Artes Visuais
Geografias da arte contemporânea

Geografias da arte contemporânea

“A arte contemporânea instalou-se”, enfatizou o professor português José Gil, em artigo para o jornal Folha de S. Paulo, “com o estilhaçar das certezas”. É desafiador refazer o caminho que as produções artísticas trilharam a partir dos anos 1980. Duchamp e os seus discípulos americanos deram o pontapé inicial num processo sem volta. Eles preconizaram inovações que se estabeleceram como os pilares da arte produzida nos dias atuais: a experimentação como processo, a coexistência gostos, correntes e estilos, além do fim do discurso universalista.

Uma das características mais latentes da arte contemporânea é também o fortalecimento do diálogo entre artistas de diferentes nacionalidades e regiões. Com o propósito de potencializar este intercâmbio de olhares, o projeto baiano Circuito das Artes – Triangulações elegeu Maceió e Belém como cidades sedes da segunda edição da mostra, que segue em cartaz até o dia 06 de setembro, na Pinacoteca Universitária da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

A mostra itinerante surgiu a partir do Circuito das Artes, ação que está na 7ª edição e compreende um conjunto de exposições artísticas promovidas em duas etapas: o Circuito das Artes da Bahia e o Triangulações, que em 2014 chega a sua segunda edição e leva para dois estados as obras selecionadas daquele ano. Em 2013, Brasília e Recife sediaram o evento.

Neste ano, a curadoria geral de fica a cargo de Marília Panitz, um dos grandes nomes de pesquisa e curadoria no segmento no Brasil. Marília, que já participa do projeto desde o ano passado, destaca o caráter descentralizador de Triangulações, ao propor novos eixos para debater a criação, produção, difusão e apreciação da arte contemporânea.

“Estamos conseguindo promover um intercâmbio de olhares entre grupos de artistas de pontos diversos do país. Com esta iniciativa, identificamos técnicas, linguagens e temas comuns, dialógicos ou específicos de cada contexto. O resultado deste recorte e interseção é uma visão mais rica do panorama das nossas artes visuais”, comenta Eneida Sanches, coordenadora geral do projeto.

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15 artistas alagoanos foram escolhidos para integrar a mostra Triangulações (Fotos: Francisco Ribeiro)

A exposição apresenta 49 obras. Deste total, 15 são assinadas por artistas alagoanos, como Dalton Costa, Delson Uchôa, Eva Le Campion, Martha Araujo, Rogério Gomes, Ulisses Locicks, Alice Jardim, Maria Amélia, Marianna Bernardes, Pedro Lucena, Renata Voss, Ricardo Lêdo, Karla Melanias e Marta Emília.

Herbert Loureiro está entre os eleitos. O jovem ilustrador, que já expôs na Pinacoteca, em 2012, afirma que fazer parte do projeto traz uma dimensão maior para o seu trabalho.

“Estamos aqui em Maceió, como uma esfera tão limitada ao pensar a arte contemporânea, já que é raro o fomento às discussões, às apresentações dos próprios trabalhos e também o próprio diálogo sobre as obras de outros artistas. Daí que triangulações abre uma nova vontade de perceber outros trabalhos e se ver refletido também em outras produções, outras temáticas”, observa.

Divididas em eixos temáticos, as obras escolhidas foram reunidas em três espaços conceituais: o Atravessamento, inscrições do pensamento; o Deslocamento, linhas do horizonte; e o Anamnese, passagens do tempo. O blog Graciliano On-line esteve na mostra e preparou um breve roteiro do que você poderá encontrar por lá. Confira.

Atravessamento, inscrições do pensamento

A primeira sala do circuito reúne obras que discutem a estrutura da linguagem, em termos conceituais, técnicos e materiais, como elemento para construção de um objeto ou uma ideia. No espaço, estão expostas dos alagoanos Dalton Costa, Delson Uchôa, Eva Le Campion, Martha Araujo, Rogério Gomes e Ulisses Locicks.

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“O atravessamento aqui se refere ao movimento diagonal de transpor fronteiras entre campos de conhecimento como ferramenta de produção de arte”, escreveu Marília Panitz no texto curatorial.

Anamnese, passagens do tempo

O total de 15 obras foi agrupado neste espaço. Os trabalhos tratam da questão da passagem do tempo e das passagens no tempo. Memória e projeção. Anotações e indicações. Ação política e ficção. Temas que provocam discussões sobre a pluralidade de relatos que nos insere em grupos culturais.

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Herbet Loureiro, Karla Melanias e Marta Emília são os artistas alagoanos cujas peças se enquadram no conceito de Anamnese. Termo, conforme explicou Panitz, usado para definir “o movimento vertical, paradigmático, é o movimento da arqueologia e da emulação do que virá”.

Deslocamento, linhas do horizonte

O conjunto de obras reunidas na segunda sala dialoga com paisagens naturais, como, por exemplo, imagens à beira mar, visando lançar a perceptiva de que o ambiente pode fornecer certo repertório poético para o artista. “O deslocamento aqui é o horizontal movimento horizontal, acompanhado a linha que divide o ar e a água. Dois azuis”, explicou a curadora.

Alice Jardim, Maria Amélia, Pedro Lucena Renata Voss, Ricardo Lêdo e Marianna Bernardes estão entre os artistas alagoanos que dividem o espaço com as criações de Dannielle Fonseca (PA), Andrew Kemp (BA), e outros.

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“O exercício do diálogo – para a arte, a cultura e a sociedade como um todo, entre suas questões e relações – me parece fundamental”, observa Marianna Bernardes sobre o carácter do Circuito das Artes. “Esse é o objetivo principal da mostra: estabelecer o diálogo artístico entre as atuações de profissionais que trabalham fora do eixo para o qual geralmente as atenções estão mais voltadas, que é a região sudeste. O que a Triangulações procura fazer, creio, é trabalhar no sentido de criar e fortalecer o mercado local, dando legitimidade à arte e a cultura contemporâneas que são produzidas por aqui”.

SERVIÇO
O quê: Circuito das Artes – Triangulações
Onde: Pinacoteca Universitária, Praça Sinimbú, s/n, Centro
Visitação: até 06 de setembro; seg. e qui., das 08h às 20h; ter., qua. e sex., das 08h às 18h.
Aberto ao público.
Mais informações: (82) 3214-1545.

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