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Os lugares de Jorge de Lima

Os lugares de Jorge de Lima

Comemorando a última edição da revista Graciliano, que fala sobre Jorge de Lima, disponibilizamos um trecho da reportagem intitulada Os lugares de Jorge de Limada jornalista Morena Melo Dias. Confira!

Como muitos de sua geração, o escritor alagoano embriagava-se do afeto pelos espaços. Em sua obra, há diversos fragmentos de União dos Palmares, terra onde nasceu, e de Maceió, cidade na qual viveu por muitos anos

Cada poesia é uma tela. E Jorge de Lima consegue escrever pintando com plasticidadesmúltiplas. Do parnasianismo ao modernismo, o poeta, romancista e crítico preserva um traço: a relação com os lugares.

Dos pedaços do mundo
que formaram o universo de Jorge, o mais mencionado
por pesquisadores como onipresente no seu trabalho, mesmo que implicitamente, é
o lugarejo que ganhou nome de União em 1890. A cidade, que ainda não trazia a homenagem ao Quilombo dos Palmares
no nome, foi batizada como União por juntar dois elos: o das estradas de ferro de Alagoas e Pernambuco, e das primeiras percepções de Jorge e sua obra.

Da sacada do sobrado, na Praça Matriz da União dos Palmares do século 19, o meninoJorge de Lima absorvia o entra e sai de clientes na loja do pai, a Igreja de Santa Maria Madalena, a festa da padroeira e o escasso movimento do município. O poeta guardou essas primeiras impressões indeléveis, da infância, sobre o mundo das coisas e das pessoas.

“Sem qualquer exagero, posso dizer que, naquele instante, pela primeira vez me senti tocado pela poesia. Todo o imenso panorama que descortinei então – o rio Mundaú, que segundo a lenda nascera das lágrimas de Jurema, de um lado a Serra dos Macacos, do outro a planície do Jatobá, os campos verdes da Terra-lavada, o Fundão, a Tobiba, os banguês, a Great Western, as olarias, e lá longe a igreja da minha padroeira e o sobrado em que eu nascera, tudo aquilo entrou pelos meus olhos deslumbrados de menino e nunca mais saiu de dentro de mim”, disse Jorge de Lima, em entrevista a Homero Sena, em 1945.

As memórias preservadas nos livros e nas históriasdo poeta esbarram em três esquinas da ainda pequena União. A impressão que se tem ao chegar à cidade é que em um triângulo Jorge construiu um  universo. Na praça, localizada em frente à Secretaria Municipal de Cultura, o busto do poeta escuta as conversas que rendem no banco, enquanto convive com uma árvore frondosa.

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Na esquina seguinte, o sobrado colonial, casa do poeta na infância, permanece com a fachada quase inalterada, a não ser pela sacada tantas vezes mencionada em seus escritos, que foi removida em uma das reformas. Por dentro, a casa desabrigou as paredes que separavam os cômodos e deu lugar a dois vãos: embaixo, um espaço dedicado à história do poeta, com fotografias que montam uma linha cronológica de sua vida; em cima, um museu de arqueologia com objetos encontrados na Serra da Barriga. O quarto de Jorge se tornou uma sala para pesquisas, com alguns computadores. A janela por onde ele olhava a paisagem deu lugar a uma parede. Hoje chama-se Memorial Jorge de Lima.

“Essa descaracterização aconteceu com a mudança de moradores e comerciantes da casa. Ela foi alugada por muitos anos, para muitas pessoas diferentes. Em 2008, ela foi comprada e passou por uma reforma, foi quando deixou de ser ponto comercial e moradia para se tornar um espaço para memória de Jorge e, também, dos quilombolas que viveram na Serra da Barriga, com o museu de arqueologia”, explicou a secretária de Cultura de União dos Palmares, Genizete Sarmento. Alguns passos à frente do sobrado, o triângulo se completa com a igreja de Santa Maria Madalena, embora a edificação atual tenha sido construída no local da antiga igreja do século 19, demolida em 1972.

Quando Jorge de Lima não pensava em viver para sempre na praça, em forma de busto, também não se imaginava que o sobrado perderia a sacada de onde se via a praça e a janela através da qual era possível vislumbrar a Serra da Barriga. A igreja matriz, de arquitetura colonial, era frequentada por toda a cidade e nem de longe os palmarinos poderiam prever que, anos depois, ela seria demolida.

Inspiração

Àquela época, Seraphim Alves da Silva caminhava pelo centro de União, sempre quando começava a anoitecer. Segundo registros de funcionários da Prefeitura de União dos Palmares, Seraphim foi o último acendedor de lampiões da cidade. Sua atuação encerrou- se em 1920, ano em que a luz elétrica chegou à região. As datas levam a crer que, além de acender lampiões, o rapaz de origem pobre também inspirou Jorge de Lima, autor do poema parnasiano O Acendedor de Lampiões, uma de suas criações mais conhecidas.

Se por um lado a relação de Jorge de Lima com a cidade natal impregnava suas primeiras obras com um ar local – tempo, espaço e estilo de escrita delimitados com o que circulava em União –, seus escritos conseguiam, a partir dessas referências, comunicar o mundo. Quantos acendedores de lampiões existiam no Brasil do século 19? De certo, muitos. É o que lembra a jornalista e pesquisadora Simone Cavalcante, que tratou, em sua dissertação de mestrado, da obra Calunga: “Quando fala de Zumbi e do mangue nos seus Poemas da Infância, ou do acendedor de lampiões, no famoso poema do livro XIV Alexandrinos, na verdade o poeta reconfigura espaços e tempos imaginários que podem dialogar com a realidade de União dos Palmares, de Maceió ou de qualquer lugar do mundo”.

