Literatura
Ninho de Cobras – a inquietante prosa de Lêdo Ivo

Ninho de Cobras – a inquietante prosa de Lêdo Ivo

Depois de percorrer as principais ruas do centro de Maceió, quando o dia ainda estava amanhecendo, a raposa foi abatida a pauladas. Houve quem considerasse o ataque dos homens sobre o bicho uma manifestação de repulsiva selvageria; mas houve também aprovação enfática à eliminação do animal, cuja presença inaceitável, diziam alguns, não combinava com um Estado civilizado.

Já o suicídio de um comerciante de passagens aéreas foi alvo de controvérsia, depois que alguém especulou uma suposta ação do tenebroso Sindicato da Morte. Nada ficou provado.

Cidade-cemitério banhada pelo mar. A decadência atraca e se espalha a partir do porto. Do Jaraguá ao Trapiche, do Centro aos tabuleiros, predomina o cheiro de açúcar. De bonde, todos os dias passageiros espiam as dunas naquela parte da cidade, perto da praia.

A diversidade aparente inexiste na essência dessas vidas, de rotina organicamente reiterada: e tome fuxicos, trambiques, conformismo, ignorância, autoritarismo, violência, estupidez política, mesquinhez, traficâncias mil, mediocridade… Futuro? Perspectiva zero.

Magistralmente construído, em capítulos curtos e arrebatadores, com personagens e episódios que vão se cruzar (e se embaralhar) ao longo de todo o romance, Ninho de Cobras é Lêdo Ivo, o grande poeta, provando que, na prosa, o negócio também é com ele, é um mestre.

A trama, meio realista meio fantástica, tem Maceió e Alagoas como cenário, no Brasil dos anos 1930. Nomes de peso da elite política e intelectual da época expõem suas idiossincrasias, com opiniões e atitudes quase sempre ofensivas aos melhores padrões de convivência.

O escritor deu à sua obra o sugestivo subtítulo de Uma História Mal Contada, como se antecipasse, numa provocativa auto-ironia, algo do clima de vertigem, na linguagem estilhaçada, que está por vir.

Ao embalo de um narrador onisciente, o texto nos dá um painel humano e social erguido na pluralidade de vozes, na cadência variada de frases e na alternância de divagações, fluxo de consciência, descrições e diálogos.

Lançado em 1973, em boa medida esse livro dá referências seguras sobre as ideias do autor acerca dos dilemas da criação literária. Em vários momentos, a narrativa de miudezas ordinárias abre uma via para digressões sobre os estilos conflitantes de contar uma história.

Pulsante, mais atual do que nunca, a obra dialoga com a tradição, combate lugares-comuns consagrados e, por isso mesmo, estremece e revigora a arte da prosa em nossa literatura contemporânea.

O leitor poderá conferir, em breve, a nova edição do romance de Lêdo Ivo, morto em 2012. O lançamento pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos está previsto para o segundo semestre deste ano.

Clique aqui e leia o primeiro capítulo de Ninho de Cobras

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A RAPOSA

Naquela madrugada, uma raposa havia descido até o centro da cidade.

Viera das matas que, mesmo à noite, guardavam nos ramos secos o calor do verão e, depois de atravessar arbustos aleijados, se afastara dos troncos e galhos que, às vezes, crepitavam surdamente no escuro.

Perto do tabuleiro onde os norte-americanos tinham, no início da guerra, construído o aeroporto, ela estacou, e seus olhos refratários aos sonhos e à desolação se fixaram, por um instante, nas luzes vermelhas do campo de pouso. Após um momento de espreita, escolheu a estrada mais larga e veio descendo contra a cidade. Esgueirou-se junto à cerca de um sítio, quando um velho caminhão arquejante, que deixava escapar óleo, clareou a estrada poeirenta, de barro batido, e logo continuou o seu caminho, atravessando avenidas de bangalôs engolfados em jardins sombrios e ruas desertas. Só as luzes dos postes brilhavam. A queda de um oiti ocupou, por um instante, o silêncio da noite, como se o fragmento de uma estrela tivesse caído sobre a terra. E uma lacraia se refugiou num monte de madeiras podres, diluiu-se no negror do cascalho.

