Cultura popular
Somos todos periferia

Somos todos periferia

Periferia. Pode até não parecer, mas é lá aonde as coisas acontecem  embora passem despercebidas aos olhos de boa parte da população. Explico. Quando mapeadas as regiões em Maceió, em que as manifestações da cultura popular, a exemplo dos folguedos e das quadrilhas, permanecem ativas, sem sombra de dúvidas, vão figurar na lista bairros como Jacintinho, Bebedouro, Vergel e Pontal. E ainda que tais locais estejam associados a problemas sociais é indiscutível a sua importância sociocultural.

Porém, relegados ao segundo plano pelo poder público, os bairros periféricos da capital alagoana enfrentam obstáculos, também, na difusão de suas expressões artísticas. Como forma de transpô-los, desde 2009 um grupo de moradores do Jacintinho, atuantes na promoção de ações culturais, foram convidados pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) a desenvolver um projeto pioneiro até então. A iniciativa tem como intuito apoiar práticas de reconhecimento e valorização da memória social.

Em outras palavras, o projeto se debruça sobre o cotidiano e a história de vida dos habitantes da periferia. “A gente só abraçou a ação, porque íamos falar a respeito da memória social, ou seja, sobre o seu José, a dona Maria etc., de pessoas que trabalharam e lutaram pro bairro ter água, luz, escola. Aceitamos justamente por saber que a periferia sempre teve muito mais que apenas a violência, apesar disso nunca ser divulgado, visível. Queríamos que essa nova perceptiva viesse à tona”, afirmou Viviane Rodrigues, moradora do Jacintinho.

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O cineclubismo está entre as ações culturais desenvolvidas nas comunidades periféricas em Maceió

Batizada de Pontos de Memória, a ação foi recebida por 12 comunidades populares, situadas em cidades diferentes, cujos índices de violência, na época, eram os mais altos do país. Ao lado de Maceió, estão: Belém, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Vitória.

“A primeira coisa que a gente definiu foi que não dava pra se falar somente sobre a formação do bairro do Jacintinho, mesmo sendo esta proposta inicial”, explicou a também consultora do projeto em Maceió Viviane Rodrigues, “pois nós temos vários parceiros que trabalham em outros bairros periféricos e seria interessante essa memória está inserida”.

A proposta foi aceita pelo Ibram. Com isto, o Ponto de Memória daqui aglomerou comunidades localizadas na Zona Sul (Trapiche, Bom Parto, Vergel e redondezas), na Vila Emater II, na Vila dos Pescadores de Jaraguá, no Jacintinho e nas regiões que compõem o recorte do HipHop (Tabuleiro e proximidades). “Dos 12 Pontos, somos o único que trabalha com a memória de mais de um bairro”, destacou Viviane.

A primeira etapa do projeto consistiu em entrevistas com os habitantes mais antigos de cada bairro. Na ação intitulada de Chá de Memória, o Ponto do Jacintinho reúne idosos numa roda de conversa para compartilhar a sua história de vida e o envolvimento deles com o local em que residem. Outra forma de captar a memória oral foi indo nas casas para conversar com os moradores. No total, 110 entrevistas foram realizadas até o ano de 2013.

As etapas seguintes constituem no inventário e na divulgação do material recolhido através, por exemplo, de exposições.  A mostra Livres Olhares: Memória em Permanência foi uma das ações desenvolvidas no ano passado, que recebeu apoio do Ponto de Memória. Apresentando fotografias capturadas por crianças de 07 a 14 anos que vivem na Vila dos Pescadores do bairro de Jaraguá. O trabalho foi fruto de uma oficina realizada em 2011.

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Chá de Memória no Jacintinho. Evento realizado em fevereiro de 2012.

Museu da Cultura Periférica: Entre, pois a casa é sua
Diferente da noção tradicional de museus a que estamos acostumados, o projeto propõe um novo modelo para tais espaços. Neste ambiente, o conceito estático, fixo, e de coleções que pouco dialogam com a realidade da população mais carente é desfeita.  A sua proposta ganha outros contornos: a de um museu móvel, itinerante, cujas obras expostas são a própria história da população a partir do olhar da comunidade.

