Entrevista, Música

As redescobertas de Rodrigo Amarante

Nas aparições iniciais de Rodrigo Amarante com o seu primeiro disco solo, Cavalo, os palcos brasileiros fizeram silêncio para ouvi-lo. O espaço que as músicas de Cavalo ocupam, constantemente, era remetido a uma só palavra: solidão. O músico escolhe outra palavra para descrever o alicerce desse trabalho: “Prefiro solitude, ela tem um ar mais romântico, menos triste”. A solitude que Rodrigo vive e está impressa em cada espaço de seu disco é apenas uma forma de reconhecimento, como ele mesmo diz, de sua natureza.

Em plena entrega, o artista viveu o seu ano do Cavalo, com todas as movimentações que essa simbologia permite. Emprestado da umbanda e do candomblé, o conceito do Cavalo, responsável por transportar as entidades, ou até uma criatura domada para servir de veículo, galopa a mensagem do artista, que ele repete para si mesmo em francês, na sua Mon Nom: “Sou o estrangeiro… não falo assim como você”.

amaranteCavalo é ainda seu modo de dizer e conversar com o seu mundo, seus mestres, amigos. Do novo espaço que ele mesmo criou onde até então só existia vazio e estranhamento, seu mais recente trabalho é agora seu espelho, seu duplo, seu veículo. “Esse disco é a coisa mais importante que tenho, então, sentimento não falta, porque dou muito valor à oportunidade de poder seguir fazendo isso, escrevendo e cantando”, respondeu ao blog da Graciliano On-line, por e-mail.

Pela primeira vez em um processo de criação completamente sozinho, a feitura desse disco foi buscar algo delicado.  Em uma tela em branco, como a ousada capa de Cavalo, Rodrigo foi deixando seu rastro em cada detalhe, aguçando o potencial reflexo do olhar do ouvinte, no improvável. Todo esse processo é também uma forma de ir além, o músico abriu mão das gravações em um estúdio profissional e construiu o seu próprio lugar. Ele soldou seus próprios cabos, fez sua própria mesa.

O eco num vão que o tom íntimo de Cavalo é capaz de causar ressoou pelo mundo afora, foram mais de 20 países visitados, e é dessa longa turnê que Rodrigo retorna para uma série de shows no Brasil, um ano depois de apresentar Cavalo aos seus conterrâneos pela primeira vez. “O canto virou conto, o sonho virou destino”, disse ele em sua carta de anúncio dessa volta. Ansioso, ele se diz curioso para ver quem vem prestigiá-lo nesse retorno, como as pessoas vão reagir depois de sucessivas audições do disco.

Dessa nova fase, munido de toda a energia que essa jornada ainda o proporciona, uma saudação comum nos cultos afro-brasileiros acompanha sempre este Rodrigo a quem somos também reapresentados: saravá. É com boas vindas que o músico é recebido em Maceió, no próximo sábado (22), em show no Orákulo, produzido pela Alagou. Em entrevista exclusiva para o blog da Graciliano On-line, o artista fala sobre retorno, disciplina, seu mais recente trabalho e o que pensa para o futuro.

Sua carta de lançamento do disco e a de retorno ao Brasil com Cavalo são cheias de sentimento. Sobre sentir-se estrangeiro, em 17 de setembro de 2013, você escreve como era carregar secretamente, na vida juvenil, a mágoa do desvio, da espera da volta. Em 6 de novembro de 2014, você avisa que está chegando e a saudade é grande. Existe uma leveza aí nesse retorno, talvez resultado de todo o processo de maturação de Cavalo. Como é voltar depois de um ano e mais de 20 países carimbados no passaporte?
Imagina, pra uns meu disco é só mais um disco, mas pra mim é o motivo de justificar minha existência, é o prato que fiz pra trazer pra festa, é a minha vez de falar no simpósio, é a coisa mais importante que tenho, então, sentimento não falta, porque dou muito valor à oportunidade de poder seguir fazendo isso, escrevendo e cantando. Mas essa volta é ainda o começo, pelo menos pra mim ainda parece que sim, porque eu ainda estou querendo conhecer quem ouviu esse disco, gostou e quis vir me ouvir cantar. Eu passei esse ano viajando pelo mundo fazendo isso e acabei voltando a outros lugares antes de voltar ao Brasil. Quando eu fiz a primeira turnê aqui foi na semana que o disco saiu, então mesmo aqueles que ouviram e gostaram não tiveram tempo de se relacionar com o disco, ver como ele se desenvolve à medida que se ouve mais vezes. Eu estou muito curioso pra ver quem vem prestigiar.

