Música

A bossa do Fino

COLABORAÇÃO DE MORENA MELO E LÍVIA VASCONCELOS

O nome é crowdfunding, mas poderia se chamar amor. Produzido com a colaboração de ouvintes, especificamente 289 apoiadores, através do financiamento coletivo, o álbum Massagueira celebra a vila de pescadores localizada a 15 km de Maceió, que se tornou rota gastronômica com a companhia da lagoa e a simplicidade do interior. Ao embalo dos versos de “Ai de mim sem o seu amor”, a campanha colaborativa preconizava: “Se não fosse o amor você ‘tava’ no chão, você ‘tava’ na mão, irmão”. Amor não faltou ao Fino. Massagueira não nega.

10003663_730405220338245_1340827192_o

Uma sonoridade orgânica como a Massagueira atravessa,  flutuando, as dez faixas do terceiro álbum do Fino Coletivo, gravado com todas as bases ao vivo. O resultado é um disco “mais solto, diferente de ‘Copacabana’”, explica Alvinho Lancelotti. Adriano Siri fala sobre isso na letra de “Como é que a gente se ajeita”, quando canta “disseram que o meu samba é preguiçoso só porque tem duas notas só, a evolução pra mim é a simplicidade que a complexidade não pode alcançar”.

As duas notas base da oitava faixa do álbum traçam um paralelo despretensioso com o “Samba de uma nota só” de Antônio Carlos Jobim que diz “Eis aqui este sambinha feito numa nota só. Outras notas vão entrar, mas a base é uma só”. A música que abre o segundo disco de João Gilberto, “O amor, o sorriso e a flor”, lançado em 1960, sintetiza os novos procedimentos criativos da música brasileira à época. Transições musicais à frente desse primeiro sopro de novidade, o Fino, que não é só da bossa, explora com inventividade os ritmos contemporâneos, sem esquecer a “simplicidade que a complexidade não pode alcançar”, matriz do samba e do Brasil.

Com quase 10 anos de carreira, que se completam no ano que vem, o Fino amadureceu aos nossos ouvidos. No álbum homônimo lançado em 2007 pelo selo Dubas Música, quando a banda ainda contava com os antigos parceiros Wado e Momo, a sonoridade heterogênea com o diferencial de seus cinco compositores chamou a atenção do público e da crítica especializada. Não à toa eles foram vencedores do prêmio revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), e listados na relação de melhores discos do jornal O Globo daquele ano. Alguns membros a menos depois, e com a participação de Donatinho nos teclados, o segundo disco intitulado Copacabana, viabilizado pelo Oi Música em 2010, colocou O Fino Coletivo mais uma vez na lista de melhores do ano pelo Globo.

Massagueira, lançado neste mês, traz uma harmonia mais melancólica, sem deixar o ensolarado próprio do Fino, levado pelo vento que sopra com o amor alegre (Tudo fica lindo), a irreverência (Como é que a gente se ajeita), a energia (Is very good Jan – nega) e o afoxé (Por vir) também presentes ali. Pela primeira vez um disco do Fino Coletivo traz apenas composições inéditas compartilhadas entre os seus atuais integrantes. Um olhar para dentro que evidencia o entrosamento do grupo.

Depois de um hiato de quatro anos, o quinteto formado por Adriano Siri, Alvinho Cabral, Alvinho Lancellotti, Daniel Medeiros e Rodrigo Scofield se apresenta em Maceió a convite da Sonar nesta sexta-feira (23), no Orákulo, para o lançamento de Massagueira. Confira a entrevista.

GRACILIANO ON LINE – Lá em 2007, uma notinha de O Globo anunciava que o primeiro CD do Fino “exala louvável carioquice sem oba-oba”. Três CDs e sete anos mais tarde, e depois de um álbum intitulado Copacabana (2010), o novo disco atende por Massagueira, destino gastronômico conhecido dos alagoanos. Em 2014, o Fino está mais pra calmaria da lagoa que pra maresia carioca?

ALVINHO LANCELOTTI – O que muda é a ausência de eletrônico e a concepção mais voltada pra o orgânico, sem muita correção tecnológica. A opção do Massagueira ser um disco sem eletrônico é pela concepção de termos um disco mais “solto” , diferente do “Copacabana”. Todos achamos que era o momento de aproveitar o entrosamento de anos de estrada e gravar as bases ao vivo.  A ideia do nome é uma homenagem mesmo. Combina com Massagueira porque sempre fomos cariocas e alagoanos, no sangue e no som. 

Aliás, além da homenagem à terra de Siri e Cabral, por que vocês escolheram a Massagueira pra representar esse tributo?  

ALVINHO CABRAL – O nome Massagueira por si só já tem um certo suingue, fora que também achamos que esse disco tem essa atmosfera. Quando começamos a pensar em qual nome colocar, Massagueira se encaixou perfeitamente com a sonoridade. Achamos que esse disco é mais Alagoas, mais sururu com cerveja na beira da lagoa. Inclusive, fizemos questão de convidar o tecladista alagoano Dinho Zampier para gravar os teclados do disco, numa forma de colocar mais uma pitada alagoana no disco.  