“Quando aconteciam os Chás de Memória na Vila dos Pescadores de Jaraguá, nós perguntávamos para a população de lá: ‘Quantos museus vocês já foram?’ A resposta era ‘nenhum’. Mesmo morando próximo a vários, eles diziam que o museu não era convidativo, que não se sentiam à vontade para entrar. Já no caso do Museu da Cultura Periférica, pelo fato da memória que está ali ser a dos seus familiares, dá uma liberdade maior para entrar no espaço”, pontou Viviane, ressaltando: “Além de levarmos o museu para onde as pessoas estão”.

No ano passado, entre os meses de junho e novembro, esteve em cartaz no Museu da Imagem e do Som (Misa), a exposição Enseada de Cores em Tela. O material exposto foi resultado de uma oficina de pintura para as crianças da comunidade pesqueira de Jaraguá.

Para a mestre em História e professora da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) Elizabeth Salgado de Souza, o Museu é um exemplo da apropriação dos espaços públicos como forma de exercício da humanidade.“Pois, resulta em mudanças a partir de um processo de vivências estabelecido entre pessoas”, disse.

Mestre em História e professora da (Uesc) Elizabeth Salgado de Souza

Para a historiadora Elizabeth Salgado, o Museu “resulta em mudanças a partir de um processo de vivencias estabelecido entre pessoas”.

“Um exemplo do que falei agora a pouco é o Museu da Cultura Periférica, onde vários coletivos se encontram para discutir a realidade social e as manifestações culturais dessa região, apresentando a população não apenas as rodas de samba e a capoeira, mas expondo sua arte nos espaços públicos, como a feira do Jacintinho, as suas ideias e questionamentos, ouvindo as necessidades e anseios de quem por ali passa, e propiciando um momento de reflexão sobre si mesmo, sobre a convivência, a importância da coletividade enquanto força e união para buscar mudanças concretas para melhora da qualidade de vida e da inserção dos seus desejos, saberes e fazeres como bens culturais do povo alagoano”, comentou Elizabeth Salgado.

Memória na internet: Para além do material
A necessidade de uma sede que servisse como base para os cinco núcleos do Ponto de Memória em Maceió levou o grupo a criar o blog Museu Cultura Periférica. Nele, são publicadas fotos e descrições sobre as ações promovidas.

Viviane Rodrigues explica que o espaço virtual é uma forma de divulgar as atividades culturais e  informar aos moradores que não puderam comparecer em um determinado evento cultural. “Quando temos um evento, nós publicamos um slide com fotos sobre tudo o que aconteceu”, conta ela, advertindo: “Mas a gente ainda defende a importância de um espaço físico, porque ele vai nos dar a chance de alcançar também as pessoas que não estão na internet”.

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Exposição “Memória que o vento não levou…” realizada no Jacintinho, em dezembro de 2012. (Foto: Divulgação)

Resistência cultural: superando as adversidades
“O projeto deu certo, porque nós acreditamos nele”, enfatizou a consultora. As principais dificuldades enfrentadas pelo conselho gestor foram decorrentes do caráter pioneiro da iniciativa governamental.

“A gente desenvolveu a metodologia de memória social na prática, porque eles, assim como nós, são sabíamos como funcionaria. Vimos que cada comunidade tem seus modos e suas particularidades e devemos trabalhar de acordo com isso. Pois, como nascemos e vivemos na periferia sabemos como os nossos pensam e funcionam. Então, tudo foi se criando em conjunto”, lembrou.

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A consultora Viviane Rodrigues do núcleo do Jacintinho: “O projeto deu certo, porque nós acreditamos nele”.

O atraso no repasse da verba federal para desenvolvimento das atividades foi superada graças ao empenho e recursos dos próprios integrantes de cada núcleo.  “Recebemos a primeira parcela do valor prometido para realizarmos nossas ações em novembro de 2011, dois anos depois do primeiro contato. Com o dinheiro, 10 pessoas da comunidade receberam uma bolsa para trabalhar fazendo pesquisas e entrevistas com os moradores dos bairros”.

A falta de um espaço físico destinado para os núcleos se reunirem e promoveram alguns dos seus eventos é também uma das dificuldades enfrentadas pelo conselho. “O museu é para ser constante. A gente busca construir a memória social a partir da história oral. Como não conseguimos disponibilizar no blog todo o conteúdo que temos, nós esperamos tornar isso possível quando tivermos uma sala”, contou.

Para conhecer ou acompanhar as atividades do Museu da Cultura Periférica, acesse: www.museuculturaperiferica.blogspot.com.br.

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