Cinema, Revista Graciliano
Pixote do sertão

Pixote do sertão

Celebrando a parceria entre a Imprensa Oficial Graciliano Ramos e o Festival de Cinema Universitário de Alagoas, publicamos parte da entrevista concedida pelo roteirista alagoano Tairone Feitosa à revista Graciliano n. 16, que fala sobre o audiovisual em Alagoas. Tairone  é o grande homenageado da quarta edição do festival, que recebe inscrições para a sua Mostra Competitiva até o dia 27 de julho. Saiba mais em www.evento.ufal.br/cinema. O texto é de Janayna Ávila.

Em 2013, o roteirista alagoano Tairone Feitosa celebra 50 anos de carreira, iniciada no Recife, quando estreou na TV Jornal do Commércio. De lá para cá, teve passagens também pelo circo, teatro, rádio e, finalmente, o cinema. O roteiro de filmes como Luzia Homem, Ele, o Boto, O Homem da Capa Preta e Veneno da madrugada tem sua assinatura. Hoje, morando, por opção, em Delmiro Gouveia, no Sertão de Alagoas, cidade onde nasceu, ele fala, em entrevista exclusiva à Graciliano, como o cinema entrou em sua vida 

Em busca de sua “velha alma sertaneja”, o roteirista alagoano Tairone Feitosa fez, há alguns anos, o caminho de volta de uma longa e produtiva temporada no Rio e fixou-se em Delmiro Gouveia, cidade localizada a cerca de 300 km de Maceió e já na divisa com os estados de Sergipe e Bahia. No alto Sertão alagoano, onde nasceu, Tairone vem se dedicando ao ofício que sempre lhe garantiu o sustento: escrever.

Seu talento para produzir roteiros deu ao cinema brasileiro filmes como Luzia Homem, Ele, o Boto e O Homem da Capa Preta, todos referência para os realizadores atuais. O tema, entretanto, nunca foi uma preocupação para Tairone: “Na verdade, um tema é um estopim, a ponta do fio do novelo a partir do qual se descreve uma experiência humana”, afirma.

Atento ao que está sendo produzido na área em Alagoas – ele integrou a comissão julgadora do Prêmio de Incentivo à Produção Audiovisual 2012 –, quando convidado pelo cineasta alagoano Pedro da Rocha para expressar sua opinião no vídeo Estado de Cinema?, no ano passado, o roteirista alagoano Tairone Feitosa foi incisivo. Para ele, cinema não é apenas o testemunho de tempo e espaço, mas também de identidade: “É uma forma de você dizer ‘somos isso’, ‘somos Alagoas’, ‘nós vemos o mundo desse jeito’”.

Filho de artistas, o homem que iniciou na TV Jornal do Commercio do Recife, em 1963, e construiu uma carreira com passagens pelo circo, teatro, rádio, televisão e cinema, possui uma habilidade rara com as palavras – tanto na escrita quanto na oralidade. Em entrevista à Graciliano, ele contou, numa prosa saborosa e cheia de lances curiosos, a história da sua vida. Confira.

GRACILIANO – Você assina o roteiro de filmes que são considerados clássicos do cinema nacional nos anos 80. Na sua opinião, foi a época mais produtiva do audiovisual brasileiro? 

TAIRONE FEITOSA – Não digo que foi a mais produtiva, mas foi um tempo de muita produção. A censura estava morta e enterrada. Novos realizadores ocuparam espaços que antes eram muito difíceis conquistar. Todos buscavam uma comunicação maior com o público sem abrir mão do compromisso de olhar o Brasil e de explorar nossas singularidades. Penso que “aderir ao mercado sem se render a ele” seria um lema possível para aquele momento. Essa geração se afirmou e abriu caminho para a moçada que está aí. E, não vou esconder, tenho um certo orgulho de ter participado desse momento.

Quais as memórias mais expressivas que você guarda da época em que trabalhou com diretores como Ruy Guerra, Walter Lima Jr, Fábio Barreto e Sérgio Rezende? 

Tive uma convivência mais próxima com Ruy Guerra. Durante algum tempo moramos na casa de Ruy Polanah, outro moçambicano arretado e um das pessoas mais inteligentes que conheci. Trabalhar com Ruy sempre foi um grande prazer. É um cara afiado em suas observações, exigente e muito focado. Além da convivência,

lembro-me do seu rigor com as estruturas dramáticas e o zelo pela exatidão de cada cena. Faz isso sem se deixar aprisionar por um formalismo vazio e perder sua capacidade de manter o bom humor mesmo nas horas mais tensas – e que são muitas quando se está escrevendo ou filmando. Com Walter Lima e Fábio a convivência foi mais neutra, mas guardo boas lembranças de todos e com cada um deles acabei adquirindo algum tipo de aprendizado. De Walter Lima, recordo a valorização dos aspectos humanos das histórias dos personagens; com Fábio, a procura de comunicação com o público; e em Sérgio, um cineasta inteligentíssimo e tremendamente comprometido com seu trabalho, aprendi que existem muitos caminhos para chegar aonde queremos e que é preciso experimentar todos antes de escolher por qual deles você decide andar. 

