Cinema
A grande comunhão

A grande comunhão

TEXTO NILTON RESENDE  — preparador de elenco em “O que lembro, tenho”, de Rafhael Barbosa.

“— O senhor, Nicolai Stiepánitch, é uma pessoa muito boa. É um exemplar raro, e não existe ator para representá-lo. Eu ou por exemplo Mikhail Fiódorovitch podemos ser representados mesmo por atores ruins, mas o senhor por ninguém. E eu o invejo, invejo-o terrivelmente! Pois o que represento eu? O quê?” (Uma História Enfadonha, de Anton Tchekhov).

Esse trecho de um conto do escritor russo Anton Tchekhov (1860–1904) fala da agonia de uma personagem que se julga pequena em relação ao protagonista da história — mas, também fala da arte de atuar. Segundo ela, os atores bons seriam aqueles que conseguiriam interpretar o que há no profundo de uma personagem, o que vai para além dos aspectos exteriores.

Hoje, faleceu uma grande atriz. Perdemos Anita das Neves, ou Dona Anita, que deu um rosto e uma alma à protagonista do curta-metragem “O que lembro, tenho” (2012).

Dona Anita na preparação dos atores do filme  (Foto: Michel Rios)

A atriz na preparação de elenco do filme
(Foto: Michel Rios)

Dona Anita, em seu primeiro trabalho como atriz, estreando aos 75 anos, presenteou-nos com uma personagem viva, sem artifícios; personagem a quem a atriz emprestou sua consciência de mundo, do que é ser mãe, do que é amar, do que é sentir-se só.

Na véspera do início das filmagens, fomos visitá-la no sítio, eu e Ivana Iza, para ensaiar as primeiras cenas. Percebeu-se então que não poderia haver ensaios, porque isso poderia engessá-la. Daí, assumimos o risco de apenas marcar as cenas, dando à atriz a liberdade de que precisava. Com isso, aprendi que, na função que eu estava exercendo ali, para melhor fazê-lo, eu não tinha apenas que preparar o elenco, mas, principalmente, estar preparado para ele.

Diversas matérias foram feitas a respeito dela e trataram de como ela foi encontrada por Nataska Conrado, que fez a pré-produção do filme. Foi a Nataska que ela disse a frase de que sempre nos lembramos: “vou ser uma atriz linda” — e foi. Essa frase foi dita quando recebeu o telefonema de Nataska convidando-lhe para protagonizar o curta; a atriz que iria fazer a personagem havia desistido, e Dona Anita, cujo sítio iria servir de locação para as filmagens, tinha o tipo para o papel. Convite feito, convite aceito — e filmagem cheia de emoção, do primeiro ao último take.

Primeiro take: a mãe catando piolhos, e toda a equipe chorando e segurando-se para não deixar vazar qualquer som que prejudicasse a cena. Era uma cena simples, da mãe sentada em um banco de madeira enquanto catava piolhos na cabeça da filha pequena. Haveria um travelling mostrando-as silenciosas. Então, de repente, Dona Anita começa a falar, improvisa. Todos nós nos olhamos, surpresos, levando os indicadores aos lábios para que não houvesse algum barulho. Todos nós de olhos marejados, segurando o choro emocionado e o riso de contentamento. Ao fim da cena, já estávamos sabendo: fazer aquele filme, com aquela atriz, não seria algo pouco ou algo de que não fôssemos nos lembrar por toda a vida.

Numa outra cena gravada durante o mesmo fim de semana, a personagem está à beira de um rio, lavando roupas. A descida para lá é um pouco difícil, mas ela vai como quem está acostumada, como quem fez aquilo durante décadas. Então, daquele corpo pequeno, encurvado, cheio de rugas, salta a nossa frente uma força que não imaginávamos. Ela senta-se à margem da água e, contra nossas instruções, senta-se como as lavadeiras dos rios, acocorada, o vestido entre as pernas… ensaboa os panos, com a força de uma jovem… começa a cantar a música que fez, ao fim de uma das exibições, o público inteiro entoar junto. Agora, depois de emocionados pelos improvisos da atriz, somos pegos pela fortaleza que aquele corpo de aparência frágil esconde.

"Vou ser uma atriz linda", disse Dona Anita (Foto: Vanessa Mota)

“Vou ser uma atriz linda”, disse Dona Anita
(Foto: Vanessa Mota)

Último take: uma corrida de táxi em que a filha leva a mãe para um passeio fictício, dando apenas a volta no quarteirão, para que ela tenha a impressão de ter saído de algum lugar e voltado para casa, já que, em casa, ela vive pedindo para estar em casa. Após essa cena, subimos todos ao apartamento/set e abrimos um espumante e damos flores a nossa atriz. Em círculo, todos brindamos, festejamos, rimos. Alguns começam a agradecer por aqueles dias, o choro é inevitável. Dona Anita levanta sua taça com o espumante e fala: “somos vitoriosos”. Choramos todos, atores, produtores, diretores, técnicos. Todos, sem exceção, são envolvidos pela felicidade de ter convivido com aquela atriz, com aquela mulher que entendia tanto de humanidade, de ser amorosa, de receber a todos com um olhar quente, um gesto afetuoso.

Sempre ao lado dela, atento a suas dúvidas quanto às cenas e dando-lhe pequenas orientações de marcação, eu elogiava as cenas ao término de cada uma. Então, ela falava, sorridente: “eu fiz a lição direitinho”. No entanto, a lição aprendemos nós; as lições aprendemos nós. Pois nela havia tanta humanidade que cada um dos componentes da equipe alimentou-se a seu modo, de acordo com sua necessidade, ora aprendendo a ser amoroso, ora disciplinado, corajoso, destemido, silencioso, brincalhão… humano, humano.

No hospital em que estava internada com pneumonia, na noite da sexta para o sábado, Dona Anita teve um sonho: ela fazendo um filme sobre a Eucaristia, “um filme sobre a Hóstia Consagrada”, como disse a todos que a visitaram. Em seu último filme, ela recebia Deus. Após sonhar com isso, Deus a recebeu, ampliando a grande comunhão de que tivemos a alegria de participar quando a conhecemos: uma comunhão agora sem limites físicos. Como sempre a teremos em nossa memória, nesse relicário, nós sempre a teremos.

Seria necessário uma grande atriz para interpretá-la.

 

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