Entrevista, Literatura
Além do que se vê

Além do que se vê

O que acontece quando quatro amigos jornalistas não se satisfazem com as perguntas básicas para se construir um texto jornalístico – O que? Quem? Como? Quando? Onde? Porque? – e decidem ir além? A resposta pode ser dada pelo quarteto Elayne Pontual, Glória Damasceno, Ana Cecília da Silva e Francisco Ribeiro.

Desde abril deste ano eles comandam o blog Vidas Anônimas, uma publicação independente destinada a leitores interessados em descobrir muito mais do que as cinco perguntinhas do lide podem revelar. Buscando personagens anônimos – como o próprio título do blog revela – eles mostram o quanto a vida de uma pessoa desconhecida e muitas vezes invisível aos olhos da maioria da população pode, e é, interessante. Um ascensorista, um pintor, um porteiro, todos têm histórias para contar, motivos para se orgulhar e algo a acrescentar de bom na vida dos outros.

Com o sucesso do blog, que agora também foi parar nas páginas de um jornal e, futuramente, pode se transformar em livro, o blog Graciliano On-line foi conversar com os quatro criadores do projeto e mostra, para você, o outro lado do Vidas Anônimas. Confira:

Graciliano On-line: O projeto, na verdade, é fruto de um trabalho de conclusão de curso que não teve continuidade. Gostaria de saber quando houve o despertar desse interesse pelo anônimo, pelo desconhecido. Foi na época da faculdade ou já vinha de outras épocas?

Elayne: No quinto período da faculdade, decidi que em meu trabalho de conclusão de curso eu falaria sobre anônimos, mas não sabia ainda como. A resposta veio quando eu estava numa livraria de Brasília, na época em que meu namorado morava lá. Vasculhando as prateleiras de jornalismo, descobri o livro A Vida que Ninguém Vê, da grande jornalista que é a Eliane Brum. Assim que cheguei ao hotel mandei um e-mail pra minha dupla, que hoje também é parceira no Vidas Anônimas, a Ana Cecília. Disse a ela que havia encontrado nossa maior inspiração para o trabalho. E Eliane Brum até hoje tem sido uma grande inspiração para todos nós.

Esse “Olhar para ver”, que vocês citam na descrição do Vidas Anônimas, é algo muito pessoal. O fato de ter quatro olhares diferentes, e que se complementam, dentro do projeto foi algo pensado e escolhido “a dedo” ou essa união aconteceu naturalmente?

Elayne: Eu diria que natural e ao mesmo tempo “escolhido a dedo” porque, quando chamei Cecília, Glorinha e Chico para construirmos juntos o VA, nós já éramos amigos e eu já tinha uma admiração muito grande por eles, tanto pelo que são enquanto profissionais, como pelo que são enquanto pessoas.

Glória: Aconteceu naturalmente. No dia-a-dia, nós vamos se complementando, divergindo, concordando. E “olhando pra ver”.

Autores do blog - Ana Cecília da Silva, Elayne Pontual, Glória Damasceno e Francisco Ribeiro

Os quatro amigos e autores do blog Autores do blog – Ana Cecília da Silva, Elayne Pontual, Glória Damasceno e Francisco Ribeiro

Os textos do projeto possuem uma narrativa totalmente literária, daquelas que envolvem o leitor e o faz praticamente ser transportado para a cena/história narrada. Quem são as referências para vocês nesse tipo de jornalismo, o literário?

Elayne: Eliane Brum, Zuenir Ventura, João do Rio, Caco Barcellos, Lira Neto. E também os estrangeiros: Gay Telese, Truman Capote entre outros.

Chico: A revista Piauí, que a cada nova edição traz perfis/histórias de anônimos na editoria “Esquinas”, é outra das grandes inspirações para nós.

Ana Cecília: Acho que o nosso projeto, por mais que seja em prosa, tem muito de poesia.

Há alguns meses conheci um projeto parecido com o de vocês, o Perfis Paulistanos. E é muito legal ver que alagoanos “invisíveis” aos olhos de muitos, também possam ganhar voz e espaço através do projeto de vocês. Vocês se inspiraram em algum projeto semelhante?

Elayne: Conheci o Perfis Paulistanos depois de lançarmos o Vidas Anônimas e fiquei muito contente em saber que outras pessoas, de outros lugares do país, tiveram uma iniciativa semelhante.

Chico: Como a Elayne respondeu na primeira pergunta, inicialmente a obra que serviu como inspiração para o projeto foi A Vida que Ninguém Vê, da jornalista Eliane Brum. Hoje, contudo, expandimos nosso leque de referências para tudo o que envolva jornalismo, literatura e pessoas.