Com essa última versão do Fino, os dois Alvinhos (Cabral e Lancellotti) e Siri assumem o trio dos vocais. Apesar de Cabral ser ativo desde o início nas composições, e até já cantar algumas músicas nos shows, essa inserção maior  de seu tom de voz mais grave dá outra dinâmica às músicas. Como foi essa decisão de Alvinho assumir mais os vocais?

ALVINHO CABRAL – Houve um momento nos ensaios que eu achei que poderia cantar as minhas parcerias com o Alvinho Lancellotti e a minha música. Testamos, gostamos e colocamos a ideia pra frente. 

A campanha lançada por vocês no site Catarse convocava os fãs e empresas a patrocinarem esse terceiro disco. Encerrada em novembro de 2013, 289 apoiadores doaram R$ 31.011 de R$30.260 que vocês pleiteavam. Além da troca desse apoio por “presentes”, essa forma de economia criativa mostra uma nova perspectiva na relação entre fãs e artistas. As pessoas podem fazer aquilo acontecer, é o espírito da coletividade, e de influência diante da obra de seu artista preferido. Como vocês veem todo esse processo?  

ALVINHO CABRAL – O financiamento coletivo é uma forma muito bonita e vitoriosa de se realizar um projeto. Quando o fã compra uma recompensa, um disco, por exemplo, antes mesmo de ser gravado, é porque acredita muito na banda. E se a banda tem credibilidade e carisma para isso, acredito que as coisas estão no caminho certo. Viabilizamos o disco com a ajuda dos fãs e amigos e com o apoio de duas empresas que foram muito importantes para que pudéssemos gravar o disco da forma que gostaríamos, a Rádio Ibiza e a Farm. 

A Iracema do disco criou duas gerações da família do Daniel Medeiros, e ganhou uma homenagem (bela) com um dos sambas do álbum. Ela morreu antes do disco ser finalizado, né? Ela chegou a escutar a música? O que ela achou?  

ALVINHO LANCELOTTI – Ela escutou a música e já era um sucesso na casa do Daniel. Ela ficou bastante contente. Foi uma perda grande, mas o disco é dedicado a ela, e ela está eternizada para sempre com essa música. Santa Iracema!   

Disseram que o samba do Siri era preguiçoso, ele foi lá e explicou que não é nada disso.  A resposta dele foi ao estilo Siri: samba e simplicidade. A essa altura do campeonato, como vocês lidam com as críticas? 

ALVINHO LANCELOTTI – Lidamos de forma natural. Críticas sempre vão existir e nós sabemos que nossa música, apesar de um lado pop, não vai agradar a todos e nem é pra ser assim.  Só incomoda quando a crítica é burra ou pessoal. 

Seguindo uma tendência do mercado atual, além de disponibilizar o Massagueira para venda (pelo preço que as pessoas quiserem pagar), vocês também o listaram inteiramente gratuito para download no site oficial do Fino e para audição em stream no Soundcloud e Youtube. Como tem sido a participação do público nessa fase?  

ALVINHO LANCELOTTI – Está sendo como esperávamos. Muita gente baixando o disco, algumas pessoas comprando os combos e alguns também contribuindo ainda no “pague quanto quiser’. Na primeira semana tivemos mais de 3 mil downloads. Esse é um número muito legal. 

A última apresentação do Fino em Maceió foi em 2010, no Jaraguá Tênis Club. Quatro anos depois vocês voltam à cidade com um álbum homenageando essa alagoanidade que também faz parte da banda. Por que demoraram tanto? Qual é a expectativa?  

ALVINHO LANCELOTTI – Muita felicidade em voltar. Muita ansiedade também. É um prêmio pra gente. Infelizmente Maceió não nos apresentava muitas alternativas em termos de palco e garantias financeiras. Mas dessa vez, o pessoal da Sonar comprou o barulho e tá levando o Fino de volta a sua casa.

Vou Que Vou, música que encerra de forma contemplativa o Massagueira, é uma canção antiga do Alvinho Lancellotti que fala sobre seguir em frente. De certa forma, ser músico hoje em dia é uma eterna persistência. O que ainda leva vocês a seguirem sempre essa retomada?  

ALVINHO LANCELOTTI – Amor, simplesmente isso. O amor pela música. 

 10257516_764666630245437_5619677604165372085_o

SERVIÇO

Quando: 23 de maio, às 21h

Onde: Orákulo Chopperia (Rua Barão de Jaraguá, 717, Jaraguá) 

Ingressos: R$ 30 (meia e social)

Pontos de venda:  Loja Freaks Maceió Shopping e também pelo site http://www.eventick.com.br/finomaceio 

Mais informações: 9808-6067 e 9363-3610

Compartilhe

Posts Relacionados

Um Comentário

  1. Déborah Moraes

    22 maio 2014 at 10:57

    Taynara, parabéns pela entrevista. Muito Boa. Ainda mais apaixonada por eles.
    O último show deles foi em 2010, não 2009 como vc cita na penúltima pergunta.

    Abç.

    Reply

Responder

Seu e-mail não vai ser publicado. Required fields are marked *