A raposa atingiu a primeira rua de paralelepípedos, cruzou obliquamente uma linha de bonde, desceu a Ladeira dos Martírios, e começou a vaguear pelas ruas estreitas do centro da cidade. Na escuridão, parecia um cachorro vadio. Mas desde o momento em que surgira num atalho das matas rígidas até aquele em que atingira a Rua do Comércio, nenhum olhar humano a divisara ou se demorara nela, nem mesmo para confundi-la com um pulguento cão sem dono. E não se saberia dizer se ela revelava espanto, astúcia ou curiosidade.

As casas dormiam, e pareciam ainda mais acachapadas, mesmo as que possuíam mais de um pavimento. Os homens e mulheres dormiam. Cheirando a suor, a esperma, ao açúcar que há séculos escorria da paisagem, a uma secreção qualquer, eles dormiam na noite vidrada, e sonhavam e se agitavam, enquanto morcegos balançavam como lâmpadas nos caibros dos telhados e mosquitos zuniam, e ratos e baratas se movimentavam desembaraçadamente na escuridão.

E, fora, na rua sem aragem, embora não estivesse longe das ondas, a raposa espreitava, ia e vinha. Como se o esponjoso cheiro do mar a tivesse atraído, continuou descendo ruas até atingir a beira da água. Pela primeira vez suas patas conheceram a doçura da areia da praia.

Aproximou-se do oceano, deixou que um rastilho de onda lhe umedecesse as patas, sem enxergar a brancura azulada das nuvens, e sentiu nas unhas secas o estonteante refrigério da água viva. Curvando o focinho, estendeu para as águas a sua vibrante língua sedenta, mas logo a retirou, num movimento de vertigem e náusea. A detonação das vagas parecia conturbá-la.

Afastou-se do mar e seguiu pela praia até os trapiches negros que, cheirando a açúcar mesmo à noite — quando todos os armazéns estavam fechados e não havia nenhum trabalho de estiva — avançavam para o mar, apoiados em estacas verdenegras que, presumivelmente, jamais apodreceriam e haveriam de entrar para a eternidade com a sua imemorial solidez. (Perto, debaixo de uma daquelas casas, estavam sepultados os marinheiros ingleses. Havia muitos anos, um navio ancorara no porto de Jaraguá, com peste a bordo. Os cadáveres dos marujos mortos de febre amarela tinham sido desembarcados e enterrados na praia que, com os tempos, se converteu numa avenida, suprimindo-lhes os túmulos. E, em certas noites, quando há navios ingleses ancorados no porto, as almas desses marinheiros vagueiam pelas ruas desertas de Jaraguá, procurando barqueiros que os levem para bordo e os façam repousar sob a mesma bandeira que os cobria nos dias em que, embarcando no navio perdido, eles sonhavam com um verde trópico de coqueiros, papagaios, canários e mulheres morenas). A raposa deteve-se junto a uma barcaça, possivelmente farejou o casco que, dias antes, tinha sido pintado de novo, e cheirava a alcatrão. Um caranguejo roçou nela a sua pata dianteira da esquerda.

Momentos depois ela parava junto aos degraus da Associação Comercial, contemplava as colunas brancas do edifício que se projetava na negridão da noite, como uma sombra leitosa e virginal. Chegou a subir dois ou três degraus. A alguns metros dali, no escritório da Western, um telegrafista estava acordado, e sua vigília era doce como o próprio sono e se mantinha levemente no ar amarelecido de uma sala, enquanto ele, o olhar fixo na ilustração de uma folhinha, esperava os sinais fortuitos que, através dos cabos submarinos, atravessavam a noite granulosa das águas, onde nenhuma estrela fulgia.

Num movimento rápido, a raposa mudou de direção, e veio pela rua que cheirava a açúcar e a cebola. (Atrás das portas cerradas das fachadas leprosas, que o vento do mar fora ulcerando, jaziam sacos de açúcar de banguê e de cebola, fardos de algodão, aguardente, milho, coco, fibras têxteis).