Glória: Penso que nossa inspiração vem dos livros dos autores citados acima, das crônicas deles, e de outros escritores, dos personagens que fazem o blog Vidas Anônimas, das pessoas e coisas que nos rodeiam. Particularmente a minha “inspiração” vem daí. Nunca li nada parecido aqui no estado, ao menos de forma tão direcionada. Pode ser que tenha, mas de forma tímida ainda. Talvez.

No dia a dia, à primeira vista, antes mesmo de pensarem no projeto, o que mais chama atenção de vocês em um “anônimo”?

Elayne: O mistério. O que está por trás daqueles gestos, daquelas palavras, daquele o olhar. O que mais me chama atenção no anônimo é saber que existe vida ali, uma vida diferente da minha e ao mesmo tempo igual. São pessoas feitas da mesma matéria que eu, mas construídas de forma diferente.

Chico: Mostrar, assim como escreveu a jornalista Elaine Brum, que a vida acontece graças ao avesso da importância. Num tempo em que se supervaloriza o banal e todos querem cinco minutos de fama, dar espaço para aquelas pessoas que possuem vivências surpreendentes e que permanecem anônimas pode nos dar lições importantes. Umas delas é que há outras formas de medir a existência além do dinheiro e do sucesso profissional.

Ana Cecília: Cada anônimo apresenta uma singularidade, todo ser humano, na verdade. Então nosso principal objetivo é lançar um olhar sensível sob essas pessoas e perceber o que há por trás de seu anonimato e de sua vida aparentemente comum. Seja sob a forma de um olhar, de um gesto que nos revele a grandeza desse personagem.

Glória: Alguma particularidade. Seja o carisma, seja a introspecção, o modo como se comporta, falando de uma maneira geral, ou o modo como se veste. Ou como as pessoas ao redor se relacionam com o personagem. Ou ainda uma característica que salte aos meus olhos. Enfim, o anônimo se apresenta “singular” de alguma maneira. E essa singularidade vai muito da visão de mundo de cada um.

Toda história merece ser contada, pois toda vida tem seus encantos e peculiaridades. Porém, umas são mais “contáveis” que outras. Desde um personagem como o Galego do Veneno que, mesmo sendo “menos anônimo”, ainda tinha muito o que contar para nós, até o porteiro do prédio de uma das jornalistas do projeto, como vocês escolhem os personagens e como filtram – se filtram – as histórias e pessoas que “valem mais a pena”?

Elayne: Bom, até o momento realmente não paramos para definir qual história vale mais apena ser contada. Para nós, qualquer história pode ser contada porque, de fato, toda vida tem seus encantos e peculiaridades, como você disse. Cabe ao repórter saber fazer as perguntas certas. Uma boa conversa é feita também de boas perguntas, assim como as boas histórias.

Chico: Nossas pautas são as histórias de vida dos nossos personagens. Logo, critérios de relevância (noticiabilidade) usados no “jornalismo tradicional” não se aplicam da mesma forma ao VA. Afinal, seria um grande dilema a gente definir qual vida merece ser contada ou não. Todas as decisões relacionadas ao projeto são tomadas de forma horizontal, inclusive esta.

Glória: A filtragem do personagem, até o momento, tem sido particular. Em geral, a gente já chega com o texto encaminhado, restando apenas a edição dos outros integrantes da equipe. Daí eles fazem a leitura, opinam o que está bom ou não aos olhos de cada um. E depois disso a gente publica. Até agora o filtro tem sido individual. A gente confia muito na sensibilidade um do outro.

Alguns personagens do Vidas Anônimas - Galego do Veneno, o Comendador Amaro, o porteiro do Mediterrâneo e Pedro Tarzan.

Alguns dos personagens anônimos que já apareceram no blog – Galego do Veneno, o Comendador Amaro, o porteiro do Mediterrâneo e Pedro Tarzan

Alagoas é feita de muitas culturas e povos diferentes. Sertão, do Agreste, da Zona da Mata e do Litoral. São vivências e histórias totalmente diferentes, que muito tem relação com cada um desses locais. Vocês ainda estão no começo, mas pensam em explorar toda essa diversidade de personagens e culturas do estado?

Elayne: Sim, com certeza! Apesar de que, já exploramos um pouco disso de certa forma. O Galego do Veneno, por exemplo, ele viveu no interior, foi “criado no mato”, como ele mesmo disse. Quando a gente busca o histórico de vida dessas pessoas, a gente consegue trazer os costumes, as crenças e os valores que adquiriram com o passar do tempo. E o lugar onde nasceram, onde moraram/moram, influencia muito em tudo isso.

Glória: Eu só estou esperando a oportunidade de dar um pulinho lá na minha segunda terra, Arapiraca, pra seguir em busca de uma sugestão de VA que uma amiga nós deu. Esse é um ponto que só tem a enriquecer o projeto. Afinal de contas, há Vidas Anônimas para além de Maceió, não é?!