Em 1986, foi lançado O homem da capa preta, filme sobre a trajetória política do alagoano Tenório Cavalcanti, um homem de métodos violentos que saiu do Sertão de Alagoas e reinou em Duque de Caxias, no Rio. Você foi o roteirista do filme, que ganhou os Kikitos de Melhor Filme, Melhor Música, Melhor Ator (José Wilker) e Melhor Atriz (Marieta Severo) no Festival de Gramado de 1986. Hoje, você vive em Alagoas. Pensa em escrever sobre a tradição, que ainda persiste, de violência na política de Alagoas? 

Nunca pensei em determinados temas isoladamente. O mais importante em um filme é o interesse humano que ele desperta e, em minha opinião, esse interesse é um dos pilares mais sólidos da dramaturgia. Na verdade, um tema é um estopim, a ponta do fio do novelo a partir do qual se descreve uma experiência humana. A experiência dos personagens que fazem parte do universo que se deseja explorar.

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O Veneno da Madrugada, dirigido por Ruy Guerra, é uma adaptação do romance La mala hora. Como foi a experiência de escrever, em parceria com Guerra, um roteiro a partir de uma obra de Gabriel Garcia Márquez? O nome dele representou uma pressão a mais nesse processo que por si só já é tão complexo? 

Como disse o próprio Ruy, o passo inicial para uma boa adaptação é “matar” o autor da obra a ser adaptada. Por que isso? Porque uma adaptação é muito mais do que uma simples ilustração de uma obra literária. É uma interpretação dessa obra. Uma coisa feita a partir da, vamos dizer, alma da obra original. A captura da essência de um livro encontramos, por exemplo, em São Bernardo, de Leon Hirschman, em O padre e a moça, de Joaquim Pedro, em Apocalypse now, de Coppola e de tantos outros. É preciso descobrir o que é cinema na literatura. Lembra a história do escultor que, perguntado como se esculpia um elefante a partir de um bloco de mármore, respondeu: “É fácil: você pega o mármore e retira dele tudo que não é elefante”. No caso de uma adaptação, você retira do livro tudo que não é cinema. O próprio Gabriel Garcia Márquez, que também é roteirista, compreende essa necessidade de descolamento da obra original e em nenhum momento interferiu ou nos pressionou. 

Qual o trajeto que o levou à profissão de roteirista? 

Sou filho de artistas. Meu pai foi artista de teatro e de circo seguindo o circuito habitual: trapezista, palhaço, ator e ensaiador, que era o nome que se dava na época ao diretor. Minha mãe foi excelente cantora e atriz talentosa, mas bissexta. Grande parte da infância eu passei acompanhando, dos bastidores, a encenação das comédias de facho dos palhaços e dos dramalhões maravilhosos que compunham o repertório dos circos e das trupes mambembes: O mundo não me quis, O ébrio, Mestiça, A vingança do Judeu, Ladra, Remorso vivo, o clássico E o céu uniu dois corações e muitos, muitos outros. Acho que foi ali que o bicho mordeu. Minha vida profissional se iniciou na TV Jornal do Commércio do Recife, há mais tempo do que gostaria 

de confessar, mas confesso, mesmo levemente contrariado, em 1963. Dois anos depois, já no Rio de Janeiro, um amigo, Billy Davis, me convidou para trabalhar como continuista em um filme em que ele era produtor executivo. O trânsito para roteiro começou mais tarde, quando Ruy me convidou para trabalhar com ele em um roteiro sobre a Guerra de Canudos. O trabalho não foi adiante e ele concluiu o roteiro na Espanha, em parceria com Vargas Llosa. Desse trabalho resultou o romance A guerra do fim do mundo. Anos mais tarde, escrevi o primeiro roteiro que chegou às telas: J. S. Brown, o último herói, de José Frazão. A partir daí, abandonei as outras atividades e comecei a trabalhar regularmente com roteiros. Basicamente foi isso: circo, teatro, televisão, cinema, com algumas incursões pelo rádio.

Se não tivesse construído uma carreira voltada ao cinema, você imagina qual o caminho profissional que teria trilhado? 