Apesar da proximidade do mar tumescente que projetava nas ruas próximas o odor de evasão e maresia — a desnorteante mistura de viagem e de podridões que, situando-se numa linha indecisa e flutuante, tanto podia ser de lixo acumulado como o fedor de poliédricas e gosmentas dejeções marinhas —, apesar dessa vizinhança de sal e navio, musgo e marisco, as ruas possuíam uma pesada e mortiça qualificação terrestre. Era como se ali, naqueles sobrados de gradis ferrugentos e nas calçadas tortas e em declive, o homem se tivesse empenhado em construir o seu primeiro e mais resistente baluarte contra o mar e a evasão, levantando um monumento que, mesmo à noite, cheirava a mercancia e a lucro. E as janelas fechadas escondiam o amor e o ódio, a expiação e o terror, o adultério e a sodomia. E, dia e noite, os relógios marcavam o fluir do tédio e da espera insensata.

A raposa parou mais uma vez, reconhecendo no ar um vago e vaporoso cheiro de couro, depois mudado no de melaço. Talvez se estivesse lembrando, naquele momento, de certa hora de sua vida em que lhe entrara pelas narinas o odor dos rios perenes que fertilizavam as várzeas do lugar onde ela nascera. Mas nunca poderia dizer se esse instante em que herdara o sentimento de seu ambiente natal transcorrera de dia, sob o sol que fazia com que as carnaubeiras fremissem, ou se fora à noite, quando a terra bebe a claridade das estrelas. Também não lhe seria possível discernir se, naquele momento remoto, ela morava na Zona da Mata, onde os canaviais haviam crescido no lugar das imemoriais florestas varridas a fogo, e os caetés perseguidos pelos colonizadores se haviam esvaído, ou se esse minuto já defunto se diluíra de si mesmo em outra paisagem, entre mandacarus e coroas-de-frade. Agora, sentia em seu dorso a carícia do vento do mar, e todos os seus instantes antigos se confundiam e se dispersavam.

Numa mescla de astúcia e desnorteamento, a raposa voltou ao centro da cidade, entrando por outros becos. E decerto esse ziguezagueante pervagar num horizonte fuscalvo lhe deu uma visão geral de Maceió, apesar de não ter ido até as margens da lagoa e nem mesmo ter chegado às proximidades dos dois cemitérios. Ao descer a ladeira, depois dos sítios, das casas ajardinadas e dos bangalôs, a raposa vira, do outro lado da igreja, o Palácio do Governo. O cartaz dilacerado do cinema Rex (era o antigo cinema Floriano onde, há muitos anos, comerciantes, advogados, médicos, funcionários estaduais comidos de dívidas, fazendeiros e assassinos riam, após o jantar, assistindo às comédias de Carlitos e vendo as banhistas de Mack Sennett sumirem-se, evanescentes, nas dunas de um mar quase sépia, quando não se deslumbravam com o espetáculo de um campo de neve, todavia escurecido), a tabuleta de um cartório, o trem da Great Western já parado na estação, à espera dos passageiros que ao amanhecer partiriam para o Recife, o quartel da polícia, o Sovaco da Ovelha, a cadeia, o Hospital de São Vicente, o Teatro Deodoro, as estátuas dos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto — que incutiam nos alagoanos o sentimento glorioso de que o País lhes devia não só a proclamação como a consolidação da República —, a Rua da Lama (onde as putas dormiam finalmente, em quartos que cheiravam a loção), tudo isto ia desfilando pelos olhos da raposa, e era admissível que ela sentisse, na área mais intelectual e deslumbrada de seu instinto, que estava percorrendo uma cidade, a primeira e única cidade que haveria de conhecer em toda a sua vida.

No quartel da polícia, uma sentinela, que bocejava de sono, viu a raposa movendo-se ao longe, mas em nenhum instante lhe passou pela cabeça que tratasse de outro bicho que não fosse um cão vadio. No Hospital de São Vicente algumas janelas estavam iluminadas. Uma se abriu exatamente no momento em que ela atingia a calçada oposta, mas a freira que a descerrou para espreitar por um momento a hirta desolação da noite, paralela à sua vigília, não viu o animal que se esgueirava em direção à esquina. A freira sofria de insônia. De madruga, abrira por uns instantes a sua janela (como costumava dizer para si mesma) e ficara a contemplar aquela escuridão lavada e, contudo, opressiva que antecipava a aurora. A brisa vinda do mar próximo, que lhe refrescava o rosto, parecia libertá-la de tudo o que, nela, era aceitação e espera, renúncia e perplexidade — vazio pessoal que se enchia, diariamente de rostos lívidos, humilhados pelas doenças.

