Artes Cênicas, Entrevista, Teatro
Lael sem máscaras

Lael sem máscaras

Lael Correa segue na contramão. Ator e diretor que desde 1990 capitaneia o grupo teatral Infinito Enquanto Truque, ele é considerado uma espécie de enfant terrible do teatro alagoano. Mas, esclarece: “há certo provincianismo na discussão sobre o fazer artístico em Alagoas e quando alguém tem alguma posição um pouco mais questionadora acaba parecendo uma posição ‘polemizadora’ e não é”. No entanto, entre tantas expressões, talvez a que cabe melhor para defini-lo seja “pessoa do teatro”.

Com início precoce de uma vida dedicada às artes cênicas, Lael aos 13 anos de idade assistiu no Teatro Deodoro à peça Esperando Godot, com direção do paulista Antunes Filho. O que viu da plateia foi decisivo para que ele se apaixonasse pelos palcos. Naquele dia, nasceu uma identificação imediata pelo teatro, que resultou numa relação que já dura quase quatro décadas.

Ao completar 16 anos, Lael mudou-se para o Rio de Janeiro. Lá, se profissionalizou em diversas áreas vinculadas às artes, como, por exemplo, em direção teatral, com Aderbal Freire Filho. A bagagem cultural adquirida durante esse período influenciaria profundamente sua visão como artista de teatro. Aos 26, viajou para a Suíça, onde estudou Arte Contemporânea. De volta a Maceió, na década de 1990, tornou-se um mais importantes nomes da dramaturgia no estado.

lael_8-ft.cid

Lael Correa: aptidão natural para as artes é descoberta cedo

Polivalente – dramaturgo, ator, encenador e artista plástico –, ele vive unicamente do seu trabalho como artista. Aos 50 anos de idade, Lael leva aos palcos do teatro Espaço Cultural Arte Pajuçara, nos dias 07, 08, 14 e 15 de junho, o espetáculo O Sorriso da Rainha Morta. A peça tem um elenco formado por quatro atores alagoanos: Bruno de Aragão, Laís Lira, Naéliton Santos e Regis de Souza. “Equilibrando-se entre situações cômicas e dramáticas, eles interpretam a história de três comediantes em crise. Em meio a diversos impasses pessoais e artísticos, o trio questiona as ansiedades e as insatisfações ocultas sob a máscara high-tech do século 21″, conta.

O blog Graciliano On-line entrevistou Lael Correa, que fala sobre a peça O Sorriso da Rainha Morta e as inquietações e os questionamentos que pretende criar nos espectadores. Confira.

Declaração sua: “O teatro é diálogo. (…) É com as diferentes plateias, circunstâncias e reapresentações que o ator pode lapidar a sua arte, dividindo com o público uma criação que é viva, que se modifica e se enriquece permanentemente”. Qual tipo de diálogo você pretende criar com O Sorriso da Rainha Morta?

LAEL CORREA – Nessa peça o diálogo se estabelece a partir de uma questão básica: quanto custa uma máscara no tempo e lugar em que vivemos? Rodeados de simulacros – quer sejam reais, tecnológicos, psicológicos ou profissionais –, quanto sobra de verdadeiro nas relações sociais, afetivas, religiosas, políticas ou artísticas?  É a partir dessas indagações que acontece o diálogo entre o palco e a plateia. Um jogo dialético, que em alguns momentos pode ser bastante sério e em outros pode ser muito engraçado. E até pode causar algum desconforto no espectador menos afeito aos aspectos reflexivos da encenação, mas é, certamente, um diálogo que não deixa espaço para o tédio ou a indiferença. Afinal, os disfarces e as mentiras não são um privilégio do “reino da Dinamarca”, mas um sentimento comum aos cidadãos da atualidade em todos os cantos do mundo.

O camarim é o cenário de maior destaque do espetáculo. O que tal ambiente representa para a história? Qual o significado real e simbólico dele?

O camarim é um lugar que por sua própria natureza é ideal para a construção e o desmanche das máscaras. E as personagens da peça são três comediantes que ganham a vida produzindo shows medíocres, ou seja: usando máscaras de riso fácil enquanto escondem a carência de sentido, poesia e verdade em suas vidas.  E eles poderiam exercer qualquer outro ofício e a questão seria a mesma: o que fazer quando tudo carece de inteligência e sensibilidade? O que resta de real quando a mentira risonha se torna moeda corrente? Entre as lembranças de um passado difuso, as perplexidades de um presente incerto e as vagas perspectivas de futuro, esses atores tentam retirar as máscaras que compõem suas existências. Desse modo, nada seria mais adequado do que um camarim para emoldurar esse exercício.

dd

Regis de Souza e Laís Lira em cena no espetáculo A Máscara da Rainha Morta

Quanto tempo durou a montagem da peça? E como foi a escolha do elenco?

