Revista Graciliano
Cortejo Fantástico

Cortejo Fantástico

Comemorando o clima de alegra e animação que se aproxima com a chegada do Carnaval, o blog Graciliano disponibiliza um trecho da reportagem intitulada Cortejo Fantástico, do repórter Francisco Ribeiro. A matéria foi publicada na edição da revista Graciliano, que fala sobre a folia momesca em Alagoas. Confira!

MOLEQUE NAMORADOR, o “Rei” do passo

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A foto acima foi publicada em 1997, no jornal Gazeta de Alagoas, com a seguinte interrogação: “Seria o dito cujo?”. O leitor Carlos Mendonça identificou o artista e ele próprio, sentado no chão vestido num terno impecável, assim como todos naquele dia, e sentenciou: “Era”. A fotografia retrata o mais talentoso e premiado passista de frevo em Alagoas, Armando Veríssimo Ribeiro, mais conhecido como Moleque Namorador.

Farrista em tempo integral, Armando nasceu no município de São Luís do Quitunde. Ao fixar residência em Maceió, morou na Rua Xavier de Brito, no bairro do Prado, mas animava os carnavais da Ponta Grossa ao som do autêntico frevo pernambucano.

Moleque Namorador dividia o seu tempo entre a vida boêmia e a venda de jornais pelas ruas da capital, nos anos 1930 e 1940, ofício que executava sempre de bom humor e sem abandonar o espírito de um verdadeiro folião. Vítima de tuberculose, o passista morreu precocemente, aos 28 anos de idade (algumas fontes afirmam que aos 30), em 1949.

Na década de 1960, durante a gestão do ex-prefeito Sandoval Cajú, foi construída uma praça em sua homenagem, na Ponta Grossa. O local, que abriga uma escultura em memória a seu patrono, tornou-se um reduto dos foliões que mantiveram a tradição da folia de Moleque Namorador.

RÁS GONGUILA, o cavalheiro da folia

A Maceió dos longínquos primeiros anos do século 20 conheceu um ícone carnavalesco de presença obrigatória na história do carnaval alagoano: Benedito Santos, criador e líder de um dos blocos mais tradicionais do Carnaval local, o Cavaleiro dos Montes. Com a alcunha de “Ras” (título real oriundo da Etiópia que designa um guerreiro), e o sobrenome de Gonguila, o jovem negro comandou a mais animada agremiação que desfilou nos quatro dias de folia de Momo pelas ruas da capital.

Nascido na antiga Rua do Macena e morador do bairro da Ponta Grossa, Ras Gonguila foi o mais “disputado engraxate ambulante”, segundo registrou Adenor Bittencourt, em Picadas e Ferroadas (1987), livro de memórias que reúne crônicas sobre o cotidiano da cidade. Benedito tinha como fregueses, políticos, funcionários públicos e poetas. O ponto do engraxate, na Rua do Comércio, tornou-se um local de encontro para o bate-papo de boêmios e pessoas a fim de “jogar conversa fora”.

Fundado por ele no início do século 20 (a data exata é objeto de incerteza até para pesquisadores), o bloco Cavaleiro dos Montes foi inspirado no cinema, em especial, na figura dos cowboys.

Nos desfiles, Ras Gonguila vinha à frente, tocando o clarim que convidava a multidão para a festa. Durante a caminhada – que saía do bairro do Farol, na altura de onde hoje está situado o Hospital Portugal Ramalho, atravessava o Centro e seguia até a Ponta Grossa –, misturavam-se pedreiros, engenheiros, médicos, enfermeiros, desocupados, prostitutas e soldados. No auge, o bloco contava com mais de 15 músicos. Durante os anos em que “botou o bloco na rua”, apenas não pôde participar um ano, por motivos de saúde.

Sem título

Desde 2011, por falta de apoio público e devido a dificuldades financeiras, o bloco não sai mais às ruas. “Antes, na época de Ras, era mais fácil conseguir apoio. No entanto, atualmente, por conta da ausência de patrocínio para arcar as despesas com a orquestra, por exemplo, tivemos que parar”, lamenta o atual presidente da agremiação, Paulo Jorge Jerônimo.

Tamanha eram a popularidade e a importância social de Gonguila que, durante as campanhas eleitorais, o folião era sempre requisitado por candidatos a vereador, prefeito, deputado, e, certa vez, até pelo presidente Getúlio Vargas (1882–1954), para obter o seu apoio, segundo conta Carlito Lima, em artigo publicado no jornal Gazeta de Alagoas, de 7 de outubro de 2012. No palanque, ao lado de Ras, dificilmente o político perderia a eleição.

Segundo registro do historiador José Maria Tenório Rocha, Benedito Santos morreu em 1967, de um ataque cardíaco fulminante, em plena Rua do Comércio, no Centro de Maceió.

SETTON, o eterno Rei Momo de Maceió

Na lista das figuras carnavalescas mais emblemáticas de todos os tempos, sempre constará com destaque a imagem rechonchuda do Rei Momo. Pode até não parecer, mas sua origem remete a um passado bem distante. Tudo indica que o monarca da folia surgiu inspirado em um personagem da Antiguidade clássica, o deus do sarcasmo e do delírio chamado Momo.

Por 19 anos consecutivos, os alagoanos acompanharam a trajetória de um legítimo representante da folia momesca. Salomão Setton Neto, mais conhecido como Rei Momo Setton, nasceu em Maceió no dia 23 de fevereiro de 1920 e faleceu em 12 de maio de 1994. Seu reinado durou de 1970 a 1988. E, para sua sorte, muitas vezes o seu aniversário caía em pleno Carnaval. Não havia presente melhor para um folião: a comemoração não tinha hora para acabar.

momo

No Brasil, a tradição de eleger um Rei Momo apareceu primeiro no Rio de Janeiro, em 1933. Como segue a tradição, geralmente, o escolhido ao trono era alguém gordo e extrovertido. Além de contar com esses dois atributos, Setton também era dotado de uma simpatia incomum. No seu reinado de quase duas décadas, o Rei Momo recebeu a chave da cidade, que ele, simbolicamente, governa durante os festejos carnavalescos.

Mas foi na labuta diária que ele começou a ganhar popularidade pela cidade. O ilustre folião trabalhou na Casa Setton, a loja de tecidos de seu pai, situada na antiga Rua Joaquim Távora (hoje Rua da Alegria), tanto no balcão quanto como cobrador de prestação, o que lhe proporcionou conhecer as pessoas e a cidade como a palma da mão.

A sua veia artística despontou na juventude. Aos 28 anos, Setton foi convidado para fazer parte do cast de inauguração da Rádio Difusora de Alagoas, como cantor, em 1948. Ao lado da sua paixão pelo Carnaval, ele mantinha uma outra: a de torcedor do time alagoano CSA.

Após o falecimento de seu pai, Jacques Setton, a Casa Setton transformou-se no Setton Bar. Segundo alguns frequentadores, o cachorro-quente e o bolo salgado eram o forte do cardápio.

Depois do bar, ele dedicou-se à profissão que abrigava todos os seus atributos de relações públicas: a corretagem.

O nome de Setton Neto, também conhecido pela alcunha de “El Gringo do Samba” (e da folia), entrou para a história das grandes figuras do Carnaval de Maceió. O cantor e compositor Eliezer Setton é filho do famoso Rei Momo.

Para conferir a matéria na íntegra, adquira a revista Graciliano nº 20, já à venda nas bancas.

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