos. Assim como uma alquimista das artes plásticas, através do seu olhar, Flora converte em altares, jóias, fósseis e painéis o que antes era apenas correntes, pratas, espelhos e fotografias. 

A artista empresta a sua visão de mundo aos que querem vê-lo como ela o interpreta. “Acredito que o conhecimento visual é uma forma de linguagem não verbalizada”, explica. Flora também busca contextualizar seus trabalhos resgatando elementos mitológicos de culturas antepassadas. É nesse espaço que percebemos as referências ao universo onírico de Jorge Luís Borges e ao realismo fantástico de Gabriel García Márquez, como pode ser visto na série Animais Simbióticos.

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“Tatu Bronze” compõe a série Animais Simbióticos: a peça traz a influência da literatura de Jorge Luís Borges.

Inclinada, logo no início da sua carreira, para o desenho e a pintura, Flora começou então a investigar outras técnicas que lhe possibilitasse traduzir seus conceitos estéticos. Foi assim que passou a extrair a poesia contida nas formas, nas cores e nas imagens de diferentes tipos de materiais. Suas criações cresceram em experimentação e em dimensão, como, por exemplo, na videoinstalação Vertigem do Mar. Nela, o espectador é convidado a mergulhar na própria obra.

Flora já expôs no Paço das Artes, no CCSP, no MAC-USP, no Instituto Tomie Ohtake, na Galeria Emma Thomas e na Galeria Gravura Brasileira. Em 2007, recebeu o Prêmio Destaque do Júri no 16° Encontro de Artes Plásticas de Atibaia e em 2012 participou do 10° Salão Elke Hering, Blumenau-SC, no qual foi contemplada com o 1° Prêmio. No ano passado, recebeu o Prêmio ArteRef de Arte Contemporânea e foi Selecionada pelo Edital SESI de Artes Visuais.

Em entrevista à Graciliano, a artista que busca despertar a imaginação dos visitantes – “uma capacidade humana tão abandonada na atualidade ocidental”, como ressalta o texto curatorial –, fala de Miragens e das suas descobertas.

GRACILIANO – Você iniciou sua produção em artes por meio do desenho e da pintura. Em seguida, passou a flertar também com outros tipos de materiais, técnicas e linguagens. Como se deu esse processo?

FLORA ASSUMPÇÃO – Deu-se bem cedo. Eu estudei pintura durante um ano, por volta dos 16 anos, antes de entrar na faculdade. E ao ingressar na universidade, eu parei de pintar, apesar de gostar muito de cor, de fazer tintas; entendo bastante sobre a teoria de cor. A minha relação com o desenho e a pintura foi muito importante. Eu só fui para gravura porque era uma coisa nova, talvez. A princípio, não conhecia nada sobre essa técnica. Naquela época, pensava que detestava escultura, aí eu escolhi gravura para o meu bacharelado.

O elemento natural e o fantástico (sobrenatural) são temáticas bastantes presentes em suas obras. Quais reflexões você busca lançar através delas?

A reflexão é que o homem precisa – e esse também é o grande desafio do século 21 – aprender a imitar a natureza. E a prova disso é o lixo. A natureza não produz resíduo. As pessoas acham que colocando a sacolinha de lixo para fora de casa, elas já se livraram do problema. Nós comemos peixes que estão contaminados com plásticos espalhados pelos oceanos. Nós precisamos imitar o mecanismo da natureza nisso. Na natureza tudo o que uma espécie descarta, a outra usa. E nós somos o câncer no meio disso, somos o descompasso. A água tem memória, segundo muitos estudiosos. Você pode ter uma água destilada que sempre foi pura e uma destilada do esgoto. Ambas quimicamente são idênticas. Quando você analisa as duas amostras num laboratório, elas são diferentes e ninguém sabe explicar o por que. E é isso que eles chamam de memória da água.

Miragens tem a intenção de provocar a imaginação e a ficção dos visitantes, capacidades tão abandonadas na atualidade ocidental. De que forma você tenta resgatar essa sensibilidade?

Quando o trabalho exige que você tenha calma, olhe com cuidado, queira ver os reflexos; ou seja, ter tempo para perceber as coisas que na correria do cotidiano não nos damos conta. Ver dedicado a ver. A partir do momento que nos interessamos em ver tudo o que está visível, descobrimos também a história por trás daquele objeto. Não faço um trabalho para dizer que o homem não precisa criar lixo, ou para contar história de Borges, ou da arquitetura pré-colombiana. Percebo, anos depois, a relação que há entre eles. Acredito que o conhecimento visual é uma forma de linguagem não verbalizada. E é isso o que muitos artistas contemporâneos esquecem. Somos acusados e torturados por uma pergunta que odeio: O que seu trabalho tem haver com a contemporaneidade? Então, os artistas ficam procurando os problemas do mundo para cuidar através do trabalho deles e esquecem que existe uma beleza além disso.