Minutos depois, a raposa sentia nas narinas um cheiro de sangue e carne crua. Estava atravessando exatamente o largo diante do qual se erguia o Mercado Municipal, que cheirava a frutas e matadouro. De repente, porém, esse odor nauseante era substituído por um longínquo, mas, discernível cheiro de oceano. E, de muito longe, dos recifes de areias e corais, dos mangues e maceiós onde os goiamuns dormiam, dos coqueirais surrados pertinazmente pela ventania, dos canaviais que avançavam até a beira do mar, das várzeas cobertas de tiririca, vinha um aroma que, pelas frestas dos telhados, penetrava nas casas e se filtrava no sono das criaturas. E ao sono de cada um, à fração inconfessável de sonho, acrescia-se esse aroma da noite que agonizava. Era talvez um perfume de cajueiro florido, ou de folha de ouricuri batida ritmadamente pela brisa. E esse cheiro, vindo de todos os lugares, dos estuários dos rios, dos tabuleiros e barradas, do fundo dos recôncavos, das dunas e rios, das praias nuas, dos campos brejados, dos vales e lagoas, misturava-se ao sono dos homens, ao que neles era mais especificamente humano, terrestre e vital, como a ambição, a mendacidade, o adultério, ou certa crueldade mais ostensiva durante o mormaço, como se a nutrisse a cega luminosidade do dia mole e pleno.

A raposa, que se recordava confusamente de um rio jamais seco, observava que a escuridão se ia diluindo. Um jasmineiro fremia, escondido por um muro. Bananeiras ruflavam. Vinha dos quintais o amiudar dos galos. Galos cantavam. Tornavam-se mais claras as fachadas das casas, que os aguaceiros lavavam em vão. Até mesmo o muro do necrotério, onde só havia um cadáver — o de um carroceiro que morrera afogado e o mar vomitara, monstruosamente redondo e inchado de uma turbilhonante vida de água —, prometia uma claridade radiosa, assim que a aurora viesse. Cães latiam. E ela espreitava, e era como se sondasse menos a perspectiva que se desdobrava baçamente diante de seus olhos do que a substância espessa do próprio presente. Seus olhos cinzentos, vivamente animais, que não tinham o dom da lembrança, mas apenas o do reconhecimento, não se recordavam do forno para o fabrico de cal, que vira certo amanhecer perto da casa-grande de um engenho, nem da raiz de mandioca encontrada ocasionalmente num chão calcário e farejada com indiferença. De nada se lembrava — e diante dela estava o instante, hialino como um quartzo, matéria que talvez tivesse o poder de ferir-lhe as patas e a cauda. Agachou-se, à maneira dos cães, para urinar, junto a um muro onde, na noite anterior, fora garatujado um protesto: Abaixo o Estado Novo. Abaixo a ditadura.

Naquele átimo de tempo em que o mijo da raposa borrifava uma nesga da parede da casa e escorria pela calçada, o professor Serafim Gonçalves não sonhava, na larguíssima cama que lhe abrigava o corpo tornado ainda mais gordo pelo sono. Apenas dormia, a sono alto, roncando, e era como se não existissem nem a sua gordura nem os recursos extraordinários que há anos estavam no Supremo Tribunal Federal, nem o rosto de seus clientes e alunos. Ao seu lado, magra, fina, o corpo acusando-se em ossos e músculos, sua mulher ressonava, abraçada ao travesseiro de macela. Ela sonhava, mas era uma informe garatuja de sonho, que jamais poderia alçar-se à categoria de uma narrativa.

Com a bexiga aliviada, a raposa prosseguia em seu vaguear através da cidade escura e deserta. O céu se envermelhava, os contornos das janelas e portas e das varandas fuligentas se faziam mais nítidos nas fachadas esborcinadas pelas chuvas.

Calendários toscos do tempo, as coisas proclamavam, na semiescuridão, o século, o ano, o dia. Nos cartórios fechados jaziam as histórias de papel da cidade: nascimentos, inventários, casórios, toda a empoeirada e infindável crônica de milhares de destinos sedentários que o tempo esvaziara, fieiras de nomes sem rumor e significação, sem rostos e sem vozes como as pedras das ruas e os azulejos despregados das platibandas que as intempéries iam puindo. E da polpa de um oiti dilacerado pela queda no pátio do colégio evolava-se um perfume penetrante, rival da infância.

