Entrevista, Música

A graça de Jeneci

O cantor e compositor paulista Marcelo Jeneci fez pequenas pausas antes de responder as perguntas feitas pelo repórter da Graciliano. O silêncio registra o momento em que procura “a palavra certa, precisa”, como disse na entrevista realizada por telefone na última terça-feira (20). Foi lapidando de forma semelhante suas ideias e inspirações, que Jeneci compôs boa parte das letras de seu segundo CD, “De graça” (Slap/Natura Musical), o qual ele apresenta no Teatro Gustavo Leite, no dia 28.

Diferente do álbum de estreia “Feito pra acabar”, que traduz uma “explosão” de experiências vividas até então, Jeneci contou que “De graça” coincidiu com uma fase pontual: a chegada aos 30 e a separação de um casamento. O que, observou ele, levou “a redescoberta de si mesmo”.

Ao longo da sua carreira, Jeneci emplacou diversas músicas em trilhas de novelas da Rede Globo e seu nome já se consolidou como um dos talentos da atual música brasileira. Agora, em processo criativo para o seu mais novo trabalho, revelou: “Tenho me isolado um pouco pra chegar mais em mim”.

Após cinco anos desde o lançamento do seu primeiro CD, o músico revisitou sua carreira e definiu “De graça” (que pode ser ouvido em www.natura musical.com.br) como “um resultado sincero” do que viveu depois da experiência na estrada com o “Feito pra acabar”. “Tenho fascinação por mostrar o que está sendo vivido e representar isso musicalmente me fascina”, afirmou no bate-papo que você confere a seguir.

Já faz cinco anos desde o lançamento do seu primeiro CD. De lá pra cá, muita coisa deve ter mudado na sua vida. O que “Feito pra acabar” representou pra sua carreira?
Foi a primeira explosão interna, né? Como se tudo o que vivi até aquele momento, no que diz respeito aos meus pais e avós que me criaram, pelos amigos, e também por todas as incursões musicais que começaram cedo na minha vida, desde os oito. Então, “Feito pra acabar” é uma explosão de um acumulo disso tudo, que foi vivido e percorrido, talvez não muito, mas muito mais significativo para mim. E a partir dele, eu venho vendo e pegando carona no mesmo reflexo. A explosão também reflete para o outro lado. Estou aproveitando esse salto, esse primeiro impulso, que “Feito pra acabar” deu, e agora, com “De graça”, remando mais um pouquinho para manter a seqüência.

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Marcelo Jeneci se apresente no Teatro Gustavo Leite, no dia 27 de janeiro, pelo MPB Petrobras (Fotos: Divulgaçã0)

Assim como o seu disco de estreia “Feito pra acabar” incorpora fatos da sua trajetória pessoal (a periferia, por exemplo), em “De graça” também acontece o mesmo. De que forma as novas experiências que você viveu no decorrer do primeiro pro segundo CD, estão contidas neste novo trabalho?
Eu sempre penso que os discos são uma fotografia daquele momento. E revelam o que você quer dizer, pra onde você está olhando, tentando chegar aonde não chegou, e ecoar aonde não ecoou. O “De graça” é um resultado sincero do que vivi depois da experiência na estrada com o “Feito pra acabar”. E isso na minha vida pessoal coincidiu com uma fase pontual que foi a chegada aos 30 e uma separação de um casamento; a redescoberta de si mesmo.
Então, no momento em que isso aconteceu eu acho que me pulverizei entre amigos, amores, cores, experiências, sabores e fui me aproximando desse recado que todo mundo sabe [e está contido em] “De graça”. Isso tudo foi vivido na pele mesmo. Foi sentido e tentei me revelar nas canções, nas escolhas dos sons, nos caprichos, sabe? Tentando contar para todo mundo o que tenho vivido e pra onde estou olhando. Ele [“De graça”] realmente tem esse negócio.

Há um tom otimista nos seus álbuns. Mesmo com a separação, suas canções trazem uma mensagem para seguirmos em frente. A dor da ruptura também é potência criadora. De onde vem o seu otimismo?
Eu não sinto como otimismo. Eu não acho que as coisas vão dar certo, que tudo vai ficar bem. Eu acho que sempre que a gente vive uma situação que não ficamos bem tem um lado de aprendizado e de luminosidade, que faz a gente entender mais coisas; sendo possível transformar isso em algo positivo. O que é diferente de otimismo. Eu acho que as coisas dão certo ou errado. Acho que a vida é feita pra tirar o que a gente vai acumulando. E dentro disso tem muita luz, recado, alerta, tem disso que o tempo não é esse que a gente imagina, ou deseja que seja, as coisas vão se desenhando. Às vezes, as relações insistem em acontecer, as coisas vão apurando, se a gente tiver pré-disposição para viver a vida. É extraordinário viver. É muito rico está aqui. Saboroso. Então, tem que ser degustado em todas as situações. É o que eu sinto. E acho isso uma esfera diferente da do otimista.