Já desejei ser muita coisa: astrônomo, espião, agrônomo, maestro e caminhoneiro. Hoje, olhando para trás, ficaria indeciso entre ser maestro ou caminhoneiro. Como minha relação com a música é a de um amor não correspondido, acho que seria caminhoneiro mesmo.

Você pensa em dirigir um dia?

Penso que todo mundo ligado ao cinema pensa, pensou ou pensará um dia em dirigir um filme. Já me aventurei na direção de documentários e tenho alguns projetos nessa área. Estou trabalhando para viabilizar pelo menos um desses projetos, intitulado A morte das caiporas, enfocando o progressivo desaparecimento da mitologia sertaneja a partir da devastação das caatingas. Esse tema me surgiu quando estava produzindo um radiodocumentário na região do Moxotó e vi em uma aldeia uma tabuleta convidando a comunidade a uma festa de Halloween. Isso me levou a uma conclusão: a devastação leva primeiro ao afastamento e depois à morte dos nossos mitos ligados à mata. E, se nossos mitos morrem, outras mitologias assumem seu lugar. O projeto ainda está em fase muito embrionária, mas vou fazer.

Alagoas vem vivendo, com o cinema digital e os editais públicos, um momento mais propício à produção audiovisual. Qual sua opinião sobre o que vem sendo produzido recentemente? 

Vejo com otimismo, mas acho que poderíamos estar mais avançados. O audiovisual é uma forma de afirmação de um povo. Infelizmente esta não é a percepção de governantes e empresários. Fui um dos jurados da segunda Mostra Sururu e vi alguns filmes que me deixaram muito animado com o nível de realização. Conheci pessoas muito interessantes, empenhadas na construção de uma carreira no ramo do audiovisual. Henrique, Flávio, uma arquiteta cujo nome me escapa agora e que tem um olhar e um senso de ritmo e andamento muito sensíveis. Temos talentos como Pedro da Rocha, Hermano Figueiredo e muitos outros contra os quais estou cometendo a injustiça de não citar aqui. Temos histórias, cenários, uma luz maravilhosa. Temos tudo. Basta que o audiovisual, que é uma joia, deixe de ser visto como uma pedra no sapato. O caminho é difícil e longo, mas o cinema alagoano dá sinais de vida e de vitalidade e não tenho dúvida de que chegará lá. 

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Você consegue acompanhar a produção recente do cinema brasileiro? Das coisas que viu por último, o que mais impressionou?

Difícil responder. Gosto do cinema pernambucano, especialmente dos filmes de Cláudio Assis. Gosto da dramaturgia mais crua e direta e isso o pessoal de Pernambuco faz muito bem. Gosto muito dos filmes do Ruy. Os que ele já fez e os que ainda vai realizar. O Veneno é um filme ousado, uma manipulação do tempo muito competente e muito poética. Aprecio Tropa de Elite 1 e 2, embora não goste da abordagem do primeiro. Mas, de todos os filmes que assisti nos últimos anos, os que mais me impressionaram foi Estorvo, de Ruy, por seu extraordinário domínio da linguagem, e O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger. Um mergulho sensível e comovente nos tempos escuros da ditadura. Contundente sem ser panfletário e poético sem ser piegas (pleonasmo: poesia e pieguice se excluem automaticamente) fiquei muito comovido com O palhaço, de Selton Mello e Na quadrada das águas perdidas, longa-metragem de baixíssimo orçamento realizado por Marcos Carvalho, diretor e produtor que vive em Petrolina, onde toca o Cinema no Interior, um projeto maravilhoso. 

Você saiu de Alagoas e morou no Rio de Janeiro nos anos 80, que era, necessariamente, onde o cinema acontecia no Brasil. Há alguns anos, está em Delmiro Gouveia, Sertão de Alagoas. Por que resolveu voltar a morar na sua terra natal? Estava em busca da vida menos acelerada de uma cidade de interior? 

Foi isso, mas não foi somente isso. Sei que parece meio tolo, mas voltei para reencontrar minha velha alma sertaneja. Continuo procurando… 

Quando não está escrevendo, lendo ou pesquisando, o que você costuma fazer em Delmiro Gouveia? 

Fico pensando besteira, tentando viabilizar o Circo de Leituras Joval Rios que, graças ao meu talento inato para perder dinheiro, não pede e não aceita ajuda de políticos, olhando a silhueta distante do Craonã ou jogando buraco no Bar do Jorge e, valendo-me de minha vasta experiência no ramo afirmo, sem falsa modéstia, que sou um pixote como nunca houve antes nem haverá outro depois de mim. Pixote convicto, no jogo como na vida. E gosto de ser assim.

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