Você chegou a comparar a metáfora do Cavalo com a disciplina que é preciso ter para concretizar ideias. Essa disciplina, aplicada no exercício dessa produção artística, é uma herança desse disco? O processo de cavalo chegou a te modificar nesse ponto?
Certamente. Escrever não é exatamente fácil pra mim. É prazeroso, mas não é fácil. O prazer está em conseguir encontrar o sentido, o fluxo de algo que se sente verdadeiro e com alguma qualidade de poder transmitir essa verdade em um código. Conseguir isso é subir a montanha, que também não é fácil, mas é prazeroso, e assim como a escrita, precisa de muita disciplina, de constância, de estar disponível e muito afim. Esse disco foi o primeiro que eu escrevi sozinho, que tomei todas as decisões sozinho, as artísticas e as práticas, então tive que inventar uma prática, um método, um jeito de fazer que acomodasse o meu processo. Mas eu vejo que cada método impõe coisas diferentes. Fazer esse disco foi buscar algo delicado e muito íntimo em mim então o isolamento fez todo o sentido. Se numa próxima eu juntar outros músicos e desenvolver os arranjos em grupo isso certamente vai acabar determinando a escrita também.

Você viaja o mundo com Cavalo há mais de um ano, e apesar de apenas seis das onze faixas do disco serem em português, como foi cantar a sua música para gente que não entende necessariamente o que você está cantando? A língua se mostrou uma barreira em algum momento?
Pelo contrário. Foi incrível ver que as canções comunicam para além das palavras e eu acho que a mistura das línguas gera uma espécie de curiosidade, porque a maioria só entende uma parte e raro o todo, então a parte que se entende ganha mais importância. É como eu quando cheguei nos EUA que me agarrava à parte que entendia pra conceber o todo e a fala, assim como a música, tem muito para além da palavra. No meu caso o contexto e a linguagem corporal compensavam a falta de vocabulário, e na música tudo aquilo que não é palavra quer significar. Mas eu, que dou muito valor à palavra, fiquei muito feliz de ver que minha escrita nessas outras línguas deu muito certo, que eu fui respeitado e vi muito interesse no que escrevi em Inglês e Francês.

Numa declaração pra Rolling Stone do Brasil você disse que música precisa falar por si só, ter o seu significado dentro da interpretação do ouvinte. Esse teu jeito de pensar reflete a ousadia estética de lançar um CD com uma capa que não é uma capa, é o miolo, e tudo se confunde e simplifica. Como foi isso, brincar com esse monte de reinvenção na hora de finalmente o apresentar: “está aqui, esse é o cavalo”?
A coisa da capa foi quase automática. Eu falando do espaço, da incompletude, do silêncio que serve para revelar aquilo que se quer ver, não podia deixar de aplicar isso à arte. Além disso, o nome do disco é uma imagem, não há necessidade de dar ainda outra imagem. Eu quis que a arte fosse o menos direcional possível, o menos competitiva possível, um contraste à gritaria de poluição visual que a publicidade com seu desespero e esvaziamento de tudo nos massacra em todo canto. Eu pensei, se tá tudo mundo gritando alguém tem que falar baixo, se tá todo mundo empurrando, alguém tem que dar um passo atrás e acreditar que, se há alguém interessado, esse alguém vai chegar. Eu quis que não houvesse nada que servisse de atalho até a música para justamente deixar a imaginação escolher as cores que quisesse. E escrever o meu nome pequeno, sem medo, acreditando que talvez seja uma grande estratégia fazer o oposto do que se vê por aí.

O disco foi gravado na sua garagem, no galpão de uma fábrica, nos lugares que foram surgindo. Por que gravá-lo de formas tão inusitadas?
Não foi uma ideia de não gravar em estúdio profissional, mas antes a necessidade de controlar e habitar o espaço de gravação, de ter o meu próprio estúdio, então gravei onde foi possível, onde achei conveniente. Ter um estúdio a minha disposição sem ter que pagar por dia era uma coisa que eu queria experimentar, porque sempre achei que a correria de terminar as gravações rapidamente pra não gastar muito dinheiro acabava por podar ideias que surgem no momento e eu, como estava sozinho, queria experimentar, tentar gravar coisas que não sabia se ia conseguir. Bateria, saxofone e ainda experimentações sonoras então construí meu próprio estúdio, soldei meus próprios cabos, até a mesa eu fiz.

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Lançado em formato digital em setembro de 2103, “Cavalo” é o primeiro disco solo do cantor e compositor carioca, Rodrigo Amarante

A família do seu pai teve um bloco de carnaval em Saquarema. Anos depois as imagens dessa festa em família vieram ilustrar o videoclipe de Maná,  que é o contraste desse seu Cavalo tão introspectivo. Por que você escolheu esse momento da tua vida para contar essa história?
Maná é uma espécie de contraponto do disco, é um pilar que, junto com Hourglass, serve pra dar escala ao espaço, isso no sentido do arranjo. Na mensagem ela fala da música como cura, da celebração da dança como função, necessidade que vem desse prazer que vira cura. Eu escrevi a música para minha irmã, que pra mim representa isso, ela é baterista da Mangueira e uma montadora de filmes genial, cresceu comigo nesse carnaval. Então essa música, que é uma homenagem à minha irmã, é também pela tradição de samba que nós vivemos juntos, uma homenagem a essa parte da família e à noção de que a música tem esse poder, e por isso essa função que dentro do disco representa aquilo que eu já não tenho. A memória de algo distante em espaço e tempo, localiza o resto do disco muito distante dessa festa, fazendo ele ainda mais amplo e espaçoso.