A raposa, que tinha do fluir das horas apenas uma noção obscura, apesar de cadenciada pelo ininterrupto suceder-se dos dias e noites, sabia que a aurora estava rompendo. O recrudescimento dos cantos dos galos e as manchas cor de lavareda que listravam o horizonte e avançavam pelas paredes decrépitas anunciavam o arraiar da manhã. Sentindo sede, parou e bebeu a água suja de uma poça que refletia o palor de um céu de vidro. Tendo contornado o muro de um colégio, subiu a rua, do lado esquerdo, contrário ao muro que guarnecia o jardim do Palácio do Governo.

E, no silêncio, o galo cantou. Era um galo de plumagem dourada, resplandecente, e sua crista rubra rivalizava com a vermelhidão da aurora. Magnífico, exultante, cantou, jubilosamente, no esplendor da manhã nascente, acordando o interventor e os magistrados, as putas e as beatas, proclamando a glória do dia, enquanto suas esporas aguilhoavam a terra inteira.

Foi então que, no posto policial, um guarda descobriu a raposa com os seus olhos bugalhados e a reconheceu como se ela fosse a preciosa e jamais conseguida relíquia de sua infância. Chamou por um companheiro e a apontou. O outro, limpando com os dedos a remela dos olhos, ainda duvidou. Mas era uma raposa! De repente, o animal sentiu-se ameaçado e perseguido. Caíra numa armadilha, às suas costas e à sua frente se levantavam paliçadas. Como todos os animais, não acreditava em sua própria morte; julgava-se imortal, não obstante admitir a sua imortalidade com a morna indiferença dos seres sem metafísica. O certo, porém, é que estava acossado, na cidade que despertava pouco a pouco, e em cujo silêncio nativo se incrustavam os rumores mais diversos (e águas ferviam em chaleiras ou escorriam de torneiras recém-abertas, e pães saíam de fornos crepitantes, e a freira que sofria de insônia se aproximou da cama em que agonizava uma velha de olhos de sapiranga, e a faca ensanguentada de um açougueiro rasgava o que fora outrora o peito de um boi, e um padre, sentado à beira de uma cama, amarrava os cadarços dos sapatos, e uma mulata de olhos verdes, na pensão da Dina, tinha o seu sono quebrado pelos apitos de um navio). Era a manhã que raiava, tornando o céu momentaneamente lilás e demasiado alto para ouvir os gritos de alguns homens que perseguiam uma raposa. E esta, com os seus olhos cinzentos e uma elasticidade que provinha de seus ancestrais habituados a perseguições bem mais tenazes e cruentas, era assenhoreada confusamente pela noção de que se achava entre a existência e o nada, como alguns minutos antes se sentira situada entre a sede e a água. Depois, tornou-se mais imperiosa a sua convicção do perigo. Homens se aproximavam dela, grotescos como espantalhos, as beiçarias abertas num sinal de impiedosa alegria, portando instrumentos mortais que haveriam de golpeá-la.

E, num fiapo de tempo, bem menor do que aquele em que um estilhaço de estrela resvala no céu escuro e cego, a raposa conheceu a morte, algo atordoador e fulgente que só poderia ser a morte, caso esta existisse em toda a sua absurda plenitude e dura magnificência, e não fosse apenas uma ficção ou um ponto de referência dos vivos deixados repentinamente de amar e odiar, demitidos de súbito de sua grandeza e miséria. Era a morte que, incandescente e perversa, a alcançava, alterando a sua inconfundível beleza animal, tumultuando-lhe o sangue, destruindo a sua ardente harmonia de movimentos, tornando vítrea a sua visão da manhã cristalina e fantasmagórica.

Desfigurada pelos golpes que os homens lhe haviam vibrado, ela ficou jazendo durante mais de uma hora sobre as pedras da rua. Era um montão de carnes e pelos informes e ensanguentados, e em torno dela se revezava um círculo de curiosos, cambiando os comentários mais variados. Quando o dia já clareava por completo, uma carroça de lixo parou perto do ajuntamento, e o cadáver da raposa foi jogado entre os monturos.

 

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