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Marta, a rainha do futebol brasileiro

Marta, a rainha do futebol brasileiro

Em clima da Copa do Mundo, o blog Graciliano On-line posta um trecho da matéria Heróis dos Gramados, do repórter Francisco Ribeiro, publicada na revista Graciliano nº 19. Confira!

No futebol, eles são como deuses: têm tanto o poder de transformar o resultado de uma partida quanto o de despertar a paixão da torcida. E é no campo, com a bola no pé, que são capazes de mostrar por que no futebol, mais do que em qualquer outro esporte, eles se revelam tão imprescindíveis. Consagrados pelos gols que marcaram ou por jogadas inesquecíveis, muitos dos craques alagoanos brilharam não apenas nos campos do estado, mas em diversos clubes brasileiros e até internacionais. A Graciliano foi em busca das histórias desses campeões.

No Sertão nordestino, o minúsculo município de Dois Riachos é semelhante a tantos outros pelo Brasil afora. Com apenas 12 mil habitantes e distante 245 km da capital alagoana, nasceu ali sua cidadã mais ilustre e que tornaria a cidade conhecida em todo o mundo: Marta Vieira da Silva, a jogadora Marta.

Única atleta a vencer o prêmio de Melhor Jogador de Futebol do Mundo pela Fifa por seis anos consecutivos, entre 2006 e 2011, foi ainda a pessoa mais jovem a recebê-lo pela primeira vez, aos 19 anos. De lá pra cá, Marta conta, em entrevista exclusiva à revista Graciliano, que “muita coisa mudou” em sua vida. “Ganhei vários apelidos, como, por exemplo, Pelé de Saia, Rainha Marta, Marta Maravilha e outros mais”, brinca, ressaltando o peso da sua responsabilidade: “Onde chego, sou cobrada bem mais que as outras jogadoras e para todos tenho que estar sempre em alto nível. E isso, de certa forma, é complicado”, confessa.

A atacante revela que o seu maior orgulho foi driblar e vencer os obstáculos e os preconceitos que surgiram em seu caminho por ser mulher, nordestina e pobre. “Ela é incrível, insuperável. Começou tão jovem e ainda tem tanta vitalidade e alegria para jogar e se emocionar. É um exemplo para todos nós, atletas, homens e mulheres”, disse Lionel Messi, durante a cerimônia da Bola de Ouro Fifa, em 2011. Ao lado de Marta, vencedora pela sexta vez, ele recebeu o prêmio na categoria masculina.

Antes do estrelado, a jogadora passou a infância nas ruas pacatas de Dois Riachos, que se enchem de visitantes nas poucas datas que compõem o calendário festivo local, a exemplo da emancipação do município e da festa do padroeiro São Sebastião e de Nossa Senhora da Saúde. Outra ocasião especial que movimenta a pequena cidade acontece quando os times locais disputam os campeonatos de futebol municipais e intermunicipais do Sertão alagoano. As três maiores forças do futebol doisriachense são o União São Sebastião, o Pedra do Padre e o CSA Roberto. Foi neste último (e não no clube maceioense, como já noticiado) onde Marta, aos 12 anos de idade, teve a oportunidade de calçar as primeiras chuteiras – maiores do que seus pés – pela primeira vez.

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Marta é a única atleta a vencer o prêmio de Melhor Jogador de Futebol do Mundo pela Fifa por seis anos consecutivos

Filha de pais divorciados, a atleta acostumou-se a ver a família passar por dificuldades. A renda de sua mãe, dona Tereza, não dava conta de manter a casa e sustentar seus quatro irmãos. O caçula precisou trabalhar aos 12 anos para ajudar nas despesas. “Eu vivi uma infância muito feliz, apesar de ter sido criada sem a presença dos meus pais, pois o meu pai separou da minha mãe quando eu era bebê, e minha mãe trabalhava muito para termos o que comer e, normalmente, só nos encontrávamos à noite”, recorda a jogadora alagoana.

Ainda criança, a coisa que Marta melhor fazia era jogar futebol com seus primos e amigos num campinho de terra improvisado, próximo à casa onde morava. Com a bola no pé, conta, ela esquecia a realidade difícil em que vivia. Foi já naquela época que percebeu a dificuldade a ser enfrentada por praticar um esporte predominantemente masculino. Certa vez, o técnico de um time rival de Alagoas exigiu que ela tirasse sua roupa para provar se era realmente uma garota, tamanha era a sua habilidade. “Precisei engrossar com os caras para não fazerem aquele absurdo”, disse José Júlio de Freitas, o Tota, de 70 anos, primeiro técnico de Marta, em entrevista à revista Fut!