A decisão de acabar o Los Hermanos abriu um leque de gigantesco de possibilidades pra todos da banda, vocês puderam se redescobrir na música, individualmente. Como é estar sozinho depois do furacão que foi a banda?
É muito bom estar só, não sei dizer se é melhor, mas no momento sinto-me muito bem de poder ter feito o que fiz desde então. A vida passa ráido pra aqueles que se acomodam e eu não estou nem estive satisfeito então é bom viver algo que é tão diferente daquilo, aprender outras lições, ver outras paisagens. Tá ótimo.

O processo de construção de Cavalo foi muito individual, mas para levá-lo aos palcos você está muito bem acompanhado de grandes músicos, como foi a escolha do Todd Dahlhoff, Matt Borg e Mathew Compton para essa caminhada?
Esses são todos bons amigos. O Todd e o Matt eu conheci na turnê do Little Joy, eles eram da banda Dead Treesm que acabou virando parte do Littte Joy. Depois disso o Todd virou baixista de quase tudo que eu fiz, Little Joy, Devendra, Adam Green e a minha banda. O Matt Borg, depois do Dead Trees, parou de viajar, mas eu arranquei ele de casa porque ele é muito bom e um dos melhores companheiros de viagem que já tive. O Cornbread é grande amigo do Todd e do Matt e tocou com eles em várias bandas, e acabou virando baterista do Devendra também. Aí não teve nem o que pensar muito. Tenho sorte de tocar com esses caras, eles tão todos muito animados de vir pro Brasil.

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O eterno Los Hermanos mostra seu mais recente trabalho, em show intimista, neste sábado (22), no Orákulo

Como fica o Little Joy no meio disso tudo, está só aguardando você, Fabrizio Moretti e Binki Shapiro terem mais tempo? Chegaram a escrever ou gravar algo novo juntos?
A gente chegou a gravar umas demos e recentemente eu e Fabrizio nos encontramos na Holanda, pra falar de gravar juntos de novo. Quando a gente viajou junto com o Devendra a gente até escreveu um pouco juntos. Eu agora quero terminar essa turnê e fazer outro disco solo logo na sequência, mas acho que a gente deve gravar pelo menos um outro disco alguma hora, acho que não vai tardar. Vontade não falta.

A sua parceria com o Devendra Banhart rendeu participações suas no CD dele e vice versa. Você também participou da turnê dele, e ano  passado ele declarou que vocês pensavam em gravar um CD juntos, com composições em francês. Essa ideia sai do papel?
Eu gravei três discos com ele e fiz essas turnês quase todas, nós somos parceiros na música mas muito amigos, então a gente já vem falando disso, e outras ideias do tipo já há um tempo. É preciso achar o tempo certo de fazer isso entre os meus compromissos e os dele. Agora que ele voltou pra Los Angeles (morou esse ano passado em NY) ficou mais provável de acontecer em breve. Vamos ver.

Você já manifestou a sua vontade de ser pintor, e nos versos de “How to hang a Warhol” (Little Joy) você brinca que sua mãe um dia vai ficar orgulhosa de você, expondo em uma galeria de NY. Voltando um pouco no tempo, o encarte do 4 estampa uma de tuas pinturas. Como é a tua relação com isso, você ainda pinta?
Eu cresci querendo ser pintor, ainda pinto e desenho por prazer, mas acabo não desenvolvendo um trabalho sério porque para isso é preciso tempo e dedicação, que eu não acho faz um bom tempo. Adoro quando um amigo me pede pra fazer um pôster de alguma coisa ou algo assim, porque me dá oportunidade de cair dentro desse mundo que eu amo, mas fora isso não fico muito tempo pintando esses dias. Talvez um dia eu acabe mostrando esses quadros, mas ainda acho que não há nada de muito bom. É um prazer pensar em palavras, que é o que sinto quando pinto.

Com o Los Hermanos você já tocou em Maceió algumas vezes, e agora volta sozinho, graças ao projeto Queremos, que aqui teve uma iniciativa do pessoal da Alagou. A tua vinda teve influência direta da colaboração ativa dos teus fãs, como tem sido reencontrá-los nesse trabalho novo?
A minha alegria de ir aí é justamente poder conhecer de corpo presente aqueles que ouviram esse disco e gostaram. Sei que tem muita gente que é fã do Los Hermanos ou Little Joy, que ficou curiosa com o meu disco, mas acho que aqueles que apoiaram essa minha vinda, que fizeram ela acontecer, são aqueles que gostaram do disco, então é um recomeço. Não vejo a hora de conhecer, ou reconhecer esses que virão.

Depois dessa pequena turnê brasileira de retorno do Cavalo, o que você planeja para depois? O que esperar para 2015?
O próximo disco. Assim que voltar pra casa começo a trabalhar no próximo. Ainda tenho outra turnê nos EUA em Março e Abril, mas enquanto isso eu vou escrever. Quero fazer um segundo solo no ano que vem antes de partir pra outras venturas ainda desconhecidas.

O show acontece no próximo sábado (22), às 22h, no Orákulo. Confira a página do evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/865306423510260/?fref=ts 

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