No primeiro CD, você reuniu grandes letristas com os quais havia trabalhado. Em “De graça”, boa parte das letras são de sua autoria. O que levou você a optar por isto?
Pelo mesmo interesse que a gente tem por viajar para um lugar aonde a não viajamos. Mais um desafio, mais uma tarefa, mais uma experiência, um presente. Então, por isso que em “De graça” tentei lidar mais com a minha incapacidade como letrista e acho que isso somado a força da música e a sinceridade gera uma unidade que me convence. Gostei disso. E acho que no terceiro vai ter bastantes músicas com parceiros e outras tantas sem.

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“É extraordinário viver”, ressalta o cantor e compositor Marcelo Jeneci

Sonoramente, o segundo disco diferente bastante de “Feito pra acabar”. Seus fãs perceberam a mudança. Na internet, muitos falaram que estavam se acostumando. O que, no seu ponto de vista, há de diferente neste álbum?
Minha vida ficou diferente. E aí acho que vou ser mais honesto e mais… (como vou dizer… deixa eu achar a palavra certa) útil se eu combinar com todo mundo [seus fãs] o seguinte: que do “Feito pra acabar” até o fim, eu vou contar o que estou vendo e vivendo. Nesta tentativa de compartilhar, eu prefiro oferecer isso, acho mais rico, do que dizer: ‘Se acertar no primeiro, vou manter o formato até o fim pra todo mundo ficar ouvindo o que ouviu no primeiro, no segundo, no terceiro… Ou seja, fazer mais do mesmo. Poderia, mas não tenho fascinação por isso.
Tenho fascinação por mostrar o que está sendo vivido naquele momento e representar isso musicalmente me fascina. Então, a mudança constrói um passeio, uma caminhada, que traz novidade e novidade é o que traz fascinação na minha vida. Com ela, a gente também vai entendendo e sintetizando melhor o que dela [a vida] saí e vai ficando cada vez mais apurado.

“Em ‘De graça’ tentei lidar mais com a minha incapacidade como letrista”, afirmou o cantor e compositor paulista Marcelo Jeneci

Você fez uma recente turnê nos Estados Unidos, como foi esta experiência?
Foi muito bacana cantar num lugar onde a maioria das pessoas, ali no público, provavelmente não entenderiam a letra. Elas estavam ligadas ao que a música representa. E como a maioria das bandas que desenham este cenário indie internacional que escuto é de lá, da Inglaterra, da Europa, busco realizar discos que carregam melodias e escolhas de timbres muito apurados e com capricho no som. Eu me identifico com isso, me interessa muito isso na música. Essa é a minha graça no “De graça”. Então, foi bacana ver isso de perto.

Marcelo, você está com uma turnê nova. Como o público tem recebido as novas músicas? O que mudou em comparação a primeira turnê?
A primeira maneira que eu comecei a perceber isso foi com a quantidade de shows que começaram a aparecer na agenda. Que tipo é no mínimo o dobro que eu fazia no “Feito pra acabar” e a maioria das apresentações com ingressos esgotados com lugares que tinham capacidade para no mínimo mil pessoas. E isso me deixou feliz, porque eu disse: ‘Então, isso é sinal de que o disco somado ao que cada música, ao trabalho que cada técnico da equipe fez, teve um resultado que tem trazido muita gente pra ver de perto’. Então, é muito positiva a maneira como vejo e o que escuto é bem parecido com o que estou dizendo. Uma comemoração com os novos momentos do novo disco e tal.
A conclusão é que o certo é melhorar com tempo. Então pra tudo o que a gente faz com o tempo de vida a gente tem que fazer melhor. Tudo, qualquer esfera que você imaginar que é levar uma turnê para o Brasil e outros continentes a fora, tudo o que diz respeito a isso tem sido feito e realizado e recebido de uma maneira melhorada. Isso depende de esforço de muita gente já que a gente não faz nada sozinho. E como eu tenho a felicidade de estar rodeado de amigos e profissionais maravilhosos. Essa subida, essa escalda, está sendo feita com consciência. Está sendo bonita de ver, viver e de escutar.

O que você tem ouvido atualmente?
Sinceramente, eu estou num período sem escutar nada. Estou compondo, criando e me isolando um pouco pra chegar mais em mim.

SERVIÇO
Marcelo Jeneci – MPB Petrobras
Onde: Teatro Gustavo Leite;
Quando 28 de janeiro, às 20h;
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia);
Pontos de venda: na bilheteria do teatro, a partir do dia 26 de janeiro;
Mais informações: (82) 9808-6067 e 9363-3610.

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