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Flora Assumpção: “o título ‘Miragens’ é uma metáfora inevitável para as ilusões humanas”

Como começou sua relação com as artes visuais?

Meu pai gosta e desenha muito bem. Eu sempre desenhei muito desde os 3 anos. Tem aquele desenho que vem desde o ombro da criança, passa para o cotovelo, para o pulso e fica uma coisa muito mais controlada. Minha mãe sempre deu lápis e papel em casa e o interesse vem daí. Na época da escola eu não imaginava que iria fazer nada com artes. Pensei em estudar História, para ser historiadora. Após o ensino médio, com cursinhos pré-vestibulares que aplicavam provas todas as semanas, eu fiquei cansada e pensei: Vou descansar, irei fazer Artes Plásticas e, depois, História (risos). E logo no primeiro ano da faculdade, percebi que já não queria História. Sem querer foi à escolha certa.

Alguns trabalhos podem ser vistos de cima, outros convidam o espectador a aproximar-se o máximo que puder para enxergar os detalhes, enquanto a instalação Vertigem do Mar nos insere na própria obra. Essa ideia de distância e proximidade do olhar do visitante foi proposital? O que há nesse gesto?

É proposital. O que tem nesse gesto é uma pergunta mais difícil de responder, mas eu acho que possui uma relação com a ideia que eu quero passar na obra. Porque, por exemplo, se for uma joia, colocada numa espécie de altar, deve ser pequena. Se for para mostrar a nossa pequenez humana diante da natureza ou da arquitetura a obra deve ser maior. Tem essa necessidade. Então, tem um pouco da intenção mesmo, com o que eu quero dizer.

O título da exposição é uma referência aos aspectos de refrações, transparência e brilho; e também uma metáfora inevitável para as ilusões humanas. Gostaria que você falasse mais sobre isso.

Tem algo meio autobiográfico. Depois dos meus dois primeiros trabalhos feitos com a escala da arquitetura, eu parti para desenhar os corrimões dos ônibus. Delimitava todo o espaço do ônibus só com os corrimões, que são estruturas tubulares. E dessas estruturas, que aliavam o movimento orgânico ao de máquina, eu cheguei às serpentes, às araucárias etc. A dificuldade de o orgânico ser aceito no tubo do corredor de ônibus é que ele é um tubo de uma máquina. Então, agora eu percebo, já estava discutindo tais questões presentes nesta exposição lá em 2004. Acho que a arte verdadeira acontece desse jeito. A miragem reside nisso: no conhecimento que está lá, sem você saber que ele já está lá. São as nossas vivências que trazemos para o trabalho. Percebo também que a relação entre o homem e a natureza – discutida na mostra – também está no homem com o outro. As lutas de poder, desde as grandes até as pequenas, muitas vezes, não declaradas. O poder sempre gera medo ou desconfiança. Alguém sempre está sendo subjugado pelo poder. Então, em Miragens, eu falo um pouco sobre essas ilusões. São ilusões porque são fugazes. Assim como tudo na vida é.

O texto curatorial diz que as obras expostas dialogam com a literatura fantástica de autores como Jorge Luís Borges, Gabriel Garcia Márquez e Júlio Cortázar. De que forma as artes em geral servem como referência para você?

Eu gosto muito de música. Não entendo nada de teoria musical. Tenho uma irmã cantora lírica, meu pai canta em coral também. A música faz parte da minha vida. Eu produzo ouvindo música. Tenho uma série dessas correntes que foi batizada de Milton e Mercedes, em referência a canção “Sueño con Serpientes”, do Milton Nascimento com a Mercedes Sosa. Nela, Milton recorda um sonho com serpentes largas e transparentes, e ao matá-las aparecem outras maiores. Isso é a vida também. Você vence uma batalha, tem outra atrás. Eu gosto muito de artes plásticas, tem vários artistas, tanto da atualidade, como os antigos, que eu gosto bastante. Se eu começar a citá-los aqui, corro o risco de ser injusta e me esquecer de alguns nomes. Gosto muito de literatura, esses trabalhos da instalação e das gravuras vêm desse conto, que se chama “O Mar do tempo perdido”, do García Márquez. Queria ler mais do que o meu tempo permite hoje.

Conheça mais o trabalho de Flora Assumpção através do link http://goo.gl/ceawMr e também do blog  http://floraassumpcao.blogspot.com/

Crédito da foto em destaque: Alírio de Castro

SERVIÇO
O quê: Exposição Miragens, de Flora Assumpção
Onde: Pinacoteca Universitária, Praça Sinimbú, s/n, Centro
Visitação: até 06 de junho; seg. e qui., das 08h às 20h; ter., qua. e sex., das 08h às 18h.
Aberto ao público.
Mais informações: (82) 3214-1545.

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