De quando comecei a escrever a peça até a estreia (em 14 de maio, no Teatro Deodoro) rolou quase um ano de trabalho; mas a montagem do espetáculo durou três meses. O elenco surgiu sem esforços ou dúvidas. São atores experientes e já conhecidos do público de teatro em Alagoas. Eu já os admirava há bastante tempo. Além disso, quase todos já haviam sido meus parceiros em outras encenações. Portanto, logo que terminei de escrever a peça entrei em contato com eles e já na primeira leitura os papéis foram definidos, pois desde o início houve muita empatia do time com o jogo proposto. Enquanto diretor, eu creio que ter escolhido esse elenco foi uma tacada certeira.

O texto apresenta um retrato interessante sobre o homem e sua tendência a manipular suas verdadeiras ações, motivações e sentimentos. Quais as reflexões ou as inquietações você deseja provocar no público?

Penso que o teatro reflete o humano para além das suas ações ordinárias, inserindo-o em contextos amplos; abarcando aspectos psicológicos, políticos, filosóficos, poéticos, etc.. Nesse sentido, a ideia do disfarce permite inúmeras interpretações, mas optei por me ater ao fato de que todos nós, em algum momento, nos utilizamos da simulação, da manipulação e da máscara. É praticamente impossível ao humano prescindir da simulação em determinados momentos ou situações. E em muitas ocasiões a máscara não á apenas útil, mas louvável. No entanto, a máscara pode se tornar um artifício maléfico em inúmeros casos. Saber a diferença entre os disfarces e ter consciência deles é que é o grande desafio para as pessoas desse século. Especialmente em um mundo de tantas mentiras compartilhadas – quer seja na internet, na televisão, nas agências de propaganda ou na câmara dos deputados – exercitar o discernimento e a consciência é algo extremamente importante. E não penso que o teatro pretenda inquietar o público com isso, mas apenas lembrar-lhe que na contemporaneidade os disfarces estão menos visíveis, mas são maiores, mais complexos e mais danosos.

No espetáculo, são feitas algumas críticas a atual produção do teatro alagoano, em especial, aquelas que são sucesso de bilheteria. O que você pretende chamar a atenção nos espectadores ao fazê-las?

Eu não chamaria de crítica. Também porque isso me colocaria no nível dos profissionais da crítica de arte ou dos acadêmicos que vomitam verdades sobre a produção artística, e não gosto deles. Mas creio no poder de observar e comentar a arte como apenas os artistas conseguem fazê-lo, especialmente quando essa observação se utiliza do próprio veículo para se expressar. Ou seja: é bacana que o próprio teatro comente o teatro. A comédia escrachada, que serve de mote para o questionamento das personagens dessa peça, não é elogiada nem execrada. Embora seja posta em cena como um exemplo de simulação alienada e alienante, eternamente perdida em superficialidades e clichês, seus aspectos positivos não deixam de ser observados, aproveitados e reordenados. Afinal, o riso pode ser vazio e fútil, mas também pode ser transformado e promover a busca pelo que há de poético e reflexivo no mundo atual – quer seja através de uma dragqueen desmontada, de uma rainha defunta ou da máscara retirada de uma pessoa qualquer. Além de ser dialógico, o teatro é jogo, é espelho, é embate e é provocação. Então, seria lamentável se as comédias fuleiras não existissem, pois sem elas perderíamos de inventar um sorriso para uma rainha morta. (risos)

SERVIÇO
O Sorriso da Rainha Morta
Quando: Dias 07, 08 e 15 de junho, às 20h; e no dia 14 de junho, às 23h.
Onde: Espaço Cultural Arte Pajuçara (Av. Dr. Antônio Gouveia, 1113, Pajuçara).
Ingressos: R$ 15 (meia) e R$ 30 (inteira).
Pontos de venda: bilheteria do teatro.
Mais informações: (82) 3316-6000.

Compartilhe

Posts Relacionados

Responder

Seu e-mail não vai ser publicado. Required fields are marked *