A sorte dos persistentes
Em 2000, aos 14 anos, a futura melhor jogadora do mundo mobilizou seus amigos e familiares para ajudá-la a comprar uma passagem até o Rio de Janeiro, onde entrou para o time feminino do Vasco da Gama. Seu talento começou a chamar a atenção das colegas de equipe, que lhe apelidaram de Pelé de Saia. “Lá, eu encontrei meninas que já atuavam na seleção brasileira. Eu estava muito determinada do que queria. Sentia falta de casa, da família, dos amigos, mas nunca passou pela minha cabeça largar tudo e voltar”, revela.

No Vasco, Marta começou na categoria sub-19. Dos R$ 200 que ganhava, tirava R$ 60 para enviar à mãe, em Alagoas. “Participamos do Campeonato Brasileiro Sub-19 e fomos campeãs em 2001. Fui eleita artilheira e melhor jogadora. A partir dali, as coisas foram mudando e logo subi para o time profissional e depois para a seleção adulta”, conta.

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Jogadora Marta em campo vestindo a camisa da seleção brasileira

Após dois anos no Rio, as atividades do time feminino do Vasco foram encerradas e ela ficou sem emprego. “Naquele momento, senti medo e pensei: ‘Será que cheguei até aqui para voltar à estaca zero?’. Mas Deus sempre vem colocando pessoas no meu caminho, pessoas de bom coração, e tive apoio de amigos que me deram o suporte para permanecer no Rio”, recorda Marta. Ficar no Rio era fundamental para que não perdesse a oportunidade de ser chamada para a seleção brasileira. Antes, surgiu o convite para jogar pelo Santa Cruz Futebol Clube de Minas Gerais, onde permaneceria de 2002 a 2004.

Em 2003, participou da Copa do Mundo Feminina, nos Estados Unidos, e numa partida contra o Umeå Ik, da Suécia, o presidente do clube europeu ficou impressionado com a atuação da alagoana nos gramados. Poucos dias depois da disputa, ele ligou para Marta convidando-a a vestir a camisa do time que comandava. Em 2004, aos 18 anos, Marta arrumava as malas e partia para um país totalmente desconhecido.

“Lá, treinava todos os dias, era muito intenso, o que me ajudou a desenvolver fisicamente e levar uma vida de atleta, exclusivamente para o futebol. Os treinos pareciam jogos e eu sempre buscava mostrar o meu melhor, o que me ajudou muito a ser o que sou hoje e a me tornar uma atleta de alto nível”, conta ela, que precisou vencer também o estranhamento em relação a um país tão diferente do Brasil: “A saudade que eu tinha da comida brasileira e do clima eram as coisas mais complicadas. Mas isso tudo se transformava em motivação quando eu me lembrava de onde tinha saído e aonde eu tinha chegado”.

Pelo impressionante desempenho no Umeå Ik, Marta tornou-se conhecida pela Europa e conquistou diversos prêmios. Entre eles, os títulos do Campeonato Sueco (2005, 2006, 2007 e 2008) e a Copa da Suécia, em 2007. A alagoana também vestiu a camisa da seleção brasileira nos Jogos Pan-americanos de 2007, no Rio de Janeiro, conquistando a medalha de ouro, onde foi artilheira com 12 gols. Em 2008, a equipe foi vice-campeã nas Olimpíadas de Pequim, na China.

Um ano mais tarde, em 2009, durante a coletiva de imprensa que antecedeu a premiação dos melhores jogadores do mundo de 2008, Marta anunciou a sua transferência para o Los Angeles Sol, dos Estados Unidos. No clube norte-americano, foi artilheira da Liga Nacional, levando a equipe ao vice-campeonato. No mesmo ano, foi emprestada ao Santos por três meses.

Cenário difícil
Em janeiro de 2012, na ocasião do seu encontro com a presidente Dilma Rousseff, a alagoana Marta desabafou sobre os problemas que ofutebol feminino enfrenta no Brasil. Para ela, o preconceito, a falta de apoio e patrocínio são os maiores obstáculos a serem vencidos. As jogadores brasileiras de futebol, por exemplo, continuam lutando pela criação de uma liga feminina.

No entanto, os problemas enfrentados por essa categoria são comuns em todo o mundo. Dos três times por onde passou nos Estados Unidos, apenas Western New York Flash segue operando, e com dificuldades financeiras. No começo do ano, a Liga Nacional Norte-Americana foi extinta e alguns clubes estão agora estudando como continuar com o campeonato nacional. No Brasil, o Santos, que chegou a conquistar uma Taça Libertadores com a ajuda de Marta, também encerrou a divisão feminina por falta de patrocinadores.

A despeito desse cenário nada animador, a atleta alagoana não deixa de incentivar novos talentos a se lançarem no futebol. “É preciso ter muita determinação e acreditar em si mesma, no seu sonho, pois dificuldades irão existir, mas é necessário estar focada e transformá-las em motivação para continuar na luta”, diz a jogadora.

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