Diferentes de projetos mais superficiais sobre o mesmo tema, como o Humans of New York, vocês mergulham com tudo na história dos personagens escolhidos. Qual a importância pra vocês, como jornalistas, de uma imersão tão grande na vida dessas pessoas? O que isso acrescenta/modifica no seu modo de encarar a vida e a profissão?

Ana Cecília: Poder penetrar nesses universos particulares é uma experiência maravilhosa, tanto como jornalista, quanto como ser humano, pois só dessa forma eu poderia dar voz aos personagens que não viram notícias.

Glória: A gente aprende muito quando escuta o outro. E ao mesmo tempo em que nos conhecemos, nos reconhecemos nele também. É um exercício de desprendimento de preconceitos, de lugares-comum de nós mesmos. É também um grande desafio entender, interpretar, aproximar-se do que se passa dentro da cabeça dos nossos personagens e contar da forma mais honesta possível. Amadurecimento. Essa é a palavra.

E como vocês veem a importância do projeto para essas pessoas anônimas. Qual a reação deles e a importância de eles perceberem que a vida deles também tem valor e pode fazer muito sentido para as outras pessoas?

Elayne: Muitas vezes o próprio personagem se descobre e redescobre durante a entrevista. Percebo que aquela atenção que estamos dando faz bem a essas pessoas porque elas se sentem importantes de alguma forma, sentem que estão vivas, que existem.

Chico: Um dos nossos compromissos é após publicarmos uma história, irmos à procura de cada um dos nossos personagens para mostrá-los a poesia que extraímos da matéria-prima que é a existência delas. E isso já é o suficiente para mover o nosso trabalho.

Glória: Quando a gente se sente invisível, não querendo essa condição, e alguém chega e nos “enxerga” por alguma faísca de segundo que seja, a gente passa a olhar a nossa vida de forma menos insignificante. Nossa existência é uma troca de “miradas”. Se “ninguém” nos vê, nunca!, então é como se a gente não existisse. E não existir em vida dói.

Como vocês acham que esse olhar de vocês e o fato de mostrarem como qualquer pessoa é uma história interessante pode influenciar outras pessoas a enxergarem o que antes era “invisível”?

Elayne: Quando a gente traz para a internet a história de alguém que dificilmente seria reconhecido pela mídia convencional, a gente está mostrando que você, também um anônimo, é importante. De certa forma, queremos dizer que não é necessário ganhar prêmios, nadar em dinheiro e reconhecimento, ter sucesso profissional ou algum destaque na sociedade para ser “alguém no mundo”. Quando mostramos que o pintor Zezinho tem um lugar especial no mundo, estamos dizendo que você também tem o seu.

Chico: Olhar e ver são os exercícios mais valiosos para nós. Com esta atitude, de olhar dedicado a ver, a gente reconhece o outro e a si mesmo. É descobrir-se através do outro. Essa é uma experiência surpreendente, que desejamos compartilhar com os leitores.

Ana Cecília: O jornalismo literário é o oposto da efemeridade. Através dessas histórias queríamos, de certa forma, eternizar esses personagens, queríamos mostrar que aquelas pessoas consideradas “invisíveis” tem muito em comum conosco e que suas histórias de vida podem ser objeto de reflexão para pensarmos na nossa própria história e o modo como estamos nos relacionando com o próximo.

Glória: Talvez, não posso afirmar, gerando uma autorreflexão sobre a vida da cada um. “Se Maria de Tal passou por isso e isso fez da história dela, uma história a ser contada, por que eu, que passei por aquilo, não teria o que narrar?” É um despertar para a grandeza da simplicidade e também da complexidade. E até uma quebra da supervalorização da “epopeia” do outro. Às vezes, a gente tem uma pra contar. Algumas histórias valem um livro, outras valem um conto ou uma crônica. E isso é com o fato-personagem e o narrador.

O projeto tem poucos meses e já é um sucesso, com uma aceitação enorme por parte do púbico. Quais são os próximos passos do Vidas Anônimas?

Chico: Em breve, vamos dar início a uma investigação sobre a relação entre fama e anonimato, e a implicação dela na vida das pessoas comuns. A questão será discutida através de uma série de entrevistas com psicólogos, filósofos, jornalistas, escritores etc. A gente pretende trazer à tona novas e diferentes perspectivas sobre o assunto.

Glória: E em longo prazo, pretendemos transformar o VA num livro, onde a gente pretende selecionar algumas histórias já publicadas e contar outras inéditas.

Ana Cecília: A gente se sente muito feliz com essa receptividade, nós acreditávamos que teria uma aceitação boa, mas não imaginávamos que fosse tão grande e de forma tão rápida.

SERVIÇO
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