O poeta e as cidades

Enquanto os primeiros casarios se erguiam, a população transitava pelas ruas do Centro da capital alagoana em bondes, e a Praia da Avenida era, junto com o riacho Salgadinho, uma das melhores opções para dias de folga e calor, Jorge de Lima passa a viver numa casa bastante moderna para a época (1920), em frente à Praça Sinimbu. Nesse período, o escritor concluía o rebuscado livro de ensaios A Comédia dos Erros, que mais tarde seria rechaçada pelo próprio poeta, classificada como um “trabalho de puro mau gosto”. Em 2014, quase um século depois, o prédio assumiu importância arquitetônica, literária e histórica. Hoje administrado pela Academia Alagoana de Letras, a casa que foi deteriorada com o tempo e reformada em 2008 pelo valor de R$ 1,5 milhão, viabilizados pela Lei Rouanet, reúne alguns objetos pessoais e obras do autor. A passagem do poeta pelo lugar também foi registrada na década de 60, quando a Praça Sinimbu passou por uma série de modificações e foi dividida em duas partes. Entre brinquedos e bancos, os transeuntes passaram a avistar um mural onde se lia “lá vem o acendedor de lampiões na rua”.

Alguns anos depois, em 1927, Jorge de Lima começou a flertar com o Rio de Janeiro e o modernismo. Em 1931, o poeta se transfere para a capital federal e passa a viver a fase mais libertária de sua carreira. “Essa mudança se inicia na fase adulta, com a publicação do poema O Mundo do Menino Impossível, no Rio, em 1927, e não em 1925, como costuma ser divulgado, com a intenção de aproximá-la das influências da Semana de 22. A partir dessa obra, impressa no Rio de Janeiro, ele realiza as primeiras incursões modernistas ainda vivendo em Alagoas, mas de forma desproposital, e só vai se mudar definitivamente em 1931. Penso que a liberdade poética de que se utilizou, ao ‘jogar’ com diferentes estéticas, estava a serviço de seu próprio universo artístico, povoado de motivos e símbolos que vão se estender por toda a sua obra, a exemplo do tema da ilha, do sonho, da bem-amada. A mudança para o Rio de Janeiro talvez tenha acelerado esse movimento de revolução e alargamento da sua linguagem, que já começava a fervilhar”, concluiu a pesquisadora Simone Cavalcante.

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No Rio de Janeiro, a vida de Jorge de Lima cruza mais uma praça, a da Cinelândia, onde, no 11o andar de um edifício comercial, o poeta dá expediente como médico. O endereço acabou se tornando ponto de encontros literários, como relata Mário de Andrade, em uma nota que precede A Túnica Inconsútil: “Já muito se comentou, se elogiou e se caçoou sem maldade dessa espécie de salão literário, que é o escritório de médico do poeta. […] No escritório dele há verdadeiramente duas salas de espera: uma para os clientes da medicina e outra para os clientes da poesia. […] Geralmente, os poetas que frequentam o escritório são jovens. Moços ainda de pequena bagagem, ou sem bagagem nenhuma e que vão buscar no convívio suavíssimo do criador de Essa Negra Fulô, uma injeção verdadeira, um conselho estético, um aplauso. […] Ora, não estou longe de afirmar, seja o escritório de Jorge de Lima o mais seguro viveiro de poesia existente agora no Brasil”.

Sem uma linha clara entre o Rio de Janeiro, Maceió e União dos Palmares, Jorge de Lima buscava símbolos do seu passado que vinham à tona com figuras metafóricas em verdadeiras sequências fílmicas de tão descritivas. O observador-participante que viveu a infância no interior, a juventude em capitais e migrou para a capital federal na fase adulta, transitou entre 1934 e 1935 por correntes literárias diversas. Fixado no Rio de Janeiro, Lima trazia consigo um repertório vasto de lugares, pessoas e artes diversas.

A novela O Anjo, publicada em 1934, aponta com vigor para o surrealismo. Já Calunga, publicado um ano depois, em 1935, é um romance social sobre a história de Lula Bernardo, que retorna à terra natal após viver muitos anos na cidade grande. Sobre esta obra, o poeta fala no texto Minhas Memórias, publicado em Obra Completa. “O ilustre, o façanhoso, o protagonista deste meu conto é em verdade, em carne e osso, a terra, são as lagoas, de Manguaba e Mundaú. Ninguém mais meus irmãos. Vivi esses estirões de terra mangueada, aningada, massapeada, vivi com os pés no chão entre laguna e mar, em raiz de mangue, em água salobra, mestiçada como cambembe, eu aluviônico, eu baixio, eu terra”.

 

SERVIÇO
MEMORIAL JORGE DE LIMA
Praça Basiliano Sarmento, Centro, União dos Palmares, AL
Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h
Mais informações: (82) 3281-3005

CASA JORGE DE LIMA
Praça Visconde de Simimbú, 91, Centro Maceió, AL
Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h
Mais informações: (82) 8726-0985

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